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Por que a ansiedade aumenta no fim do ano?
Publicado 29/10/2026 • 12:08 | Atualizado há 2 horas
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Publicado 29/10/2026 • 12:08 | Atualizado há 2 horas
Pexels
“1% todo dia.” Esse é o mantra motivacional do momento. Convenhamos: é um método tentador, sobretudo porque parece acessível. Virar maratonista da noite para o dia não dá. Correr 1% a mais, sim. O problema é que, lá pelo fim do ano, esse 1% já virou dívida.
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han apelidou a sociedade contemporânea de sociedade do cansaço. Autoexplicativo. O cansaço “novo normal” – expressão herdada da pandemia – é evidente e, ao mesmo tempo, esotérico: todo mundo sente, mas ninguém sabe bem de onde vem nem para onde vai. E não depende de esforço físico. “Fellipe, eu fico o dia inteiro deitada e, ainda assim, estou constantemente cansada.” Olho grudado na tela cansa. Depressão cansa. Hipervigilância? Cansa muito.
Clinicamente, isso tem lógica. Cansaço físico se resolve com repouso. Fadiga psíquica, não: ela vem de um gasto que não aparece no corpo – atenção fragmentada, estado de alerta sustentado, trabalho emocional, conflito interno não resolvido. Dormir oito horas não repõe o que foi gasto, porque o gasto continua acontecendo durante o sono.
Han descreve bem o mecanismo: saímos de uma sociedade disciplinar, organizada pela proibição, e entramos numa sociedade do desempenho, organizada pelo poder-fazer. O chefe não precisa mais vigiar – o sujeito vigia a si mesmo. É explorador e explorado na mesma pessoa. Não há com quem brigar, porque a cobrança vem de dentro. É esse o solo do burnout.
O cansaço de dezembro é cíclico, e isso não é impressão. Perto do ano novo, a sensação é de linha de chegada – da largada que foi dada em 1º de janeiro. Só que esse tempo é subjetivo. Não existe na nossa fisiologia um clique no dia 1º e outro no dia 31. Quem marca isso é a mente. E a mente cobra juros.
Aqui entra o ingrediente que transforma o caldo de angústia em ansiedade: o luto pelo que deveria ter sido.
A psicanálise ajuda a nomear. Freud, em “Luto e melancolia”, distingue a perda de um objeto real daquela em que o sujeito sabe que perdeu, mas não sabe exatamente o quê. O fim do ano produz isso em escala: não se perdeu um emprego nem uma pessoa; perdeu-se a versão de si que janeiro prometia. E toda perda não nomeada não é elaborada – é convertida em autocrítica. Freud observa que, na melancolia, a sombra do objeto perdido recai sobre o próprio eu. A tradução contemporânea disso é a conversa do dia 31: a lista do que não foi feito.
Some-se a isso o ideal do eu, a instância que Freud descreve como herdeira do narcisismo infantil – o lugar onde guardamos a imagem daquilo que deveríamos ser. Metas de ano novo são, quase sempre, tentativas de adequação a esse ideal. Acontece que o ideal do eu não é alcançável: ele existe justamente para ficar à frente. Persegui-lo é cansativo. Persegui-lo com prazo é ansiogênico.
Aqui faço uma ressalva a Han. Ele descreve um sujeito com excesso de si mesmo – narcisismo, autoexploração, um eu inflado que não encontra o outro. O diagnóstico está certo; a causa me parece inversa. O “eu” infla porque está vazio. Não sobra si mesmo: falta. O desempenho não é doença de quem se ama demais, é de quem precisa provar que existe. E quem precisa provar não descansa nunca.
Na sociedade do desempenho, a ordem é produzir. Aceitar-se, aceitar os próprios limites e os próprios desejos vai na contramão do “1% todo dia”. Daí a armadilha: essa ansiedade cíclica é, no fundo, um adiamento da própria aceitação.
E aceitação não é desistência. Resignação é abrir mão do desejo; aceitação é reconhecer o que foi possível com os recursos que de fato existiam – tempo, saúde, dinheiro, afeto, contexto. É um balanço, não uma sentença.
Na prática, o movimento é trocar a pergunta. “O que eu deveria ter feito este ano?” é uma pergunta melancólica: compara o real com um ideal que nunca existiu, e o real sempre perde. “O que foi possível e a que custo?” é uma pergunta clínica: compara o real com o real. A primeira produz culpa. A segunda produz informação – e informação é o que permite escolher o próximo ano, em vez de apenas prometê-lo.
Talvez seja esse o trabalho de dezembro. Não fechar metas: fechar o luto.
Luiz Fellipe de Carvalho
Psicanalista
Autor de Homo espiritualis: a vida além do ego, lançado em 2026.
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