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Allan Ravagnani AI-451

Big techs demitiram quase 100 mil neste ano mostrando que a IA também esmaga os andares de cima

Publicado 06/05/2026 • 14:30 | Atualizado há 38 minutos

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Allan Ravagnani

Redator

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • Big techs cortaram quase 100 mil funcionários em 2026 enquanto registravam o trimestre mais lucrativo da história recente do setor
  • Mercado financeiro premia demissão e pune gasto em infraestrutura de IA, segundo professor da FGV ouvido pela coluna
  • Trabalhador cognitivo de alta qualificação substitui caixa de supermercado como símbolo desta nova etapa de automação
big techs escritório vazio

Mais de 92 mil profissionais de tecnologia foram demitidos nas big techs - e substituídos por Inteligência Artificial - só nesses primeiros meses de 2026. As mesmas empresas que assinaram esses cortes, Microsoft, Meta e Oracle entre outras, divulgaram, no mesmo período, os melhores resultados financeiros das próprias histórias.

A reação do mercado, que tratava demissão em massa como um sinal de empresa em apuros, foi aplaudir.

A pergunta que qualquer trabalhador de tecnologia, brasileiro ou de qualquer lugar, não tira da cabeça é o que mudou e quanto tempo até essa mudança chegar em mim. A resposta curta é que mudou o vocabulário, não a natureza do que está acontecendo. A resposta longa exige olhar para os números sem o filtro do release oficial.

A Meta cortou 8 mil pessoas, cerca de 10% da própria força de trabalho. A Microsoft ofereceu pacotes de aposentadoria antecipada para algo em torno de 7% dos seus 150 mil funcionários americanos, a primeira vez em 51 anos de história que a empresa fez algo assim. A Oracle anunciou demissão de até 30 mil pessoas. As big techs lideram a lista do portal Layoffs.fyi, que cataloga os anúncios um a um.

No mesmo trimestre, a Meta registrou US$ 56,3 bilhões de receita, alta de 33% em relação ao ano passado, com lucro líquido de US$ 26,8 bilhões. No mesmo dia em que anunciou esses números e o corte das 8 mil pessoas, a empresa também elevou a previsão de gastos com infraestrutura de IA para uma faixa entre US$ 125 e 145 bilhões em 2026. Quase o dobro do que gastou em 2025, e mais do que a soma dos dois anos anteriores.

🔍 Capex é o termo do mercado financeiro para investimento em ativo fixo, em infraestrutura pesada que vai durar anos. No caso das big techs em 2026, capex é gasto com chip Nvidia, com data center, com usina de energia para alimentar o data center. Não é gasto com gente. É exatamente o oposto.

A leitura empresarial do movimento veio embrulhada em palavras educadas. "Eficiência operacional", "sinergia de times", "otimização de estrutura". Conversei com Pedro Teberga, professor da FGV e especialista em negócios digitais, que vê o fenômeno sem verniz.

"Investidores já internalizaram um novo modelo: crescimento de receita sem crescimento proporcional de headcount é encarado como maturidade operacional", disse. Em outras palavras, o mercado parou de exigir que a empresa contrate para crescer e passou a exigir o contrário. Demitir virou métrica de eficiência.

Que isso é uma escolha, e não uma fatalidade tecnológica, fica claro quando se olha para o detalhe contraintuitivo do dia em que a Meta divulgou os resultados. As ações caíram 7% após o anúncio. O motivo da queda não foram as 8 mil demissões, foi o aumento do capex. O mercado puniu o gasto em IA e ignorou completamente o corte de gente.

Em alguns casos, como o da Alphabet no mesmo período, a alta foi de 33% no mês, a melhor desde 2004. Demitir entrou na coluna do certo. Gastar com servidor, na coluna do incerto. Esse é o sinal econômico que as big techs estão recebendo de Wall Street, e é a esse sinal que estão respondendo.

Por décadas, a automação foi vendida como uma ameaça que vinha de baixo para cima. O caixa do supermercado, o operário de fábrica, o atendente de telemarketing. Quem tivesse formação técnica, salário acima da média, vaga em empresa grande, achava que estava do lado certo da curva.

Era uma ilusão confortável e durou enquanto durou.

Teberga refletiu a mudança. "O caixa do supermercado foi o símbolo da automação industrial. Agora, a posição de engenheiro de software de nível médio está se tornando o símbolo desta", disse.

A IA não está chegando primeiro nos andares de baixo. Está chegando, ao mesmo tempo, em funções consideradas protegidas pela complexidade, como revisão de contratos, auditoria de código, diagnóstico de sistemas, geração de relatórios gerenciais.

Tarefas que exigem integração de conhecimento, mas não necessariamente julgamento criativo, e é exatamente nesse ponto que os modelos atuais entregam resultado bom o suficiente para reduzir o número de pessoas necessárias para fazer o serviço.

A consequência prática desse deslocamento é dura. Profissionais que passaram a vida inteira acreditando que diploma e tempo de carreira eram blindagem descobrem agora que não são. Profissionais que apostaram em especialização técnica de alta qualificação descobrem que parte do que aprenderam virou commodity automatizável. E profissionais que ainda estão começando descobrem que o degrau de entrada do mercado, a vaga de júnior que ensinava o ofício, está sendo eliminado pela própria empresa que precisaria deles para se renovar daqui a dez anos.

Ruptura não é absoluta, mas é real

Em laboratórios de IA, semicondutores e infraestrutura pesada, a contratação ainda cresce. A própria Meta admitiu, na chamada com investidores, que parte da alta de despesas com pessoal veio de contratações técnicas em IA.

Mas em software e serviços digitais, que concentram a maior parte do setor de tecnologia, o desacoplamento entre crescimento e emprego é real. O LinkedIn aponta que a contratação em economias avançadas segue entre 20% e 35% abaixo dos níveis pré-pandemia, e o Glassdoor registrou a maior queda anual de confiança do trabalhador entre todos os setores justamente em tecnologia.

O argumento padrão das big techs, repetido em entrevistas e cartas aos investidores, é que a IA cria mais empregos do que destrói, só que em funções diferentes. A tese tem uma vantagem retórica: ela é verdadeira no longo prazo histórico e não verificável no curto prazo, o que a torna útil para quem precisa dizer algo reconfortante sem se comprometer com as evidências.

Teberga lembra do precedente que está sempre disponível para essa conversa. "Na Revolução Industrial, o tear mecânico criou mais empregos do que destruiu, no agregado. Mas essa não foi a realidade para os tecelões que viveram a transição."

A frase merece ser lida duas vezes. O agregado, no longo prazo, costuma se reorganizar. As pessoas, no curto prazo, não vivem em agregado nem em longo prazo. Vivem em mês a mês, em parcela de financiamento, em mensalidade da escola dos filhos.

E é aqui que o aplauso do mercado precisa de um contraponto. Quem aplaude o corte e ganha no fechamento do trimestre pode estar dando uma bela cuspida para o alto. E quem aplaude o tecelão é a história, duzendos anos depois, quando o tecelão já morreu.

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