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Allan Ravagnani AI-451

África, pode anotar; Bolsas sobem até 72% em dólar em 2026, deixam o Ibovespa para trás e ganham o maior IPO da história do continente

Publicado 23/09/2026 • 09:10 | Atualizado há 55 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter Especial

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter especial do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

KEY POINTS

  • Nigéria lidera rali das bolsas da África com alta de 71,78% em dólar em 2026, seguida por Zimbábue, Gana e BRVM
  • Dangote abre maior IPO da história da África, busca US$ 1,6 bilhão e derruba aplicativos de investimento em Lagos
  • FTSE Russell devolve Nigéria ao índice de fronteira, mas foi o investidor local quem puxou a alta até aqui
África Bolsas Índices Ações IPO Dengote

Ilustração gerada por inteligência artificial / Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC

Bolsas da África acumulam altas de até 72% em dólar em 2026, com a Nigéria na liderança do placar continental

No último dia 14, no prédio da bolsa de Lagos, o bilionário Aliko Dangote, homem mais rico da África, deu a largada na venda de ações da maior refinaria do continente, e em menos de meia hora o Bamboo, um dos aplicativos de investimento mais populares da Nigéria, recebia dez vezes o tráfego habitual e saía do ar, enquanto milhares de nigerianos, muitos deles estreantes, tentavam garantir o lote mínimo de dez ações por 5.250 nairas, uns US$ 4 (R$ 20), o preço de um almoço modesto em São Paulo.

A Dangote quer levantar US$ 1,6 bilhão (R$ 8,2 bilhões) na maior oferta inicial de ações da história do continente, que avalia a refinaria em cerca de US$ 49 bilhões (R$ 250 bilhões). A meta é chegar a 10 milhões de acionistas, e o apelido que o empresário deu à operação, IPO do povo, diz bastante sobre o clima. Um comerciante de Lagos contou à agência de notícias Reuters que compraria 2 mil ações mesmo achando o preço salgado, porque o histórico do dono lhe bastava.

Quem acompanhou aqui, em agosto, o frenesi dos coreanos alavancados na bolsa de Seul reconhece o cheiro.

O barulho em Lagos, porém, é só a ponta mais visível de um movimento que o investidor brasileiro, grudado no Ibovespa, talvez ainda não tenha notado.

Hoje a coluna deixa a inteligência artificial (um pouco) de lado para falar de um fenômeno que - embora ainda pequeno - precisa ser olhado com atenção.

Placar da África em dólar

Dados da plataforma Daba Finance até 2 de setembro mostram a bolsa nigeriana com alta de 71,78% em dólar no ano. O Zimbábue vem logo atrás, com 70,21%, seguido por Gana, com 57,13%, e pela BRVM, bolsa regional de oito países da África Ocidental francófona, com 53,4%.

Tunísia, Ruanda, Uganda e Quênia sobem entre 35% e 44%, e o Egito avança 24,24%. Em meados de agosto, pela conta da Bloomberg, três bolsas africanas estavam entre as cinco de melhor desempenho do mundo em dólar.

O Ibovespa subia 16,29% no ano até o começo de setembro. É conta em reais, e a comparação justa pediria a mesma moeda, mas mesmo somando a valorização do real a distância para Lagos e Acra continua sendo de outro campeonato.

Placar das bolsas em 2026

Variação acumulada no ano. Bolsas africanas medidas em dólar; nos demais índices, a moeda aparece abaixo do número.

África Brasil Outros mercados
NigériaNGX All-Share
71,8%US$
ZimbábueBolsa de Harare (ZSE)
70,2%US$
Coreia do SulKospi
57,3%won
GanaGSE Composite
57,1%US$
África OcidentalBRVM, oito países
53,4%US$
TunísiaTunindex
43,7%US$
RuandaBolsa de Kigali (RSE)
40,3%US$
UgandaBolsa de Kampala (USE)
39,1%US$
QuêniaBolsa de Nairóbi (NSE)
35,9%US$
BrasilIbovespa, 16,3% em reais
25,5%US$
EgitoBolsa do Cairo (EGX)
24,2%US$
Estados UnidosNasdaq Composite
14,5%US$
Estados UnidosS&P 500
13,7%US$
Estados UnidosDow Jones
12,4%US$
Reino UnidoFTSE 100, Londres
7,6%libra
África do SulBolsa de Joanesburgo (JSE)
5,2%US$

Datas de referência. Bolsas africanas até 2 de setembro; Kospi até 2 de setembro; Ibovespa, Nasdaq, S&P 500 e Dow Jones até 4 de setembro; FTSE 100 até 16 de setembro.

Ibovespa em dólar calculado pelo Times Brasil | CNBC com fechamentos do índice e do dólar à vista em 30/12/2025 (161.125 pontos, R$ 5,489) e 4/9/2026 (187.366 pontos, R$ 5,086). Kospi e FTSE 100 calculados a partir dos fechamentos de 2025.

Fontes: Daba Finance, Wespath, Korea Times, MacroMicro, FTSE Russell, B3, Poder360 e SpaceMoney. Elaboração: Times Brasil | CNBC

Bancos e telefonia no lugar do ouro

Durante décadas o estrangeiro olhou para o continente pela janela das commodities, com um raciocínio de padaria, subiu o petróleo, sobe a Nigéria. Neste ano a conta não fechou assim.

O ouro está entre 20% e 22% abaixo do recorde de janeiro, o petróleo balança ao sabor da guerra no Irã, e o dinheiro foi parar em bancos, operadoras de telefonia, consumo e indústria.

Temi Popoola, presidente da bolsa nigeriana, credita a alta à reforma cambial, à recapitalização dos bancos e a dividendos mais gordos, e fala numa reprecificação do país inteiro. Em maio, com US$ 117 bilhões em valor de mercado, a bolsa de Lagos passou a de Casablanca e virou a segunda maior do continente, atrás de Joanesburgo.

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Estrangeiro volta à África sem pressa

Faltava o carimbo de fora, e ele chegou na segunda-feira (21), quando a FTSE Russell, gigante dos índices globais, recolocou a Nigéria na categoria de mercado de fronteira. Em 2023, o país tinha sido rebaixado a não classificado porque estrangeiros não conseguiam comprar dólares para tirar o próprio dinheiro de lá, e suas ações saíram dos índices a preço zero.

🔍 Mercado de fronteira é a divisão abaixo dos emergentes, grupo em que está o Brasil, nas classificações dos provedores de índices. Voltar à lista recoloca o país no radar de fundos que replicam esses índices automaticamente.

Analistas locais projetam mais de US$ 800 milhões (R$ 4,1 bilhões) em entradas, mas a ressalva vem da própria praça. Fiona Ahimie, presidente do instituto dos corretores nigerianos, lembrou que a reclassificação reabre a porta e que quantos investidores vão atravessá-la depende de dólar disponível e de política econômica coerente.

Até aqui, o rali foi obra do investidor nigeriano, com participação estrangeira baixa.

Seca de IPOs lá e cá

Por aqui, a bolsa brasileira festejou em maio a estreia da Compass como o fim de um jejum de quase cinco anos sem aberturas de capital. Em Lagos, a janela foi aberta a marretadas por um único homem, dono de 92,3% de uma refinaria de cerca de US$ 20 bilhões que chegou à capacidade máxima justamente quando a guerra no Irã engordou as margens do setor, e que lucrou US$ 1,82 bilhão no primeiro semestre depois de fechar 2025 no prejuízo.

O prospecto também mostra o que a euforia costuma ignorar. O pequeno investidor paga cerca de 10% a mais do que os institucionais pagaram na colocação privada de julho, e só 3,3% do capital vai circular em bolsa, pouco para um papel que promete 10 milhões de donos.

A subscrição fecha na terça-feira (13) de outubro, as ações estreiam em novembro, e a dúvida que o comerciante de Lagos resolveu sozinho, antes de comprar suas 2 mil ações, vai ser respondida no pregão, na frente de todo mundo.

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