Assisti ontem ao vídeo mais recente do youtuber Mano Deyvin - um dos nomes mais relevantes que fala de inteligência artificial em português - um episódio sobre pirataria de IA e sobre como um mercado inteiro de acesso pirata ao Cloude se organizou nos bastidores da internet.
Fiquei impressionado com o grau de sofisticação e, ao mesmo tempo, de gambiarra pura, de improviso montado em servidor alugado, que talvez só o brasileiro reconheça de cara. Recomendo o vídeo, ele está entre os links desta coluna, para quem quiser acompanhar o mergulho que Deyvin fez num mercado que eu supunha restrito a laboratório chinês tentando copiar modelo americano. Não é isso. É um gato, maior, mais banal e mais brasileiro do que parece.
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Gato que virou estação de transferência
A imagem clássica remete aos gatonets - um emaranhado de fios puxado em postes, roubando sinal de TV a cabo e energia elétrica. Hoje existe a mesma lógica para acessar o Cloude, só que o nome veio da China, zhongzhuanzhan, que significa estação de transferência.
Um servidor no meio recebe o pedido, repassa para a Anthropic usando conta que não é do usuário, devolve a resposta, e cobra em pix ou yuan por cerca de dez por cento do valor oficial. Sem cartão internacional, sem VPN, sem documento. Só trocar uma linha no terminal.
O catálogo desses serviços está público no GitHub, num repositório com quase novecentas estrelas que compara preço e disponibilidade de dezenas de estações como quem compara hotel em site de viagem.
Primeiro prato, o desconto que nasce de conta farmada
A comunidade dev chinesa batizou o modelo de negócio de yi yu san chi, "um peixe, três pratos", expressão precisa.
O primeiro prato é a margem de empilhar contas, farmando os cinco dólares de crédito grátis de cada conta nova, multiplicados por milhares, misturando desconto educacional, desconto corporativo e o que os devs apelidam de APImaxxing, fatiar um plano de duzentos dólares entre várias pessoas.
Uma fatia, difícil de medir por fora, vem de contas abertas com cartão clonado, custo zero para quem opera o gato.
Segundo prato, gato por lebre
Como o pedido passa pelo servidor de outra pessoa, o usuário nunca tem certeza de qual modelo respondeu. Pede Opus, pode receber Sonnet, ou um modelo chinês qualquer com o rótulo trocado.
Pesquisadores do CISPA, centro alemão de segurança da informação, auditaram dezessete desses serviços e encontraram quase metade entregando modelo diferente do anunciado, um caso vendia acesso a um modelo badalado e entregava, por baixo do capô, versão bem mais modesta. Os devs chineses têm gíria para isso, jiangzhi, mais ou menos como "burrificado".
E o pior é que quase nunca dá para provar, o desenvolvedor só sente a resposta estranha e acha que o erro é do próprio prompt.
Além disso, toda vez que a estação gira a conta usada para disfarçar o acesso, ela perde o cache da conversa, a memória que deixa respostas mais rápidas e baratas. Para o usuário não notar a lentidão, o gato reenvia o histórico inteiro de novo, o que aumenta o consumo de tokens e encarece por trás o desconto da vitrine.
Terceiro prato, o gato que fatura com o seu código
O terceiro prato é o que deveria assustar quem já usou um desses serviços por curiosidade ou aperto no bolso.
Cada chamada que passa pelo gato carrega o prompt inteiro, a resposta inteira, o repositório, a arquitetura do sistema do cliente.
É o material mais valioso que existe para treinar outro modelo, cadeia de raciocínio validada por humano, decisão de engenharia real, empilhado no servidor de um desconhecido.
Devs chineses já admitiram que a margem de fato não está no markup do token, está no log. E se o usuário deixa escapar uma senha ou uma chave de API no meio da conversa, comum quando se debuga às três da manhã, esse vazamento fica arquivado, com nome e sobrenome, pronto para virar mercadoria em outra ponta da cadeia.
Essa é a mesma lógica, em escala industrial, que a Anthropic denunciou, quando apontou vinte e quatro mil contas fraudulentas de laboratórios chineses em dezesseis milhões de trocas para treinar modelos concorrentes, e o motivo declarado da verificação biométrica que a empresa exige de usuários comuns desde julho, com RG e selfie ao vivo, tema já tratado por aqui.
O gato de varejo mostra que a barreira nova não fechou a porta, só empurrou o problema para dentro de milhões de conversas de gente comum que só queria pagar mais barato.
A Anthropic pode banir conta suspeita, pode exigir documento, pode apertar o cerco, e o gato, historicamente, sempre monta outro poste em poucas horas.
Servidor não sente vergonha, algoritmo não sente culpa, e a única parte dessa engenharia toda que segue sem solução automática é a decisão, sempre humana, de fazer a coisa certa mesmo quando ninguém está checando.
🔍 Chave de API é uma senha longa, gerada automaticamente, que identifica quem está fazendo um pedido a um serviço online e autoriza a cobrança na conta certa. Funciona como cartão de acesso, quem tem a chave em mãos consegue usar o serviço, gastar o crédito de quem a possui e, em muitos casos, ver dado que deveria ficar restrito. Por isso vazar uma chave de API sem querer, colada num prompt ou num arquivo público, é como deixar a chave de casa pendurada na porta.
🔍 Log é o registro automático de tudo que aconteceu dentro de um sistema, cada pedido feito, cada resposta recebida, hora e data de cada ação. Serve, em teoria, para diagnosticar problema depois que ele já passou. O detalhe incômodo é que um log completo de uma conversa com IA carrega o conteúdo inteiro trocado ali dentro, o que significa que qualquer informação sensível digitada sem cuidado também fica arquivada em algum servidor, nem sempre do lado de quem devia guardar aquilo.
🔍 Debugar é o processo de caçar e corrigir erro dentro de um código que não está funcionando como deveria. O termo vem do inglês debug, tirar o inseto, numa referência a um bug de verdade, uma mariposa, que travou um computador em 1947 e entrou pra história da computação. Na prática, é a parte mais lenta e mais repetitiva do trabalho de qualquer programador, e também a que mais expõe informação sensível, porque é comum copiar trechos de sistema real, senha e chave de acesso direto na tela para tentar entender onde a coisa quebrou.
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