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Bets bancam mais de R$ 1 bilhão no futebol e explicam reação de clubes
Publicado 19/09/2026 • 18:22 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 19/09/2026 • 18:22 | Atualizado há 1 hora
A reação de clubes e federações à possibilidade de novas restrições às casas de apostas expõe uma transformação no financiamento do futebol brasileiro. Em poucos anos, as bets deixaram de ocupar propriedades secundárias para assumir o espaço comercial mais valioso das camisas. Dos 20 integrantes da Série A citados no levantamento, 13 possuem uma empresa de apostas como patrocinadora máster. A concentração explica parte significativa da mobilização do setor esportivo.
A dimensão financeira ajuda a compreender o incômodo. Segundo estimativas mencionadas no levantamento, os contratos vigentes de patrocínio máster anunciados pelas agremiações já superam R$ 1 bilhão por temporada. Trata-se de dinheiro diretamente associado ao orçamento dos clubes e à valorização de suas principais propriedades comerciais. Dessa forma, qualquer mudança capaz de reduzir a presença publicitária das plataformas pode repercutir na negociação de novos acordos e na manutenção dos contratos existentes.
Alguns contratos mostram o tamanho dessa relação. O Flamengo recebe R$ 268,5 milhões anuais da Betano em acordo válido até 2028. O Corinthians renovou com a Esportes da Sorte até 2029 por R$ 150 milhões fixos por temporada, além de bônus. Palmeiras, São Paulo, Atlético-MG, Botafogo e Fluminense também possuem contratos que movimentam dezenas de milhões de reais anualmente. Assim, as cifras transformaram as bets em financiadoras relevantes do futebol.
Essa dependência não está restrita às camisas. A própria Série A possui uma empresa do segmento associada ao nome comercial da competição desde 2024, quando a CBF oficializou a Betano como detentora dos naming rights do Brasileirão. Portanto, a discussão sobre restrições alcança uma cadeia comercial que ultrapassa os contratos individuais. Ela envolve clubes, federações, organização dos campeonatos e propriedades publicitárias construídas ao redor do torneio.
O manifesto divulgado por nove federações na quinta-feira (17) traduz essa preocupação. As entidades sustentam que alterações abruptas poderiam reduzir receitas e afetar a capacidade de investimento das equipes. “Os rumores sobre mudanças abruptas na regulamentação do mercado de apostas têm gerado enorme preocupação em todos os clubes, federações e entidades de administração do esporte. Uma mudança abrupta nas regras reduziria a capacidade de investimento dos clubes e criaria desequilíbrios dentro e fora do País”, afirma o documento.
O cenário também evidencia uma questão de substituição de receita. Apenas três equipes relacionadas no levantamento possuem patrocinadores máster de outros setores: Coritiba, com a FoxLux; Bragantino, com a Red Bull; e Mirassol, com a Bebidas Poty. Athletico-PR, Bahia, Grêmio e Internacional aparecem sem patrocinadores principais fixos. A configuração indica a presença dominante das casas de apostas justamente na propriedade publicitária que costuma concentrar os maiores contratos dos clubes.
Há exemplos recentes das dificuldades para substituir essas empresas. Grêmio e Internacional encerraram acordos com bets entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026 e seguem sem patrocinadores máster fixos. O Athletico-PR terminou sua parceria com a Viva Sorte Bet em fevereiro. Já o Coritiba deixou a Reals Bet e anunciou a FoxLux em setembro. Os casos não determinam o que aconteceria com outros clubes, mas mostram diferentes situações após o encerramento desses vínculos.
Por outro lado, a discussão do governo parte de preocupações distintas das apresentadas pelas entidades esportivas. Segundo as informações divulgadas, o Palácio do Planalto e o Ministério da
Fazenda observam problemas relacionados ao endividamento da população de baixa renda, ao comprometimento do consumo de itens básicos, à dependência e à saúde mental. O governo também adotou restrições para determinados grupos, entre eles beneficiários de programas sociais e pessoas enquadradas em outras condições previstas pelas regras.
A eventual Medida Provisória ainda está em discussão, conforme o material disponível. Uma das alternativas consideradas seria proibir jogos de cassino on-line e preservar as apostas esportivas. Mudanças na publicidade e outras limitações às plataformas também aparecem entre as possibilidades. Essa distinção é relevante porque o impacto sobre o futebol dependerá do conteúdo efetivamente adotado: uma restrição aos cassinos produz consequências comerciais diferentes de uma proibição abrangente da publicidade das empresas.
Nesse contexto, o conflito envolve dois interesses econômicos e sociais distintos. Clubes e federações defendem uma fonte que passou a representar parcela relevante de suas receitas comerciais, ao passo que o governo avalia medidas destinadas a reduzir danos atribuídos à atividade. A reação do futebol ocorre porque uma alteração regulatória pode atingir contratos de alto valor e diminuir a demanda pela principal propriedade publicitária das equipes, embora o alcance desse efeito dependa das regras efetivamente aprovadas.
A discussão também revela o grau de concentração alcançado pelas bets no esporte nacional. Quando 13 dos 20 clubes citados possuem empresas do mesmo segmento como patrocinadoras máster, uma alteração naquele mercado deixa de representar apenas um problema individual de determinado time. Ela pode repercutir simultaneamente sobre diferentes equipes. Esse quadro ajuda a explicar por que federações decidiram se manifestar antes mesmo da definição do conteúdo final da medida preparada pelo governo federal.
No fundo, o incômodo dos clubes decorre menos da existência de uma discussão regulatória e mais do risco de mudança nas condições econômicas que sustentam contratos firmados nos últimos anos. As bets passaram a pagar algumas das maiores cifras do mercado publicitário esportivo e ocuparam espaços antes disputados por empresas de vários setores. Agora, a possibilidade de novas limitações coloca essa fonte de receita no centro de uma discussão que une futebol, publicidade e política regulatória.
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