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Como uma rede de cinemas e uma abelha escancararam o fracasso da cota de tela para produções nacionais
Publicado 09/05/2026 • 16:33 | Atualizado há 4 dias
Publicado 09/05/2026 • 16:33 | Atualizado há 4 dias
Freepik
A cota de tela nasceu como uma política pública de proteção cultural. Em tese, seu objetivo é simples: garantir espaço mínimo para o cinema brasileiro diante do domínio quase absoluto das produções hollywoodianas. Na prática, porém, o caso envolvendo o Cinemark e o filme Zuzubalândia escancara uma distorção antiga do mercado exibidor brasileiro. A lei existe, mas o espírito dela parece ter ficado do lado de fora das salas de cinema.
O episódio revela algo ainda mais profundo do que uma brecha regulatória. Ele mostra como grandes redes de exibição enxergam o audiovisual nacional não como parte estratégica da programação, mas como uma obrigação burocrática a ser resolvida da forma mais eficiente possível. Quando uma empresa programa centenas de sessões vazias de um filme infantil às 11h, fecha salas logo depois e retoma as operações apenas horas mais tarde, fica evidente que não existe preocupação com formação de público. Existe apenas o cumprimento matemático de uma meta.
O aspecto mais simbólico do caso é justamente o número de espectadores. Mais de 17 mil sessões resultaram em apenas 1.882 pessoas nas salas, uma média de 0,1 espectador por exibição. Trata-se de um dado devastador porque desmonta qualquer argumento de que a estratégia esteja ligada à democratização do acesso ao cinema brasileiro. A operação funciona quase como uma ficção estatística: sessões existem formalmente, mas o público não. A política pública é cumprida no papel, embora fracasse em sua finalidade essencial.
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A fragilidade da legislação ajuda a explicar o cenário. A atual cota de tela determina quantidade mínima de sessões nacionais, mas não estabelece critérios robustos sobre horários, diversidade de títulos ou desempenho mínimo de circulação. Isso permite que uma única obra seja repetida dezenas de vezes em horários mortos até que a obrigação anual seja liquidada antecipadamente. O resultado é perverso: produções brasileiras continuam fora das faixas nobres e desaparecem justamente nos períodos mais competitivos do calendário, ocupados pelos grandes blockbusters.
Também chama atenção a posição da Ancine diante da prática. Embora reconheça fragilidades na norma, a agência evita classificar a estratégia do Cinemark como má-fé. O argumento econômico aparece com frequência: o setor de exibição ainda sofre impactos do período pós-pandemia e não seria razoável impor prejuízos aos exibidores. O problema é que essa lógica acaba transferindo todo o peso do ajuste para o cinema brasileiro independente, que segue sem acesso real ao público. A proteção institucional ao exibidor não encontra equivalente na proteção ao filme nacional.
Existe ainda uma contradição estrutural no modelo de negócios. Redes de cinema costumam justificar a baixa presença de produções brasileiras alegando falta de demanda do público. Mas o próprio mercado impede que essa demanda seja construída. Filmes nacionais frequentemente recebem menos sessões, horários piores, divulgação limitada e rápida retirada de cartaz. Sem permanência e visibilidade, torna-se impossível competir em condições minimamente equilibradas com lançamentos internacionais apoiados por campanhas milionárias.
O caso de Zuzubalândia também escancara como a concentração do circuito exibidor influencia diretamente a política cultural. O Cinemark, líder de mercado no Brasil, consegue moldar sua programação de maneira capaz de cumprir a lei sem alterar sua lógica comercial principal. Isso
transforma a cota de tela numa ferramenta esvaziada. Em vez de estimular pluralidade e diversidade audiovisual, o mecanismo passa a servir apenas como rito burocrático que preserva o domínio dos mesmos produtos de sempre nas salas mais lucrativas.
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Ao mesmo tempo, seria simplista tratar o problema apenas como má vontade das exibidoras. O cinema brasileiro também enfrenta dificuldades históricas de distribuição, marketing e integração com o público. Muitos filmes chegam às salas sem campanhas robustas e desaparecem rapidamente. A diferença é que a cota de tela deveria funcionar justamente como instrumento corretivo dessa desigualdade estrutural. Se ela permite sessões fantasmas sem plateia, então sua formulação claramente precisa ser revista.
As mudanças anunciadas pela Ancine indicam uma tentativa de reação. Bonificações para sessões após as 17h e vantagens para filmes premiados podem ajudar parcialmente. Ainda assim, o debate central permanece aberto: a cota deve existir apenas para garantir presença numérica do cinema brasileiro ou para criar efetivamente condições de circulação e encontro com o público? São propostas muito diferentes. A primeira produz relatórios administrativos. A segunda exige enfrentamento direto com os interesses comerciais das grandes redes.
No fim, o episódio deixa uma pergunta inevitável: de que adianta reservar espaço ao cinema nacional se esse espaço é invisível? A sobrevivência do audiovisual brasileiro depende não apenas de produção, mas de acesso real às salas, aos horários competitivos e ao espectador comum. Sem isso, a cota de tela corre o risco de virar apenas um mecanismo simbólico, facilmente contornado por quem domina o mercado.
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