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Guilherme Carter

Eixo da rotação avança para julho de 2029: fechamento se aprofunda na barriga da curva e a abertura longa perde intensidade

Publicado 07/09/2026 • 20:45 | Atualizado há 2 horas

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Guilherme Carter

Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV. Coordenador dos programas de pós-graduação da B7 Business School. Managing Director da DataBay, fintech de inteligência de dados para o mercado de capitais. Presença constante na mídia sobre economia e gestão de patrimônio.

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A renda fixa captou R$ 53,9 bilhões em agosto, terceiro maior mês do ano, e acumula R$ 239,8 bilhões; os multimercados registraram o terceiro resgate consecutivo e passam a acumular R$ 10,7 bilhões negativos no ano; o estrangeiro vendeu R$ 18,1 bilhões na Bolsa, a maior saída mensal de 2026, consumindo metade do saldo comprador acumulado até julho. E a curva de juros fechou 22,6 pontos-base no vértice de fevereiro de 2027 enquanto abria 6,4 no de janeiro de 2033. As duas curvas se cruzam em 17 de julho de 2029.

As três séries deste monitor têm, em agosto, um elemento comum: o deslocamento do ponto em que o horizonte deixa de responder a ciclo e passa a responder a prêmio. Na indústria de fundos, o volume voltou a se concentrar na renda fixa em escala não vista desde fevereiro, enquanto os multimercados acumularam o terceiro mês consecutivo de resgate; na Ibovespa, o estrangeiro registrou a maior saída mensal do ano, absorvida em sua maior parte pelo investidor institucional; e a estrutura a termo do DI manteve a rotação descrita na edição anterior, com o eixo deslocado cerca de dez meses para frente e amplitude reduzida nas duas pontas.

Fundos de Investimento: R$ 53,9 bilhões para a renda fixa e terceiro resgate consecutivo em multimercados

A captação de agosto recompôs a assimetria por classe em escala superior à de qualquer mês desde fevereiro. A renda fixa absorveu R$ 53,9 bilhões líquidos — atrás apenas de fevereiro (R$ 77,6 bilhões) e de janeiro (R$ 65,5 bilhões) — e levou o acumulado do ano a R$ 239,8 bilhões.

Os multimercados registraram o terceiro resgate consecutivo, de R$ 5,6 bilhões, depois de R$ 10,1 bilhões em junho e R$ 5,5 bilhões em julho. Os três meses somam R$ 21,1 bilhões e são suficientes para levar o acumulado do ano ao campo negativo, em R$ 10,7 bilhões, apesar da captação de R$ 18,9 bilhões registrada em janeiro. A classe encerrou seis dos oito meses do ano do lado do resgate, e a sequência atual é a mais longa da série em 2026.

Os fundos de ações interromperam em agosto uma sequência de cinco meses de captação positiva, com resgate de R$ 163 milhões — magnitude pequena o suficiente para não caracterizar reversão. O acumulado do ano permanece negativo em R$ 2,6 bilhões, resultado quase inteiramente atribuível a janeiro e fevereiro, que somam R$ 9,0 bilhões de resgate; de março em diante, a classe acumula captação líquida de R$ 6,3 bilhões.

Ibovespa: maior saída estrangeira do ano, absorvida majoritariamente pelo institucional

O estrangeiro vendeu R$ 18,1 bilhões em agosto, a maior saída mensal de 2026 — 22% acima da registrada em maio (R$ 14,9 bilhões), até então o pior mês do ano para a categoria. O efeito sobre o acumulado é da mesma ordem de grandeza: o saldo do ano recuou de R$ 36,4 bilhões ao fim de julho para R$ 18,3 bilhões, de modo que um único mês consumiu metade de tudo o que a categoria havia comprado nos sete anteriores.

Em agosto, o institucional respondeu por R$ 11,4 bilhões, sua segunda maior compra do ano, atrás apenas dos R$ 13,3 bilhões de maio. A categoria "outros" absorveu R$ 3,9 bilhões, o maior valor do ano; a pessoa física, R$ 2,1 bilhões, mantendo-se compradora pelo sexto mês consecutivo; e as instituições financeiras, R$ 716 milhões.

A configuração repete a de maio em composição e a supera em magnitude. O institucional, vendedor em cinco dos oito meses do ano e com R$ 28,6 bilhões negativos no acumulado, aparece do lado comprador precisamente nos meses de saída estrangeira concentrada.

Curva de juros: a abertura de prêmio se concentra na janela do próximo mandato

A comparação entre a precificação de julho e a curva atual mostra, no nível das taxas spot, um trecho curto em fechamento e um trecho longo em abertura, com cruzamento em meados de 2029. A leitura direta desses números, contudo, subestima o movimento e localiza-o de forma imprecisa, porque a taxa spot de cada vértice é a média da trajetória esperada até ali, somada ao prêmio acumulado no período. Uma variação de poucos pontos-base no vértice de dez anos é compatível com variações consideravelmente maiores nas taxas a termo que a compõem. A decomposição pertinente, portanto, é a da estrutura a termo em taxas forward, que isola o que foi reprecificado em cada janela de tempo, em vez de diluí-lo na média.

Feita essa decomposição, o movimento do mês se organiza em três janelas com sinais e magnitudes distintos.

A primeira janela é a única que fechou, e o fechamento está inteiro nos próximos doze meses: a taxa a termo de um ano com início imediato recuou 18,0 pontos-base, de 13,78% para 13,60%. Já o intervalo seguinte, de um a dois anos, abriu 4,5 pontos-base. É no primeiro ano, e apenas nele, que a reprecificação do mês corresponde ao ciclo de política monetária em curso. Convém registrar que esse número difere do mínimo da curva spot, que recuou de 13,76% para 13,54%: o mínimo do spot é o mínimo de uma média acumulada, e não o piso da trajetória projetada para a taxa básica.

A segunda janela vai de um a sete anos e concentra a totalidade da abertura do mês: a taxa a termo do período subiu 10,1 pontos-base, com máximo de 16,2 pontos-base no trecho 2028–2029, seguido de 13,1 em 2030–2031 e 10,7 em 2031–2032. A magnitude é duas a três vezes superior à sugerida pela variação das taxas spot correspondentes. O núcleo do movimento recai sobre o período do próximo mandato presidencial, ainda que a abertura o extravase nas duas direções: começa em 2027 e só se extingue em 2033. A coincidência entre o intervalo de maior intensidade e o horizonte do próximo ciclo governamental é compatível com a hipótese de que o mercado esteja atribuindo prêmio ao regime fiscal que se define em outubro — mas compatibilidade não estabelece a relação. A decomposição entre trajetória esperada de juro real e prêmio a termo exige modelo de estrutura a termo, e a série aqui apresentada não a identifica.

Para Antonio Pavesi Neto, economista e especialista em investimentos internacionais com MBA pela B7 Business School, a concentração do movimento nesse intervalo tem explicação direta. "A preocupação fica concentrada entre 2028 e 2032 porque esse é o período em que o mercado espera que o próximo governo precise executar o ajuste fiscal mais duro, com maior custo político, econômico e de credibilidade. Depois disso, a curva parece embutir a hipótese de que, se esse ajuste for feito, o risco fiscal de longo prazo diminui ou pelo menos deixa de piorar na mesma intensidade."

A leitura atribui à janela, portanto, não a incerteza sobre a direção do ajuste, mas o custo de executá-lo — "aperto fiscal, revisão de gastos, possível desaceleração da atividade e maior estresse político", nas palavras dele —, e mantém aberta a condicionalidade que a precede. "O próximo presidente terá a missão difícil de arrumar a casa para quem vier depois. A dúvida é se fará isso de forma estrutural e responsável, como a situação exige, ou se será apenas um ajuste temporária, feita para 'inglês ver'."

A terceira janela, de sete a dez anos, praticamente não se moveu: a taxa a termo do período subiu 1,5 ponto-base, com os trechos individuais entre -0,8 e +4,2 — uma ordem de grandeza abaixo do máximo registrado na janela anterior. Essa é a informação que a leitura spot obscurece por completo. O que a edição anterior tratou como abertura do trecho longo não é um movimento na ponta longa: é o efeito, diluído na média, de uma reprecificação localizada entre 2028 e 2032. O juro tratado como de equilíbrio no horizonte em que nenhum mandato alcança permaneceu onde estava. O que se moveu foi o preço de um intervalo datado.

Duas ressalvas de medida se impõem. A primeira diz respeito ao ponto de cruzamento entre as duas curvas spot, destacado no gráfico: o diferencial atravessa o zero com inclinação de aproximadamente 0,6 ponto-base por mês, de modo que um único ponto-base de diferença desloca o cruzamento em cerca de dois meses. O cruzamento é, portanto, uma referência visual útil e um indicador estrutural pobre, e variações de sua posição entre edições não devem ser lidas como deslocamento de horizonte. A segunda diz respeito à terceira janela: movimentos de um a quatro pontos-base em vértices longos de DI são da ordem de grandeza que uma única sessão de negociação produz, e a ausência de um parâmetro de dispersão mensal impede afirmar que o sinal ali seja distinto de zero. A conclusão que a decomposição sustenta é a concentração da abertura na segunda janela, não a estabilidade da terceira.

O que fica sob observação até o fim do ano

A variável primária muda de natureza em relação à edição anterior. Não é a posição do cruzamento entre curvas, cuja sensibilidade a ruído foi medida acima, mas o diferencial das taxas a termo por janela, que passa a ser reportado nesta e nas próximas edições em base comparável. Três configurações são distinguíveis nas próximas leituras, e elas não têm a mesma implicação.

A primeira é a continuidade da abertura na janela de um a sete anos com a janela de sete a dez anos estável. Essa configuração é a do mês corrente e corresponde à precificação de um intervalo datado: um regime fiscal atribuído a um mandato específico, e, como tal, sujeito a reversão conforme o próprio mandato se defina. A segunda é a migração da abertura para a janela de sete a dez anos. Essa seria a alteração relevante, porque o que se reprecifica ali não é o regime de um governo, e sim o nível de juro tratado como de equilíbrio — e nenhum resultado eleitoral o devolve à posição anterior. A terceira é a reversão da abertura na janela intermediária, que caracterizaria o movimento dos últimos meses como prêmio tático associado ao calendário, e não como reavaliação de regime.

A distinção entre as três não é semântica, e é a razão de a decomposição a termo substituir a leitura de vértices spot neste monitor: as três produzem variações spot de magnitude semelhante no trecho longo, e apenas a decomposição por janela as separa.

Nos fluxos, dois testes se acumulam. O primeiro é a concentração da captação em renda fixa: com 82% do ano explicados por três meses, a classe depende de janelas, e a distribuição dos meses restantes dirá se o padrão é sazonal ou episódico. O segundo é a sequência de resgates em multimercados, hoje na maior extensão do ano, cuja continuidade separaria realocação estrutural de ajuste tático.

Na Bolsa, a hipótese sob teste é a natureza da devolução estrangeira. O saldo do ano permanece positivo em R$ 18,3 bilhões, mas dois dos três maiores resgates da série ocorreram nos últimos quatro meses, e a absorção tem se concentrado em uma única categoria doméstica. A confirmação de setembro dirá se agosto foi ajuste de posição diante do calendário ou início de reversão do saldo anual.

O propósito deste monitoramento é mitigar a assimetria informacional. A convergência entre o comportamento da indústria de fundos, a microestrutura de fluxos na Bolsa e a modelagem da curva de juros continuará sendo auditada de forma sistemática pelo DataWatch, a plataforma de inteligência de mercado da DataBay. Em um trimestre em que a estrutura a termo passou a localizar com precisão a janela em que a reprecificação ocorre — ainda que a atribuição entre trajetória esperada e prêmio permaneça dependente de modelo —, a diferença entre capturar o movimento ou ser penalizado por ele permanece uma questão de precisão e de tempestividade da medição empírica.

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