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A cor da Copa do Mundo não nasceu no gramado, mas em uma agência de publicidade
Publicado 19/06/2026 • 21:00 | Atualizado há 3 horas
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Publicado 19/06/2026 • 21:00 | Atualizado há 3 horas
A grande quantidade de chuteiras rosas vistas nos gramados da Copa do Mundo chamou atenção por um motivo simples: elas não pertenciam a uma única fabricante. Jogadores patrocinados por Nike, Adidas, Puma, New Balance e Skechers apareceram utilizando modelos em tonalidades muito semelhantes, criando uma imagem incomum em um setor que tradicionalmente busca diferenciar seus produtos por meio do design. Mais do que uma tendência estética, o fenômeno oferece uma oportunidade para compreender como as grandes marcas tomam decisões atualmente.
A explicação apresentada pela Nike se concentra na visibilidade. Segundo a empresa, o rosa cria um contraste mais forte com o gramado, tornando o calçado mais perceptível para torcedores, câmeras de televisão e conteúdos reproduzidos nas redes sociais. A justificativa parece lógica quando analisada isoladamente. No entanto, ela não explica por que Adidas, Puma, New Balance e Skechers chegaram praticamente à mesma conclusão para o mesmo torneio e no mesmo período.
A questão se torna ainda mais interessante porque o futebol é um ambiente de competição permanente não apenas dentro de campo, mas também fora dele. Fabricantes investem bilhões de dólares para construir identidades visuais próprias e associar seus produtos a características exclusivas. Se a cor rosa representasse uma descoberta estratégica capaz de gerar vantagem competitiva, seria esperado que uma empresa adotasse a ideia antes das demais e explorasse esse diferencial por algum tempo. Não foi isso que aconteceu.
A resposta parece estar no modo como a indústria moderna opera. Hoje, Nike, Adidas, Puma e outras gigantes globais não dependem apenas da criatividade de seus designers para lançar novos produtos. As decisões passam por uma extensa rede de pesquisas, análises de comportamento e previsões de consumo. Nesse cenário, consultorias especializadas ganharam papel central na definição do que será visto nas lojas, nas publicidades e, consequentemente, nos gramados.
A WGSN é uma das empresas mais influentes desse mercado. Seus relatórios analisam comportamento cultural, dados de consumo, tendências digitais e movimentos da moda para projetar quais cores, estilos e conceitos terão força nos anos seguintes. Como o desenvolvimento de coleções esportivas costuma acontecer com aproximadamente dois anos de antecedência, essas previsões acabam exercendo influência direta sobre os produtos que chegam ao consumidor.
Não por acaso, a WGSN apontou o Electric Fuchsia como uma das cores estratégicas para 2026. A tonalidade foi apresentada como uma evolução do rosa que ganhou força global após o fenômeno cultural associado ao universo Barbie, além de carregar conceitos ligados à energia, confiança e identidade digital. Quando empresas do porte de Nike, Adidas e Puma recebem sinais semelhantes de mercado, a tendência é que suas respostas caminhem na mesma direção.
Esse processo ajuda a explicar por que concorrentes podem produzir resultados visualmente parecidos sem que exista qualquer coordenação entre eles. As marcas não precisam copiar umas às outras. Basta que observem os mesmos relatórios, acompanhem os mesmos indicadores e utilizem metodologias semelhantes para interpretar o comportamento do consumidor. O resultado é uma convergência que parece coincidência, mas nasce de uma lógica de mercado compartilhada.
O episódio também ilustra o funcionamento de uma profecia autorrealizável. Quando uma consultoria respeitada aponta determinada cor como tendência futura, fabricantes passam a investir nela, varejistas criam espaço para os produtos e campanhas de marketing reforçam sua presença junto ao público. A previsão deixa de ser apenas uma análise e passa a participar ativamente da construção do cenário previsto.
A consequência é um paradoxo para as próprias marcas. Nike, Adidas, Puma, New Balance e Skechers lançaram chuteiras que deveriam funcionar como símbolos de diferenciação. No entanto, ao utilizarem referências semelhantes para orientar suas estratégias, acabaram contribuindo para a criação de um padrão compartilhado. O que nasceu como tentativa de destaque terminou transformado em uma estética dominante.
Talvez por isso alguns dos modelos mais facilmente identificáveis da competição tenham sido justamente aqueles que escaparam da tendência predominante. Em um ambiente visualmente tomado pelo rosa, chuteiras brancas ou douradas passaram a se destacar com mais facilidade. A situação demonstra que, em determinados momentos, a originalidade não está em seguir a tendência mais forte do mercado, mas em encontrar uma forma de se afastar dela.
Em tempo: a WGSN já anunciou que a tendência de 2028 passa por produtos avermelhados, em uma cor batizada pela consultoria como Radiant Earth.
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