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Análise: O mito da virada de 2014

Publicado 22/10/2026 • 07:41 | Atualizado há 1 hora

DECISÃO 2026: o que acontece se a urna eletrônica apresentar problemas durante a votação

Foto: Antonio Augusto/Ascom/TSE

DECISÃO 2026: o que acontece se a urna eletrônica apresentar problemas durante a votação

Há uma tentativa recorrente de transformar a eleição presidencial de 2014 em uma espécie de manual de sobrevivência eleitoral para Lula em 2026. A tese é aparentemente simples: Dilma Rousseff teria conseguido uma virada sobre Aécio Neves no segundo turno e, portanto, o atual presidente poderia repetir a trajetória. O problema é que essa interpretação parte de uma premissa equivocada. Dilma não virou a eleição de 2014. Dilma chegou ao segundo turno na frente e terminou a eleição na frente.

A presidente encerrou o primeiro turno com aproximadamente 43,3 milhões de votos, contra 34,9 milhões de Aécio Neves. Eram mais de 8 milhões de votos de vantagem. A disputa que se abriu a partir daquele momento não era a de uma candidata tentando reverter uma derrota nas urnas, mas a de uma presidente que precisava preservar sua liderança diante da reorganização dos votos das candidaturas eliminadas.

O principal contingente eleitoral em disputa era o de Marina Silva, que havia conquistado mais de 22 milhões de votos. Não se tratava de um eleitorado automaticamente transferível para Aécio, mesmo com o apoio declarado pela candidata do PSB. Havia ali eleitores de diferentes origens políticas, inclusive segmentos que rejeitavam o PSDB tanto quanto demonstravam insatisfação com o governo petista. Dilma também encontrou oportunidades de ampliação de sua votação entre os eleitores de Luciana Genro, cuja candidatura havia reunido mais de 1,6 milhão de votos.

Leia também: Disputa presidencial é marcada por rejeição e “letargia” do eleitor, diz sócio do Real Time Big Data Bruno Soller

Portanto, o que ocorreu em 2014 foi uma disputa pela redistribuição de um enorme contingente de eleitores que havia escolhido outras candidaturas no primeiro turno. Aécio cresceu expressivamente, mas não o suficiente para superar a vantagem inicial de Dilma. Chamar isso de virada é confundir crescimento eleitoral com inversão de resultado.

A dimensão dessa diferença fica ainda mais evidente quando observamos os números finais. Aécio passou de 34,9 milhões para 51 milhões de votos, um crescimento superior a 16 milhões. Dilma saiu de 43,3 milhões para 54,5 milhões, incorporando pouco mais de 11 milhões. Ou seja, quem mais cresceu entre os dois turnos foi justamente o candidato derrotado. A vantagem da presidente, que era de 8,37 milhões de votos, terminou reduzida a 3,46 milhões.

Há ainda um segundo elemento que torna equivocada a comparação com 2026: a avaliação dos governos. Dilma chegou à reta final de 2014 com uma avaliação positiva superior à registrada por Lula neste ano. Em setembro daquele ano, o Datafolha apontava 37% de ótimo ou bom para a presidente e 22% de ruim ou péssimo. Já em agosto de 2026, Lula registrava 33% de avaliação positiva, segundo a mesma série histórica. Mais importante do que a diferença na aprovação é a composição da rejeição. Dilma ainda possuía um saldo positivo de avaliação. Lula enfrenta um eleitorado em que a insatisfação com o governo supera a satisfação.

Isso não significa que Dilma estivesse em uma situação confortável. O país já apresentava sinais de desgaste econômico e político. Mas havia, naquele momento, uma parcela maior da sociedade disposta a preservar o governo. Em 2026, a eleição está muito mais condicionada ao desejo de mudança e à capacidade da oposição de transformar a insatisfação com a administração federal em voto.

A diferença fundamental, entretanto, continua sendo aritmética. Em 2014, a candidata governista precisava administrar uma vantagem de mais de 8 milhões de votos. Em 2026, Lula chegou ao segundo turno atrás de Flávio Bolsonaro por aproximadamente 2,2 milhões. Além de reverter essa diferença, precisa compensar a migração dos votos dos candidatos eliminados, que, pelas pesquisas, tem se mostrado mais favorável à oposição.

São desafios de naturezas completamente diferentes. Uma coisa é defender uma liderança diante da redistribuição de votos de terceiros. Outra, muito mais complexa, é precisar conquistar votos suficientes para ultrapassar um adversário que já começou a disputa na frente e também recebe novos apoios.

A história eleitoral serve para compreender comportamentos, não para produzir analogias convenientes. O fato de Dilma ter vencido uma eleição apertada em 2014 não significa que Lula esteja diante de uma trajetória semelhante em 2026. A primeira nunca esteve atrás no resultado das urnas. O segundo precisa efetivamente produzir uma virada.

A vitória de Dilma em 2014 não foi uma virada. Foi a preservação de uma vantagem que quase desapareceu. Utilizar aquele resultado como demonstração de que Lula pode repetir o feito é ignorar a matemática eleitoral, a avaliação dos governos e, sobretudo, a diferença entre defender uma liderança e tentar conquistá-la.

A eleição de 2014 pode oferecer muitas lições sobre o comportamento do eleitor brasileiro. A principal delas, entretanto, é justamente aquela que alguns parecem determinados a ignorar: Dilma não virou. Quem quase virou foi Aécio.

Bruno Soller é analista de política e sócio do Real Time Big Data

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