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Economia prateada no Brasil: o mapa do mercado de R$ 1,5 trilhão
Publicado 06/07/2026 • 12:15 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 06/07/2026 • 12:15 | Atualizado há 1 hora
Divulgação
O consumo deve alcançar R$ 3,8 trilhões em 2044, segundo projeções do Data8.
Balanço de 90 dias mostra um padrão: quem paga a conta do envelhecimento é quem decide onde a inovação acontece.
Por Gilmara Espino
A economia prateada reúne os negócios movidos pela população com 60 anos ou mais, um mercado que já representa mais de R$ 1,5 trilhão em potencial de consumo no Brasil e que, ampliado ao público 50+, deve alcançar R$ 3,8 trilhões em 2044, segundo projeções do Data8. Há três meses, o Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC, acompanha esse movimento semana a semana nesta coluna, com tendências e casos práticos que ajudam o leitor a entender como a longevidade cria novas oportunidades de negócio. O texto de hoje é um mapa do que se teceu até aqui. Se você chegou agora, este é seu ponto de partida. E seja bem-vindo.
A imagem do tecido vem de João Cabral de Melo Neto. Em "Tecendo a Manhã", um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisa de outros que apanhem seu canto e o lancem adiante, até que a manhã se teça entre todos. Foi o que aconteceu aqui desde o primeiro canto. Moradia puxou tecnologia, que puxou consumo, que puxou trabalho, que puxou cuidado. A cada segunda-feira, um fio se enlaçou ao anterior, e o desenho que eles formam diz mais sobre a urgência da economia prateada do que qualquer estatística isolada.
Tudo começou com uma constatação que ainda surpreende: em 2020, pela primeira vez na história, segundo a ONU, o mundo passou a ter mais pessoas com 60 anos ou mais do que crianças com menos de cinco.
Abri a coluna apresentando o "jovem idoso", esse consumidor que envelheceu sem aposentar desejos e que desmonta os estereótipos da velhice. É dele que nasce a força econômica da longevidade: mais tempo de vida, mais repertório acumulado e, com frequência, mais liberdade para decidir como gastar, morar, trabalhar e cuidar de si.
Quem acumulou capital e repertório raramente quer parar. O mercado é que insiste em dispensá-lo, e talvez esteja abrindo mão de seu ativo mais valioso.
O futurista Walter Longo me disse, em entrevista, que a inteligência artificial inverteu a lógica histórica da adoção tecnológica. Ela avança primeiro entre empresas pequenas e profissionais maduros porque seu melhor uso pede vocabulário, bagagem e conteúdo.
O obstáculo segue sendo o etarismo, somado a modelos de contratação que não acolhem essa fase da carreira. Plataformas como Maturi e Talento Sênior surgiram exatamente nessa fresta, retratadas no texto sobre longevidade produtiva.
Mais tarde, ao analisar 45 AgeTechs no Brasil e no exterior, entendi um padrão: a inovação segue a carteira de quem paga. Saúde e cuidado concentram as apostas. Propósito, convivência e moradia continuam à espera de quem os resolva.
O Procon-SP revelou que 92% dos consumidores maduros têm acesso à internet, mas 51% já desistiram de uma compra porque a empresa só operava por aplicativo. Foi esse retrato que me levou a perguntar por que o consumidor 60+ não compra no seu app.
No turismo, a contradição se repete: 47% dos viajantes 60+ gastam mais de R$ 10 mil por ano em viagens, e ainda assim os roteiros seguem desenhados sem pensar neles. A demanda está posta. O que falta é enxergar o consumidor maduro sem reduzi-lo à fragilidade.
Emprego negado e moradia inacessível são formas de violência contra idosos, além da violência física. De um lado, Naara, Vitacon e DOM constroem o senior living brasileiro, com moradias desenhadas para prolongar autonomia. Do outro lado, o impasse das casas de repouso na Lapa escancara a dependência da rede privada: em São Paulo, as vagas conveniadas somam 690 para quase 2 milhões de idosos.
Nem toda violência aparece como agressão. Às vezes, ela se manifesta como negligência, tutela, infantilização ou ausência de escuta. O texto que mais me tocou até aqui mostra que o agressor costuma estar dentro de casa: segundo o Atlas da Violência, as notificações de violência contra idosos cresceram 226,3% em uma década, com mais de 30 mil registros só em 2024.
Acompanhei a missão brasileira à China Aid, em busca de respostas para a escassez de cuidadores que já nos alcança: a população brasileira com 60 anos ou mais cresceu 59% em 13 anos, segundo o IBGE. O que a China mostra vai além da tecnologia: é a integração entre cuidado, autonomia, monitoramento, fomento público e adoção rápida.
"Estamos falando de um ecossistema completo pensado para apoiar a autonomia, a segurança e a qualidade de vida das pessoas à medida que envelhecem", resumiu Martha Oliveira, CEO do Grupo Laços.
E o caminho asiático continua: para a próxima coluna, estou preparando um guia para empreendedores que querem aprender com as AgeTechs indianas, a partir da minha conversa com Maria Clara Pinheiro, da Aayu Convergence, sobre o que Brasil e Índia têm a trocar nesse ecossistema.
Volto ao galo de João Cabral. Nenhuma manhã se tece com um canto só. Cada leitor que apanha um desses fios e o lança adiante, numa reunião de diretoria, numa conversa de família, numa decisão de investimento ou numa política pública, entra na trama.
A longevidade criativa de Matisse mostrou isso: aos 80 anos, impedido de pintar, ele desenhava com a tesoura. Quando uma linguagem se esgota, quem tem imaginação inventa outra.
É o que estes primeiros meses me ensinaram sobre o tempo de vida que ganhamos e ainda não aprendemos a habitar.
Que outros galos cantem.
Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil - Licenciado Exclusivo CNBC.
O que é economia prateada?
É o conjunto de atividades econômicas movidas pelo consumo, pelo trabalho e pelos investimentos da população com 60 anos ou mais, em setores como saúde, moradia, turismo, tecnologia e serviços financeiros.
Quanto movimenta a economia prateada no Brasil?
O potencial de consumo do público 60+ supera R$ 1,5 trilhão. Considerando os brasileiros com 50 anos ou mais, a projeção do Data8 é de R$ 3,8 trilhões em 2044.
Quem é o consumidor da economia prateada?
Um público heterogêneo, definido mais pelo comportamento do que pela idade: vai do "jovem idoso", que cruzou os 60 mantendo vida produtiva e engajada, ao idoso que precisa de cuidado contínuo. Os dados da Serasa Experian, analisados pela coluna, confirmam a diversidade: 48,7% dos maduros são aposentados e planejadores financeiros, enquanto a elite econômica do grupo, 1,4%, mantém presença digital de 64,2% e consumo que rivaliza com gerações mais jovens. Tratar esse consumidor como bloco único é o erro mais comum das empresas.
Leia todas as colunas de Economia Prateada.
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