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Longevidade criativa: a nova vida de Matisse aos 80
Publicado 10/06/2026 • 09:10 | Atualizado há 7 horas
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Publicado 10/06/2026 • 09:10 | Atualizado há 7 horas
Divulgação
Exposição "Matisse, 1941–1954", realizada no Grand Palais
Em 1941, Henri Matisse tinha 71 anos, acabara de sobreviver a uma cirurgia oncológica para a qual os médicos lhe haviam dado prognóstico de seis meses e estava dependente da cama e da cadeira de rodas. Foi nesse momento que ele criou algumas das obras mais revolucionárias da história da arte do século XX.
A exposição "Matisse, 1941–1954", realizada no Grand Palais em parceria com o Centre Pompidou, é uma das mais importantes dedicadas aos últimos anos de Henri Matisse. Fui vê-la em Paris semanas atrás. Saí pensando numa frase de Walter Longo, escritor e futurista que entrevistei nesta coluna sobre IA e longevidade: “A imaginação se torna mais valiosa quanto mais vivemos.”
Para Longo, a educação formal passa anos comprimindo essa capacidade, obrigando a raciocinar mais e justificar cada desvio da lógica. Quando envelhecemos, quem preservou a capacidade de imaginar mantém uma liberdade que nenhuma condição física consegue tolher por completo.
Matisse é a prova mais radical dessa ideia.
A pintura tradicional exigia esforço físico: longos períodos em pé, deslocamento, energia. Com mobilidade reduzida, Matisse poderia ter parado. Em vez disso, reorganizou o ateliê em torno do corpo possível. A cama virou centro de trabalho, a parede virou suporte, as assistentes passaram a mover e posicionar formas sob sua direção.
Matisse passou a criar com papéis pintados com guache, recortados com tesoura e fixados com alfinetes. Essa técnica ficou conhecida como gouaches découpées, ou papéis recortados. Em vez de desenhar primeiro e colorir depois, ele passou a “desenhar com a tesoura”, cortando diretamente na cor. Assim, a tesoura substituiu o pincel, e aquilo que poderia parecer um encerramento de sua trajetória transformou-se em um recomeço radical de linguagem.
As obras centrais desse período estarão expostas no Grand Palais até 26 de julho: Jazz (1947), livro que mistura circo, movimento e improviso, exposto em sala circular com paredes escuras e instalação sonora; Oceania, The Sea (1946), grandes composições murais com formas orgânicas, aves, algas e sinais flutuantes; e La Tristesse du Roi (1952).
O segundo andar abre espaço para a luz das réplicas dos vitrais que Matisse projetou para a Capela do Rosário em Vence, no sul da França. Lindos, coloridos e hipnotizantes. Ao longo de quatro anos de trabalho no projeto, ele também criou as vestes sacerdotais e os objetos litúrgicos. Matisse considerava a capela sua obra máxima: foi quando passou a pensar espaços inteiros como uma única experiência visual, não mais a tela como limite, mas o ambiente como linguagem.
O grand finale da exposição é reservado aos nus azuis. Os Blue Nudes, criados entre 1952 e 1953 quando Matisse já tinha mais de 80 anos, são considerados alguns dos trabalhos mais influentes. Condensam tudo o que ele buscava: simplificação extrema, cor pura, movimento e sensualidade.
Vários críticos saem da mostra com a sensação de que ela não é uma exposição sobre o fim da vida de Matisse. E sim, sobre um artista que descobriu uma nova juventude estética depois dos 70.
A doença mudou as condições e Matisse reorganizou tudo em volta desse novo momento. Vale pensar no que isso diz sobre como tratamos o envelhecimento produtivo: o mercado de saúde, as empresas e o sistema previdenciário ainda operam como se limitações fossem sinônimos de retirada. E não é. O talento envelhece de forma, não de essência.
Quando uma linguagem se esgota, quem ainda tem imaginação inventa outra.
“J’espere qu’aussi viex que nous vivrons, nous mourrons jeunes”
“Espero que, por mais velhos que venhamos a viver, morramos jovens.”
Henry Matisse, 1950
Gilmara Espino é especialista em marketing e comunicação em saúde, presidente da GPeS Health Branding & Business e colunista de Economia Prateada do Times Brasil, licenciado exclusivo CNBC.
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