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Violência contra idosos. O agressor está dentro de casa

Publicado 22/06/2026 • 12:14 | Atualizado há 2 horas

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Gilmara Espino

A economia prateada já é um dos movimentos mais relevantes do nosso tempo. Gilmara Espino acompanha de perto o mercado 60+ e traz, semanalmente, tendências e casos práticos que revelam como esse fenômeno está abrindo novas frentes de negócio.

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Há alguns anos, durante uma viagem pela Ásia, visitei um templo budista. O monge falou sobre um princípio presente em muitas culturas orientais: a responsabilidade dos mais jovens pelo cuidado dos mais velhos. No Ocidente, essa ideia costuma ser chamada de "piedade filial" ou "dever filial": quem recebeu cuidado carrega, em algum momento, a responsabilidade de cuidar.

Essa ética, no entanto, colide com uma realidade cada vez mais complexa. As famílias estão ficando menores. Filhos moram em outras cidades. O trabalho exige mobilidade. A rotina urbana comprime o tempo. E, muitas vezes, o distanciamento não nasce da indiferença, mas da impossibilidade concreta de estar tão perto quanto se gostaria.

É nesse espaço entre o desejo de cuidar e a capacidade real de fazê-lo que muitos idosos ficam vulneráveis.

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A violência contra idosos que a família não reconhece

A violência contra a pessoa idosa costuma ser associada à agressão física. Mas ela se manifesta de muitas formas.

A pessoa idosa está ali, sentada na sala, mas a conversa acontece por cima dela. O filho responde pelo pai. O médico olha para o acompanhante. O advogado conversa com os herdeiros. A família organiza a vida daquele idoso como se autonomia fosse algo que se perde com a idade.

A Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia nomeia como violência situações que a sociedade ainda trata como descuido tolerável: o idoso excluído das decisões, infantilizado em consultas, isolado do próprio patrimônio ou transformado em assunto de família sem ser tratado como sujeito.

A advogada especialista em Direito de Família Aleksandra Manoel Garcia resume o mecanismo: "Todos falam sobre o idoso, mas ninguém fala com o idoso. Ele está presente em reuniões familiares, audiências ou atendimentos jurídicos, mas sua vontade não é considerada. Torna-se objeto do processo, e não sujeito da própria história."

O Brasil ficou mais seguro para o idoso?

Sim e não. Os homicídios de pessoas com 60 anos ou mais caíram 39,2% na taxa por 100 mil habitantes em uma década, segundo o Atlas da Violência 2026, publicado em maio deste ano.

Mas os registros da rede de saúde revelam outro tipo de violência em crescimento: a violência interpessoal contra idosos. O mesmo relatório aponta que as notificações desses casos aumentaram 226,3%. Só em 2024, foram 30.097 registros no Sinan, sistema do Ministério da Saúde. Entre pessoas com deficiência acima de 80 anos, negligência e abandono já respondem por 72,4% de todas as notificações de violência.

Entre 2014 e 2024, a mortalidade por quedas entre idosos cresceu entre 23,4% e 36,5%, conforme o Atlas. Para essa faixa etária, as taxas de mortalidade por quedas já são mais de 40 vezes superiores às taxas de homicídio. O relatório projeta ainda que, em 15 anos, as mortes por quedas superarão os homicídios também na população geral do Brasil.

Uma queda não é, por si só, violência. Mas ignorar riscos previsíveis, não adaptar a casa, não orientar cuidadores e naturalizar acidentes recorrentes também podem ser uma forma de abandono.

Cuidadores estão preparados?

Negligências não nascem da crueldade. Algumas nascem da exaustão, da falta de orientação, da ausência de suporte e da ideia equivocada de que cuidar é algo intuitivo. Não é. Demanda técnica, tempo, recursos, preparo emocional e rede de apoio.

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"Cuidar de uma pessoa idosa exige atenção constante, conhecimento técnico e sensibilidade para identificar mudanças físicas, emocionais e comportamentais. Muitas situações de negligência ou violência acontecem pela falta de orientação adequada sobre higiene, mobilidade e prevenção de lesões", afirma Patrícia Fera, doutora em Ciências da Saúde e enfermeira consultora de TENA, empresa de higiene e saúde que coordenou pesquisa sobre os hábitos e atitudes dos cuidadores.

Segundo a pesquisa, seis em cada dez cuidadores brasileiros não possuem formação específica para exercer a função. A China já chegou a uma resposta possível para esse gargalo: centros de cuidado diurno, nos quais robôs respondem por 70% das atividades operacionais, justamente porque faltam cuidadores treinados em escala. [Leia mais]

Como enfrentar a violência que cresce com o envelhecimento da população?

"Precisamos superar a ideia de que determinadas situações são naturais do envelhecimento. Combater a violência também significa enfrentar o etarismo e valorizar a autonomia, a dignidade e os direitos da população idosa", afirma Vania Beatriz Herédia, socióloga, doutora em História e pesquisadora da SBGG — Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia.

A frase me leva de volta ao templo budista. O monge falava de uma responsabilidade que, por definição, não pode ser individual. Quando não há sistema para sustentá-la, ela recai inteira sobre as famílias e a sociedade.

O Brasil tem Estatuto do Idoso. Tem dados. Tem mais de 65 mil denúncias registradas nos primeiros meses de 2025. O que não tem é uma política nacional de cuidados, o tipo de sistema que Alemanha, Japão e Coreia do Sul construíram para responder ao ciclo: população envelhecendo, famílias menores, cuidadores sem formação.

Em ano eleitoral, a segurança domina o debate. Não tenho visto programas de governo que incluam uma política nacional de cuidados de longo prazo.

O cuidado sem escuta pode virar tutela. E tutela sem respeito pode virar violência.


Gilmara Espino é especialista em marketing e comunicação em saúde, presidente da GPeS Health Branding & Business e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.


Fontes: Atlas da Violência 2026 (IPEA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública); Sinan/Ministério da Saúde; Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia; TENA/MindMine

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