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As canetas emagrecedoras impactam à alta gastronomia

Publicado 06/11/2026 • 12:22 | Atualizado há 4 horas

Foto de Danni Rudz

Danni Rudz

Danni Rudz é comunicadora, criadora de conteúdo, consultora de diversidade corporal e vivências raciais, palestrante, educadora e especialista em moda inclusiva.  Comentarista especialista no Times Brasil - Licenciado CNBC falando ao vivo de Mercado de Luxo e Lifestyle, todas as 6ª feiras. Membro Forbes BLK.

Os medicamentos como Mounjaro e Ozempic começam a influenciar decisões de negócios. O desafio para as marcas premium será entender como o desejo, o prazer e o consumo estão mudando.

A chef Renata Vanzetto percebeu uma mudança no comportamento de suas clientes. Elas continuavam interessadas em frequentar seus restaurantes, mas já não consumiam da mesma maneira. Algumas passaram a dividir pratos, outras reduziram o consumo de bebidas e muitas consideravam as porções tradicionais grandes demais para uma refeição noturna.

A resposta veio em forma de cardápio. Batizado de Menu ExecutivA, no feminino, o novo formato oferece entrada e prato principal em porções menores, com preços entre R$ 65 e R$ 88, em restaurantes do grupo nos Jardins, em São Paulo. Há ainda a possibilidade de acrescentar uma sobremesa reduzida por R$ 18.

Aproximadamente 90% do público noturno dessas casas é feminino. A chef relacionou parte das mudanças observadas aos novos hábitos alimentares e à popularização de medicamentos para tratamento da obesidade, como o Mounjaro.

A novidade teria registrado forte adesão e recordes de faturamento em seus primeiros dias, embora os números detalhados ainda não tenham sido divulgados.

O movimento chama atenção porque mostra como uma transformação iniciada na área da saúde pode chegar rapidamente à gestão de um restaurante. E levanta uma pergunta que começa a interessar a diferentes setores: se o consumidor passa a desejar e consumir quantidades menores, como as empresas precisam adaptar seus produtos, serviços e experiências?

Quando a mudança no apetite chega à economia

Medicamentos como Ozempic e Wegovy, à base de semaglutida, e Mounjaro, que contém tirzepatida, atuam sobre mecanismos relacionados à saciedade e à regulação do apetite. A tirzepatida age sobre receptores de GIP e GLP-1, enquanto a semaglutida atua sobre receptores de GLP-1.

Seus efeitos clínicos já são objeto de estudos importantes. Uma pesquisa publicada no New England Journal of Medicine, por exemplo, registrou perda média de peso de até 20,9% após 72 semanas com determinadas doses de tirzepatida, em participantes com obesidade ou sobrepeso e condições associadas, sem diabetes.

Mas é fora do consultório que surge uma discussão econômica cada vez mais relevante.

Pesquisadoras da Universidade Cornell, entre elas Jūra Liaukonytė e Sylvia Hristakeva, analisaram dados de compras de famílias americanas e identificaram uma redução média de 5,5% nos gastos com supermercados nos seis meses seguintes ao início do uso de medicamentos GLP-1 por pelo menos um integrante do domicílio.

Entre famílias de renda mais elevada, a queda chegou a 8,6%. O estudo também encontrou redução de 8,6% nos gastos com fast-food, cafeterias e restaurantes de serviço limitado.

As maiores retrações apareceram em categorias como salgadinhos, doces e outros alimentos de consumo frequente ou por impulso.

Esses números não significam que todos os consumidores passarão a gastar menos com alimentação. A pesquisa foi realizada nos Estados Unidos, e seus resultados não podem ser transferidos diretamente para o Brasil. Ainda assim, oferecem uma evidência concreta de que o uso desses medicamentos pode alterar decisões de compra.

Para a indústria, essa diferença é significativa. Empresas acostumadas a competir por volume, tamanho de embalagem e frequência de consumo podem precisar desenvolver outras formas de gerar receita.

A alta gastronomia diante de um novo comportamento

Durante décadas, uma parte importante da experiência gastronômica foi construída em torno da abundância. Menus extensos, degustações com várias etapas, harmonizações e porções generosas ajudaram a compor a percepção de valor de restaurantes de diferentes categorias.

A expansão dos tratamentos para obesidade introduz uma variável adicional nessa equação.

Um cliente que sente saciedade mais rapidamente pode continuar desejando um jantar sofisticado, mas preferir menos etapas, pratos menores ou uma experiência com menor presença de bebidas alcoólicas.

Isso não elimina o interesse pela gastronomia. Pode, porém, alterar a maneira como essa experiência é organizada e precificada.

O Menu Executiva de Renata Vanzetto é um exemplo brasileiro dessa adaptação. A decisão da chef antecipa uma questão relevante para a gastronomia premium: o valor percebido de uma refeição pode depender cada vez menos do volume servido e mais da adequação da experiência ao cliente.

Há também uma oportunidade operacional. Porções menores, quando bem planejadas, podem favorecer o controle de desperdício, ampliar as possibilidades de escolha e estimular visitas em ocasiões nas quais um jantar completo pareceria excessivo.

Isso não garante maior rentabilidade. O resultado depende do custo dos ingredientes, da precificação, da demanda e da eficiência da operação. Mas ajuda a explicar por que adaptar o cardápio pode ser uma decisão comercial, além de gastronômica.

A tendência que merece atenção não é simplesmente a redução dos pratos. É a possibilidade de oferecer experiências mais flexíveis, nas quais o cliente escolhe quanto deseja consumir sem sentir que está recebendo um serviço inferior.

Um mercado que pode movimentar mais de US$ 100 bilhões

A dimensão financeira dessa transformação explica o interesse de bancos e consultorias.

Em projeções citadas no levantamento da Avenue sobre o chamado Efeito Mounjaro, a Morgan Stanley estimou que o mercado global de tratamentos para obesidade poderia alcançar US$ 105 bilhões até 2030.

A Goldman Sachs apresentou uma estimativa de US$ 114 bilhões para 2030, enquanto projeções do J.P. Morgan para o mercado mais amplo de medicamentos baseados em incretinas chegaram a US$ 200 bilhões.

Os valores não são diretamente comparáveis, porque consideram recortes diferentes de produtos e mercados. Também são projeções, sujeitas a mudanças de preços, concorrência, acesso aos tratamentos e decisões regulatórias.

Mesmo com essas diferenças, mostram por que os GLP-1 entraram no planejamento de grandes empresas e investidores.

O consumo premium dos próximos anos

A experiência da Renata Vanzetto permite observar uma mudança pequena, mas significativa na lógica dos negócios: em vez de insistir no formato tradicional, a chef ajustou a oferta ao comportamento que identificou entre suas clientes.

Acredito que esse raciocínio ganhará espaço no mercado premium nos próximos anos.

Na gastronomia, podemos ver mais menus flexíveis, degustações com menos etapas, harmonizações sem álcool e pratos menores que preservem a qualidade dos ingredientes e da execução.

Na moda, serviços de ajuste, personalização e consultoria podem se tornar ainda mais relevantes para clientes cujas medidas e preferências estejam mudando.

Na beleza e na hospitalidade, a tendência é uma oferta mais integrada de cuidados, atividade física, alimentação e experiências de bem-estar, desde que sustentada por profissionais qualificados e resultados demonstráveis.

Há ainda uma mudança econômica que considero especialmente interessante: o consumidor pode reduzir gastos em determinadas categorias e, ao mesmo tempo, ampliar investimentos em outras.

Uma pessoa que passa a consumir menos alimentos, bebidas ou produtos por impulso não necessariamente deixa de gastar. Parte desse orçamento pode ser direcionada a roupas, serviços, viagens, tratamentos, atividades físicas ou experiências pessoais.

Essa redistribuição não está garantida, mas representa uma hipótese de negócios que merece acompanhamento. Para o luxo, o desafio será compreender se essa mudança se traduzirá em menor frequência de compra, em novas categorias de desejo ou em uma combinação das duas coisas.

Minha previsão é que, entre 2027 e 2030, marcas premium mais atentas começarão a tratar as transformações associadas aos GLP-1 como uma variável de planejamento, especialmente nos setores de gastronomia, moda, beleza e hospitalidade.

Significa reconhecer que hábitos alimentares, necessidades corporais e expectativas de consumo podem mudar mais rapidamente do que os modelos tradicionais de negócios conseguem acompanhar.

A experiência da Renata Vanzetto oferece um primeiro sinal concreto dessa adaptação no Brasil. O que começou com clientes dividindo pratos terminou em uma revisão de cardápio, preços e formato de atendimento.

Nos próximos anos, talvez a pergunta mais importante para as marcas de luxo não seja quanto o consumidor está disposto a consumir, mas que tipo de experiência continuará fazendo sentido para ele quando seus hábitos, seu corpo e suas prioridades mudarem.

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