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Economia prateada: o que as AgeTechs da Índia ensinam ao Brasil
Publicado 13/07/2026 • 21:30 | Atualizado há 4 horas
Publicado 13/07/2026 • 21:30 | Atualizado há 4 horas
Fundadores de AgeTechs na Aayu Convergence, na Índia
A Índia envelhece mais rápido do que seus sistemas se adaptam. A resposta dos empreendedores foi se organizar como setor, e o modelo interessa a quem constrói o mercado da longevidade no Brasil.
Hoje é aniversário de Maria Stela. Minha avó, 93 anos. Minha querida e tão próxima avó já não se lembra de mim. É o turbilhão da longevidade, em que cada família se organiza como pode. Um país não pode se dar a esse luxo. Daí nasce uma das obsessões que guiam esta coluna: não reinventar a roda sem antes olhar que carroças outros já puxaram.
Foi assim quando acompanhamos a primeira missão brasileira à China Aid. Agora é a vez da Índia.
A economia prateada indiana movimenta US$ 8,7 bilhões, uma fração do potencial de US$50 bilhões que o NITI Aayog, instituto de planejamento do governo, já identificou no país. A explicação é demográfica. São cerca de 150 milhões de pessoas 60+, a caminho de 300 milhões em 2047, com um agravante de qualidade: a expectativa de vida é de 73 anos, mas a de vida saudável termina aos 58, aponta o relatório Longevity, conduzido pela Rohini Nilekani Philanthropies, pela Dalberg e pela Ashoka, rede global de empreendedorismo social.
"A Índia envelhece mais rápido do que seus sistemas conseguem se adaptar", resumem os próprios fundadores das startups de longevidade indianas. Soa familiar? O Brasil, onde o potencial de consumo 60+ já passa de R$1,5 trilhão, também envelhece à frente de seus sistemas, com dados escassos e capital tímido, como mostrei ao analisar 45 AgeTechs em três países.
Para entender como a Índia responde a um envelhecimento que corre à frente de seus sistemas, conversei com Maria Clara Pinheiro, brasileira que passou 23 anos na Ashoka, onde esteve à frente do programa global de Nova Longevidade. Hoje, de Bangalore, ela integra o time da WisdomCircle, plataforma de empregabilidade para profissionais 50+.
O contraste com o Vale do Silício é o coração da conversa. "Grande parte das startups de longevidade no Vale do Silício tem concentrado seus esforços em biotecnologia e em como estender a vida, mas a pergunta que precisamos fazer é: estender a vida para quem? Se essas inovações só forem acessíveis para quem pode pagar, seu impacto será muito limitado", me disse. Na Índia, a lógica costuma ser outra. Historicamente, inovação significa criar produtos e serviços capazes de atender milhões de pessoas a um custo acessível. Essa mesma mentalidade começa a moldar o campo da longevidade. Robôs de companhia que custam de US$10 mil a US$20 mil na Califórnia são recriados por uma fração do preço, e detectores de queda já nascem conectados a sistemas de ambulância.
O Aayu Convergence é o encontro nacional da comunidade de AgeTechs da Índia, as startups que criam produtos e serviços para a população que envelhece. A segunda edição, realizada em Bangalore em maio de 2026, reuniu por dois dias mais de 40 fundadores de negócios em cuidado domiciliar, senior living, saúde cognitiva, produtos financeiros e inteligência artificial. Muitos empreendem há dez, quinze anos, com empresas rentáveis, em um setor que cresceu sem reconhecimento.
Para destravar o setor, os fundadores mapearam três carências: legitimidade de dados, com um relatório anual que dê base de evidências às conversas com governo, mídia e investidores; infraestrutura de narrativa, para deslocar a conversa sobre envelhecimento de problema para oportunidade; e capital paciente, em um mercado onde o venture capital ainda não chegou em escala. A conclusão que atravessou os dois dias: as lacunas da longevidade não se resolvem caso a caso; pedem resposta sistêmica, com governo, empresas, filantropia, mídia e organizações comunitárias em papéis complementares.
O encontro terminou com compromissos, não apenas com conclusões. Cinco fundadores se comprometeram, de mão levantada, a financiar um fundo semente que investirá nas startups do grupo, e formou-se uma frente de IA compartilhada, com infraestrutura de voz e acesso a ferramentas do Google DeepMind. A comunidade, que já se articulava informalmente em um grupo de WhatsApp de cerca de 130 fundadores, saiu do evento convertida em coletivo com agenda comum: de construtores individuais a um setor que se constrói junto.
Três movimentos se aplicam ao Brasil desde já. Unir as startups do setor sem esperar o capital chegar: na Índia, os próprios fundadores estão criando relatório, narrativa e fundo, e é essa organização que atrai o investidor, não o contrário. Tratar dados como ativo estratégico. E desenhar com os mais velhos, nunca apenas para eles: na Índia, como aqui, os fracassos se concentram em produtos criados longe de quem envelheceu. "Precisamos de mais colaboração no Sul Global. Há muito que Índia e Brasil podem aprender um com o outro", resume Maria Clara. Os brasileiros, diz ela, estão convidados a ingressar na comunidade.
Volto à minha avó. Ela já não guarda nomes nem datas e não saberá deste texto. Mas é por ela, e pelos 35 milhões de brasileiros 60+, que vale olhar as carroças que a Índia já puxou. A frase dos fundadores indianos também nos descreve; a diferença é que ainda dá tempo de aprender com quem se organizou primeiro. Melhor puxar a carroça juntos do que reinventar a roda sozinhos.
Na próxima coluna, essa conversa sobre desenhar para quem envelhece fica literal: um oftalmologista explica o que acontece com os olhos do consumidor 60+ e por que o marketing ainda não enxergou isso.
AgeTechs, também chamadas de SeniorTechs, são startups que desenvolvem produtos e serviços para a população que envelhece, em áreas como cuidado domiciliar, senior living, saúde cognitiva, finanças e inteligência artificial. São um dos motores da economia prateada, o conjunto de atividades econômicas movidas pelo público 60+.
O mercado voltado aos idosos movimenta US$ 8,7 bilhões, com potencial de US$ 50 bilhões, segundo o NITI Aayog.
Três lições: organizar as startups do setor antes de esperar o capital, produzir dados anuais confiáveis para sustentar conversas com governo, mídia e investidores, e desenhar produtos com os mais velhos, não apenas para eles.
A comunidade está aberta, afirma Maria Clara Pinheiro. Haverá encontro anual e um site com as organizações participantes; interessados podem escrever para a colunista no LinkedIn, que faz a ponte com o grupo indiano.
Gilmara Espino é mestre em gestão, palestrante e professora de MBA. Presidente da GPeS Comunicamos Saúde e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.
Leia todas as colunas de Economia Prateada.
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