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Menopausa: o varejo educa o que o sistema não ensinou. E agora?
Publicado 18/05/2026 • 11:00 | Atualizado há 12 minutos
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Publicado 18/05/2026 • 11:00 | Atualizado há 12 minutos
Divulgação
O climatério é o período de transição entre a fase reprodutiva e a pós-reprodutiva da mulher
Você, homem ou mulher, saberia reconhecer os sintomas da menopausa? Se a resposta foi “não”, não se assuste. Você está em maioria absoluta.
O estudo Tsunami Prateado, conduzido pela data8 em parceria com a NoPausa, mostra o tamanho desse silêncio: 70% das brasileiras chegam à menopausa sem informação suficiente e 57% das mulheres acima de 50 anos não sabem o que é climatério.
Esse abismo entre sintoma e informação custa caro a quem o vive. Mas tem se mostrado lucrativo para marcas que aprenderam a habitá-lo. Antes de destrinchar esse nicho de mercado, vale esclarecer alguns conceitos.
O climatério é o período de transição entre a fase reprodutiva e a pós-reprodutiva da mulher. É uma janela longa, que costuma começar entre os 40 e 45 anos e pode se estender por até uma década. A menopausa, dentro dele, é apenas um marco: o dia da última menstruação, oficialmente confirmado doze meses depois. O climatério é o entorno; a menopausa, o ponto.
Dentro dessa janela, mais de 30 sintomas podem aparecer. A média é de seis a oito sintomas simultâneos por ano. Os mais frequentes desorganizam tanto a rotina quanto a carreira: fogachos, suor noturno, secura vaginal, incontinência urinária, insônia, névoa mental, queda de libido, ansiedade, alterações de humor.
Mais de 50% das mulheres da comunidade NoPausa relatam dormir mal e 83% relatam angústia ou depressão. Tudo isso, vale repetir, em mulheres que estão no ápice produtivo da carreira, ocupando cargos de liderança, chefiando equipes, conduzindo negócios.
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O segmento brasileiro de menopausa deve sair de US$384 milhões em 2024 para US$527 milhões em 2030. Nesse vazio de informação, instalou-se uma indústria que opera em duas frentes simultâneas e contraditórias. De um lado, a desmistificação, que abre conversa, normaliza o tema e dá nome ao que antes era tabu. Do outro, a glamourização, que transforma uma fase fisiológica em vitrine de consumo.
Os suplementos se tornaram uma das principais portas de entrada desse mercado. A categoria dispensa prescrição, circula no e-commerce e conversa diretamente com mulheres que procuram alívio rápido para sintomas que muitas vezes ainda não foram acolhidos no consultório.
Marcas como Vichy estruturam campanhas inteiras em torno do tema. A linha Neovadiol foi lançada com Angélica e Zezé Motta sob o mote #menopausasemtabu, mobilizando o capital reputacional de duas mulheres de gerações e trajetórias distintas. O objetivo era legitimar uma categoria que, por décadas, quase não existiu nas prateleiras.
Plataformas como Womaness, Miror e Issviva foram além do produto: reúnem comunidade, conteúdo editorial, especialistas e comércio em arquiteturas mais próximas de ecossistemas digitais do que de marcas tradicionais de saúde.
O que essas campanhas ensinam é, em larga medida, o que o sistema de saúde não chegou a ensinar. Mulheres descobrem pelo Instagram da Vichy o que é atrofia vaginal. Aprendem com a Womaness que existe diferença entre perimenopausa e pós-menopausa. Identificam a própria névoa mental num reel do Miror antes de levar a queixa ao consultório.
Há ganho real nesse letramento e é honesto reconhecê-lo. Mas o modelo de negócios por trás dele tem uma lógica: cada sintoma identificado é uma porta de conversão. Cada dor nomeada é um novo produto potencial. A educação acontece, mas vem embrulhada em catálogo. A marca se torna, ao mesmo tempo, professora e vendedora.
O problema não é o varejo falar sobre menopausa. O problema é quando a prateleira passa a ocupar o lugar do protocolo, da escuta médica e da política de cuidado.
Há um risco específico nas combinações de suplementos, cosméticos e produtos íntimos vendidos como solução integral para a mulher em climatério. Elas podem criar uma expectativa terapêutica que o produto, sozinho, não é capaz de cumprir.
Como observa a Dra. Heloisa Graça Aranha, ginecologista e diretora médica do Hospital Barra D’Or: “Uma mulher pode olhar esse kit, usar, e não ter tanto benefício como uma reposição. Aí ela pode achar que não funciona. Quando a expectativa de tratamento real é frustrada por um produto de suporte cosmético, o efeito colateral não é só financeiro; é o descrédito por extensão, que recai sobre toda a categoria, inclusive sobre intervenções clínicas legítimas”, alerta a médica.
A Female Founders Fund estima que uma mulher gasta, em média, US$20 mil ao longo da vida entre diagnósticos equivocados, consultas inconclusivas e medicações por tentativa e erro. Boa parte desse gasto vai para suplementos, dispositivos, cosméticos e plataformas que prometem alívio sem necessariamente entregá-lo na proporção sugerida pelo discurso de marketing.
A internet amplia essa ambiguidade. “Chegam muitas pacientes mergulhadas em fake news”, diz a Dra. Heloisa. Segundo ela, o ambiente digital, que poderia ampliar o acesso à informação de qualidade, também virou terreno fértil para falsos milagres, produtos sem comprovação científica e influenciadores nem sempre comprometidos com o bem-estar de quem os assiste.
A linha entre advocacy genuína, marketing disfarçado e desinformação comercial é cada vez mais tênue. Ainda assim, a indústria instalada no vão do climatério presta um serviço involuntário: abre a conversa, financia o letramento e derruba o tabu.
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A maturação da economia de produtos e serviços voltados ao climatério e à pós-menopausa depende de infraestrutura clínica e informacional que conecte o letramento de marca ao cuidado de fato. Isso inclui capacitação médica continuada em terapia hormonal moderna, plataformas de protocolo para operadoras de saúde, programas de medicina ocupacional para empresas com força de trabalho feminina madura, telemedicina especializada e certificações que separem o suporte cosmético da intervenção clínica.
Quem ocupar esse espaço não vai disputar prateleira com Vichy ou Now Foods. Pelo contrário, vai vender para elas, para operadoras de saúde e para departamentos de RH de companhias que começam a perceber que metade de sua liderança feminina atravessa, neste momento, seis a oito sintomas simultâneos de climatério. Ignorar isso tem custos de produtividade, retenção e reputação que ainda não foram devidamente precificados.
O climatério deixou de ser tabu há pouco tempo. Virou mercado mais rápido do que virou política de saúde. A pergunta dos próximos cinco anos é se a economia da menopausa no Brasil vai amadurecer apenas como categoria de bem-estar ou como infraestrutura de cuidado, com método, evidência e escala. Os dois caminhos faturam. Apenas um deles entrega mais saúde para nós, mulheres.
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