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A China está transformando o cuidado com idosos. O que o Brasil foi aprender lá

Publicado 15/06/2026 • 11:00 | Atualizado há 2 horas

Foto de Gilmara Espino

Gilmara Espino

A economia prateada já é um dos movimentos mais relevantes do nosso tempo. Gilmara Espino acompanha de perto o mercado 60+ e traz, semanalmente, tendências e casos práticos que revelam como esse fenômeno está abrindo novas frentes de negócio.

Cresci ouvindo que "quem não sabe as horas, pergunta a quem tem relógio". Em vez de tentar adivinhar o futuro, observamos quem já está vivendo parte dele.

Foi esse o espírito que levou, em junho deste ano, uma delegação de 15 brasileiros à China Aid, a maior feira de soluções para longevidade da Ásia. Representando os setores de saúde, tecnologia, gestão e inovação, o grupo foi em busca de respostas para perguntas que o Brasil já começa a enfrentar cada vez mais intensamente.

A delegação escolheu olhar para um país com mais de 300 milhões de idosos. Enquanto 16,6% dos brasileiros têm 60 anos ou mais, na China esse percentual chegou a 23%. Em Xangai, os mais velhos já representam mais de 40% da população. É como se a China estivesse algumas horas à frente no relógio demográfico.

Missão Saúde Brasil-China 2026

A Missão Saúde Brasil-China 2026 percorreu quatro cidades: Pequim, Hangzhou, Xangai e Shenzhen. O roteiro foi organizado em parceria com a Câmara de Comércio da China e incluiu visitas a empresas como Huawei e Tencent, além de instituições como o Beijing Royal Integrative Medicine Hospital e a China Association for Medical Devices Industry.

A China Aid, ponto alto da missão, aconteceu entre os dias 4 e 6 de junho no Shanghai New International Expo Centre. A feira teve cinco pavilhões, 600 expositores e 90 mil visitantes. 

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"O que mais chamou atenção foi a maturidade do mercado chinês para a chamada 'economia da longevidade'. Não estamos falando apenas de equipamentos médicos ou dispositivos assistenciais. Estamos falando de um ecossistema completo pensado para apoiar a autonomia, a segurança e a qualidade de vida das pessoas à medida que envelhecem", conta Martha Oliveira, CEO do Grupo Laços, organizadora da missão brasileira.

Como será o cuidado 60+ no futuro?

O que a missão encontrou diz respeito não apenas à tecnologia, mas à forma como ela se integra ao cotidiano. "Uma das grandes diferenças entre o Brasil e a China é que nós tratamos a tecnologia como algo adicional. Lá, ela é uma necessidade real, porque a mão de obra, especialmente na saúde, não é suficiente para dar conta da demanda. E o que impressiona é a velocidade de adoção. Tudo acontece muito mais rápido do que imaginamos", conta Martha.

O Ronghua Smart Senior Care Station, inaugurado em Pequim em março deste ano, é o primeiro centro de cuidado diurno para idosos com robôs do mundo: a automação responde por 70% das atividades operacionais, do auxílio à mobilidade à fisioterapia. 

Já a Fubao Robotics levou essa lógica para dentro das casas, com dispositivos que integram monitoramento de saúde, detecção de queda e assistência doméstica. Na Ant Health, do Alibaba, são 10 milhões de consultas por dia, 35% delas por usuários idosos. Na Ping An Insurance, saúde, tecnologia e proteção financeira se reúnem num único produto.

"Vamos ter muita assistência tecnológica no futuro: controle de queda, monitoramento à distância, dispositivos que aferem sinais vitais, assistentes para autocuidado. Isso já é uma realidade e está acontecendo das mais diferentes formas", descreve Martha.

Fomento à inovação em longevidade

O modelo chinês combina capital privado com políticas públicas de financiamento. O governo de Xangai mantém um incentivo dedicado às startups que desenvolvem soluções para a população idosa. AgeTechs chinesas recebem aporte inicial de aproximadamente CNY 1,5 milhão (cerca de R$1,1 milhão), além de infraestrutura, mentoria e acesso a um ecossistema construído para validar e escalar o que funciona.

"O governo criou uma incubadora, estimula as empresas com fomento, participa dessas empresas e depois utiliza as soluções no dia a dia. É uma outra forma de entender tecnologia, de absorvê-la e de estimular o mercado. São soluções práticas para o dia a dia, com possibilidade real para o Brasil", conta Martha.

No Brasil, é diferente. Por aqui, as famílias e o sistema privado ainda são os principais financiadores de tecnologia para cuidado ao idoso, conforme analisamos na coluna anterior. Sem um pagador estruturado equivalente, as startups de longevidade encontram dificuldade para escalar.

Brasil e China envelhecem rápido

A velocidade do envelhecimento aproxima Brasil e China. "Os dois países estão procurando estratégias para lidar com o envelhecimento. A população brasileira com 60 anos ou mais cresceu 59% em 13 anos. A China projeta 30% de idosos até 2035, e a silver economy, que se formou ao redor desse envelhecimento, deve saltar de CNY 8 trilhões para CNY 30 trilhões no mesmo período. Contextos diferentes, direção semelhante. O aprendizado é que a China está fazendo isso com muita tecnologia, muito voltada ao autocuidado", sintetiza Martha.

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Iniciativas como a Missão Saúde Brasil-China 2026 são importantes para acelerar o aprendizado brasileiro sobre como responder ao envelhecimento com escala, integração e velocidade. 

O relógio demográfico segue avançando. Cabe ao Brasil decidir como vai usar esse tempo para se preparar.


Gilmara Espino é especialista em marketing e comunicação em saúde, presidente da GPeS Health Branding & Business e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.

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