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Alta dos juros nos Estados Unidos freia corrida pela IA de forma mais rápida e eficiente que manifestos de segurança

Publicado 21/09/2026 • 09:31 | Atualizado há 1 hora

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Allan Ravagnani

Repórter Especial

Allan Ravagnani é jornalista há 20 anos, duas vezes eleito entre os 50 jornalistas de Economia mais admirados do Brasil. Assina a coluna AI-451 e é repórter especial do Times Brasil | CNBC. Estudou Publicidade na ESPM e Jornalismo na Fapcom, fez pós-graduações em Macroeconomia, Finanças e Ciência Política.

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Crédito mais caro nos Estados Unidos deixa a inteligência artificial no escuro, com apenas uma fresta de financiamento ainda aberta

Na manhã de 14 de setembro, enquanto boa parte do noticiário de tecnologia tentava decifrar as quase quatro mil palavras que o executivo-chefe da Anthropic, Dario Amodei, havia publicado no fim de semana pedindo uma pausa coordenada no desenvolvimento de inteligência artificial, os operadores de Wall Street fizeram algo mais pragmático, compraram ações de software como Salesforce, ServiceNow e Shopify, que subiram entre cinco e sete por cento, e se desfizeram de papéis de neoclouds e fabricantes de chips, como se já soubessem, antes de qualquer resposta dos laboratórios, que o verdadeiro freio da inteligência artificial não estava num manifesto sobre segurança, mas na taxa de juros que o Federal Reserve anunciaria dois dias depois.

O ensaio de Amodei, intitulado "We Must Pace the Frontier", chegou depois de semanas turbulentas. Em julho, cerca de 1.200 agentes de inteligência artificial que a OpenAI mantinha isolados uns dos outros durante um teste interno de cibersegurança se encontraram, criaram um canal de comunicação não autorizado e invadiram os servidores da Hugging Face, plataforma que hospeda parte relevante dos modelos abertos do mundo. A empresa levou cerca de uma semana para perceber que o ataque havia partido de dentro de casa, e um relatório independente da consultoria METR confirmou a sequência dos fatos em agosto.

Sam Altman e Elon Musk endossaram a proposta de Amodei em menos de vinte e quatro horas. Demis Hassabis - do Google DeepMind - sinalizou concordância, com ressalvas. Do outro lado, o investidor David Sacks - investidor - acusou o grupo de tentar formar um cartel disfarçado de preocupação ética, e o presidente Donald Trump chamou a tese de perda de controle da inteligência artificial de farsa, palavra que a China, numa rara coincidência de discurso com Washington, também usou. A Meta ficou em silêncio, à exceção de uma postagem enigmática do executivo Alexandr Wang.

Juros de 5%

Enquanto o debate sobre ética corria nas redes sociais e nos gabinetes de Washington, o Federal Reserve fez o que sempre faz melhor, ignorou o barulho e mexeu no preço do dinheiro. Na quarta-feira (16), o Fed elevou os juros, e o rendimento dos títulos do Tesouro de dez anos chegou a cinco por cento, patamar que os Estados Unidos não visitavam desde 2007.

O mercado já precifica até quatro novas altas até junho de 2027. Para quem depende de dívida, esse número assusta mais do que qualquer relatório sobre agentes rebeldes.

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Quem sente o aperto primeiro

As mais expostas são as chamadas neoclouds, empresas menores que alugam capacidade de processamento para os laboratórios de inteligência artificial e dependem de crédito para erguer seus datacenters. A Rum Group é o exemplo mais citado nos bastidores de Wall Street, ligada a nomes próximos de Trump, fechou um acordo de US$ 13,7 bilhões (R$ 70,3 bilhões) em computação com a própria Anthropic, mas ainda não tinha o financiamento do datacenter que planeja construir na Geórgia.

É uma grande ironia a mesma empresa que pede ao mundo para pisar no freio, assina contratos bilionários que dependem de outra empresa conseguir dinheiro barato para sair do papel.

As gigantes correram na frente. A Amazon vendeu US$ 5,7 bilhões em títulos só na segunda-feira (14), somando-se aos US$ 67 bilhões (R$ 343,7 bilhões) já captados no primeiro semestre.

Parte desse dinheiro serviu para completar o compromisso de US$ 50 bilhões (R$ 256,5 bilhões) com a OpenAI, dos quais IS$ 21 bilhões (R$ 107,7 bilhões) saíram do caixa da empresa só depois de junho.

Google e Meta seguiram o mesmo roteiro, em proporções menores. A maior parte dessa dívida foi contratada a taxa fixa, o que protege um pouco da alta dos juros, mas não muda o fato de que o custo do dinheiro subiu para todo mundo, inclusive para quem já tinha se preparado.

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Existe um raciocínio técnico que sustenta a tese de que nada disso vai realmente parar a inteligência artificial. A consultoria SemiAnalysis publicou na semana passada um estudo mostrando que as moratórias locais contra novos datacenters nos Estados Unidos travam uma fração pequena da capacidade em construção, perto de mil e quinhentos megawatts, num universo de mais de vinte gigawatts represados na fronteira regulatória.

Ainda assim, capacidade represada por lei municipal é uma coisa. Capacidade represada porque o crédito ficou caro é outra, bem mais difícil de contornar com uma audiência pública. Amodei pediu que os laboratórios pisassem no freio por decisão própria. O Federal Reserve pode acabar fazendo o serviço, sem citar segurança, sem citar bioterrorismo, só cobrando mais caro por cada dólar que sustenta a corrida.

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