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Allan Ravagnani AI-451

Google fez da nuvem seu negócio mais lucrativo na corrida bilionária pela inteligência artificial

Publicado 23/07/2026 • 07:36 | Atualizado há 51 minutos

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Allan Ravagnani

Repórter

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

Google inteligência artificial

Imagem gerada por inteligência artificial

Data center iluminado em tons de âmbar, referência visual à infraestrutura de nuvem que sustenta o crescimento da Alphabet

Nas últimas semanas, o mercado financeiro andou obcecado em descobrir qual seria o refúgio seguro da corrida da inteligência artificial. A Nvidia chegou a perder o posto de empresa mais valiosa do mundo para a Apple, que subiu de posição justamente por ter feito pouco, e colunistas de Wall Street passaram a tratar o silêncio de Cupertino como sinal de prudência num setor em que todo mundo aposta bilhões sem saber quando a mesa vai fechar.

No meio dessa festa de especulação sobre fabricantes de chip, uma empresa que raramente vira manchete nesse tipo de conversa decidiu lembrar a todos que existe outro jeito de lucrar com a inteligência artificial, e não é só vendendo hardware, mas também com a boa velha nuvem e alugando o computador inteiro.

Na na noite do dia 22 de julho, a Alphabet divulgou seu balanço do segundo trimestre e a linha que chamou atenção não foi a receita total de US$ 119,8 bilhões, embora ela tenha superado a previsão dos analistas. Foi o Google Cloud, que faturou US$ 24,8 bilhões, um salto de 82% em relação ao mesmo período do ano passado.

Para efeito de comparação, no primeiro trimestre o crescimento tinha sido de 63%, e no último trimestre de 2025, de 48%. A curva de crescimento está só acelerando.

Nuvem virou a estrela do balanço

O lucro operacional da divisão de nuvem saltou de US$ 2,8 bilhões para US$ 8,8 bilhões em um ano, e a carteira de contratos represados chegou a US$ 514 bilhões, segundo o próprio Sundar Pichai informou aos investidores na teleconferência de resultados.

Quase 90% das empresas da lista Fortune 100 já usam o Gemini Enterprise, e os modelos da casa processam 22 bilhões de tokens por minuto, um número que só faz sentido quando lembramos que o aplicativo Gemini já soma 950 milhões de usuários mensais. A Alphabet também citou o "Ask YouTube", ferramenta que deixa o espectador perguntar sobre o conteúdo de um vídeo usando o Gemini, com mais de 140 milhões de usuários só em junho.

🔍 Backlog, ou carteira de contratos represados, é o valor total de contratos já assinados com clientes que ainda serão executados e faturados nos próximos anos. Funciona como um termômetro de demanda futura, mostrando quanto trabalho a empresa já garantiu, mesmo que o dinheiro ainda não tenha entrado no caixa.

Anthropic aparece duas vezes

Aqui mora o detalhe mais irônico do resultado. O lucro líquido disponível a acionistas ordinários da Alphabet saltou 298% na comparação anual, para US$ 112,1 bilhões, e boa parte desse salto veio de um ganho contábil de US$ 99 bilhões com participações acionárias da empresa, entre elas a fatia que a Alphabet mantém na Anthropic.

Ou seja, a mesma companhia que compete diretamente com o Google Cloud pelo bolso das empresas que querem rodar modelos de linguagem também está, por tabela, engordando o balanço da Alphabet. Rival no produto, sócia minoritária no lucro. Se existe uma imagem perfeita para descrever como as fronteiras entre concorrentes andam borradas nesta indústria, é essa.

Leia também: Anthropic fez a Amazon vencer uma corrida que já tinham dado como perdida

Aumento do investimento em inteligência artificial assusta mercado

Nem tudo foram aplausos depois do balanço. As ações da Alphabet recuam 4,15% no pré-market desta quinta-feira (23) - o texto desta coluna está sendo escrito às 7h23 da manhã - com os investidores digerindo a previsão de aumento do Capex - investimento - em infraestrutura para até US$ 205 bilhões neste ano, além dos cerca de US$ 44,9 bilhões só no segundo trimestre.

É o mesmo padrão que se repete em toda essa indústria desde que a corrida começou: por maior que seja o número de receita, o mercado sempre pergunta se o próximo cheque será grande demais para o retorno acompanhar. A Alphabet respondeu que sim, vai gastar mais, porque a demanda por infraestrutura de inteligência artificial segue maior do que a capacidade instalada.

O resultado da Alphabet nesta semana serve como um lembrete incômodo para quem só olha para fabricantes de chip ao tentar entender quem está ganhando dinheiro de verdade com a inteligência artificial. A Nvidia vende a pá. A Alphabet aluga a mina inteira, com engenheiro, eletricidade e conta de manutenção incluídos, e cobra por hora de uso. Nas duas pontas dessa corrida, o apostador que sempre lucra é quem monta a mesa, não necessariamente quem fabrica as fichas.

Falei bastante sobre isso no texto Nvidia leva todo o lucro da corrida por I.A. enquanto o resto acumula trilhão em prejuízo; veja gráfico com resultados.

Estou bastante curioso pra ver o balanço da Amazon e a participação da AWS, que serão divulgados no dia 30 de julho.

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