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Na era da IA, a longevidade pode se tornar uma vantagem competitiva

Publicado 01/06/2026 • 11:00 | Atualizado há 9 minutos

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Gilmara Espino

A economia prateada já é um dos movimentos mais relevantes do nosso tempo. Gilmara Espino acompanha de perto o mercado 60+ e traz, semanalmente, tendências e casos práticos que revelam como esse fenômeno está abrindo novas frentes de negócio.

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Publicitário, escritor e futurista — ex-CEO do Grupo Newcomm, professor da ESPM

O futurista Walter Longo defende que a Inteligência Artificial valoriza quem tem bagagem. E chama esse fenômeno de "exinteligência"

A lógica convencional diz que novas tecnologias chegam primeiro às grandes empresas e aos mais jovens. As primeiras têm capital para investir; os segundos, disposição para experimentar. A Inteligência Artificial está quebrando essa lógica e quem está saindo na frente, ao menos no Brasil, são os pequenos escritórios e os profissionais com mais de 50 anos.

Essa inversão acontece num país que ocupa o 78.º lugar em produtividade entre 131 nações, segundo o Conference Board, mas tem 54% dos trabalhadores usando IA generativa, acima da média global de 48%.

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A essa contradição soma-se uma pressão demográfica crescente. Cerca de 28% da população já tem mais de 50 anos, e em 2050 o Brasil deve ter a sexta maior população idosa do mundo em termos absolutos. O envelhecimento da força de trabalho é visto, com frequência, como peso: uma geração que sairá do mercado produtivo enquanto a proporção de jovens encolhe. Walter Longo discorda dessa leitura. Acompanhe esta entrevista com o publicitário, escritor e futurista — ex-CEO do Grupo Newcomm, professor da ESPM e autor de mais de 30 livros sobre futuro, IA e comportamento. 

  • Quando você observa quem está na vanguarda da adoção de IA no Brasil, o perfil é o que se esperaria?

Historicamente, toda tecnologia era primeiro adotada por empresas maiores e pessoas mais jovens. Empresas maiores porque eram as que primeiro podiam pagar, e jovens porque normalmente são os mais afeitos às novidades. Mas hoje o que se assiste é uma inversão sem precedentes nessa lógica: a IA está sendo adotada primeiro pelas empresas menores e por pessoas mais velhas.

  • Por que são justamente as empresas menores que estão se movendo mais rápido com a IA? 

Um escritório de advocacia com 3 pessoas, por exemplo, já pode competir em pé de igualdade com um que tenha 90 funcionários. Uma agência de propaganda pequena, com quatro, cinco pessoas, está disputando concorrências com outra de  200. É como se a IA tivesse terraplanado o cenário competitivo. Enquanto as pequenas ganham agilidade, as grandes estão às voltas com suas políticas de governança, de risco e segurança da informação. O ritmo para elas é mais lento.

  • E no caso das pessoas: como se dá a adesão à IA? 

IA é uma tecnologia barata, com baixa barreira para adoção. Pelo valor equivalente ao de uma assinatura da Netflix, ferramentas de IA podem traduzir, ilustrar, roteirizar, entre muitas outras coisas. Segundo, porque a interação com o usuário é coloquial. Da mesma forma como estou conversando com você, eu poderia estar conversando com a IA.

  • Você defende que os profissionais mais velhos extraem mais valor da IA. O que explica essa vantagem?

Porque o melhor uso da IA requer extensão vocabular, bagagem e conteúdo do usuário. E isso vem com os mais velhos. Os jovens possuem, nesse momento, 40% menos extensão vocabular do que na década de 70 e 80.

  • Isso significa que a IA pode estender a vida profissional ativa de quem está na faixa dos 60+? 

A Inteligência Artificial veio não só para terraplanar o cenário competitivo entre empresas, mas também entre jovens e pessoas mais velhas. A consequência será o aumento no tempo de vida útil de um profissional, mas desde que ele tenha vontade de agir, de aprender e reaprender de forma contínua.

  • Existe ainda um senso comum forte de que pessoas mais velhas não se adaptam bem à tecnologia. Como você rebate isso?

A IA não é só tecnologia. Ela faz coisas que, para os mais velhos, são uma extensão das próprias limitações que chegam com a idade. O envelhecimento afeta, por exemplo, a memória recente, mas a IA permite que se lembre tudo o foi falado, independentemente de onde se esteja e com acesso imediato.

  • Você desenvolveu o conceito de "exinteligência" para descrever essa relação entre humano e IA. O que ele captura que o termo "inteligência artificial" não captura?

Eu chamo de "exinteligência" a capacidade de uma pessoa de ampliar suas habilidades e atribuições para além do que cabe na caixa craniana. Quando você analisa as potencialidades da IA na produtividade individual, ela é muito mais uma forma de expandir competências do que uma forma de ser trocado por outro. É um raciocínio de adição, não de substituição. 

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  • Na prática, como essa exinteligência transformou sua própria produção?

Costumo dizer que eu não sabia desenhar, mas hoje sou um excelente desenhista. Que eu não falava várias línguas, mas, hoje, sou poliglota. Eu ganhei super poderes ou super competências graças não à minha inteligência, mas à minha exinteligência. Eu escrevia 2 livros por ano; com IA, foram 16 livros só no último ano. Como consegui? Não preciso mais do tempo enorme que gastava com pesquisa, revisão de conteúdo e de texto. Ela não faz por mim; fazemos juntos, como um ciborgue.

  • Como um ciborgue? 

Sim. Em um ciborgue, não se identifica onde começa o homem e onde começa a máquina. É diferente de um centauro, figura mitológica com o corpo metade superior humano, outra metade animal. Uso a IA durante o processo construtivo, como uma escada; e não como uma muleta.

  • No que se refere à longevidade, como você vê o futuro do trabalho?

Viver mais nos obriga a pensar que as pessoas não são — elas estão. Aos 20 anos, alguém “estava” administrador; aos 40, “estava” empreendedor; aos 55, montou uma clínica de massagem; aos 70, uma franquia. Ou seja, no futuro do trabalho, as pessoas estarão se reinventando, alongando sua capacidade de produzir.

A Inteligência Artificial pode se tornar o elo entre produtividade e longevidade. Ao ampliar o tempo de contribuição econômica das pessoas, transforma o envelhecimento em reserva de capacidade produtiva, em alguns casos com vantagens competitivas. Discutir o trabalho na longevidade é discutir o futuro da produtividade brasileira.

Gilmara Espino é especialista em marketing e comunicação em saúde, presidente da GPeS Health Branding & Business e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.

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