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Traição, crise financeira e briga pelo poder: o que está por trás do impeachment de Peña no Paraguai

Publicado 06/11/2026 • 13:56 | Atualizado há 2 horas

Foto de Raphael Coraccini

Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

É preciso que tudo mude para que continue exatamente igual. Essa paráfrase da obra O Leopardo, do italiano Giuseppe di Lampedusa, ajuda a explicar o iminente impeachment de Santiago Peña, presidente do Paraguai. O próprio partido de Peña, o Colorado, está envolvido no movimento para destituir o presidente de suas funções e apontar o mandatário como principal responsável pelo caso do Ueno Bank e a crise que atingiu três milhões de clientes, número equivalente a cerca de 60% da população adulta do Paraguai.

A iniciativa para destituição de Peña conta com apoio do Partido Liberal, de oposição. Mas os ataques principais são protagonizados por fogo amigo. Horacio Cartes, uma das forças mais proeminentes do Partido Colorado, articula a saída de Peña, mas espera manter a sua influência na condução do Paraguai alçando o vice, Pedro Alliana, seu aliado, ao posto de novo mandatário.

Cartes foi presidente do Paraguai entre 2013 e 2018 e desde então ocupa a posição de principal nome das forças conservadoras do país. Ele assumiu o posto de presidente logo depois do fim do mandato temporário de Federico Franco, liberal que governou o país depois de um processo de impeachment que retirou do poder o único projeto progressista a conquistar o governo nos mais de 200 anos de independência do Paraguai.

Fernando Lugo foi eleito em 2008 e protagonizou uma experiência singular de governo de esquerda na história democrática do Paraguai. Esse governo foi interrompido, em 2012, por um processo de impeachment concluído em aproximadamente 24 horas. Algo que pode voltar a acontecer agora, contra Peña. Nos dois momentos, Cartes foi figura central e trabalhou para manter a hegemonia impressionante que o Partido Colorado mantém no país.

Lugo interrompeu um período de 60 anos de governos colorados. O partido mandava no país desde 1947, incluindo a ditadura de Alfredo Stroessner, que governou entre 1954 e 1989. Depois de 2013, os Colorados voltaram a se instalar no poder. E agora trabalham para entregar os anéis e não perder a mão na maior crise financeira do país, com manifestações de rua contra o governo e as forças políticas hegemônicas se proliferando pelas ruas do país. O caso Ueno Bank ajudou a deixar clara a simbiose entre o poder político e financeiro no país.

Peña tentou usar uma “jabuticaba paraguaia” para escapar. Apresentou sua renúncia para tentar manter a imunidade que todo ex-presidente do Paraguai possui ao se tornar senador vitalício ao fim do mandato. Mas a renúncia foi vetada pelo Congresso, que agora deve aprovar o impeachment e derrubar o foro privilegiado do atual presidente.

A expectativa é a de que Pedro Alliana, vice-presidente e apoiado por Cartes, assuma o cargo de presidente do país. A oposição, na figura do Partido Liberal, tentou derrubar também o vice e abrir espaço para novas eleições, mas não conseguiu. O Congresso vetou o impeachment de Alliana.

Assim, o Partido Colorado trabalha para manter Alliana no poder e concluir seu governo em 2028, para que, mudando a presidência, tudo continue exatamente igual no Paraguai, como tem sido (com uma única — e breve — interrupção) desde 1954

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