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Guilherme Carter

A Encruzilhada Econômica de 2026: O que os planos de governo revelam para o alocador de capital

Publicado 17/08/2026 • 08:30 | Atualizado há 2 horas

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Guilherme Carter

Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV. Coordenador dos programas de pós-graduação da B7 Business School. Managing Director da DataBay, fintech de inteligência de dados para o mercado de capitais. Presença constante na mídia sobre economia e gestão de patrimônio.

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Foto: Freepik

Propostas fiscais, de juros, emprego e infraestrutura das duas candidaturas indicam rumos distintos para o custo de capital em 2027.

À medida que o ciclo eleitoral se afunila, o mercado financeiro entra em sua fase clássica de reprecificação de risco. Para o investidor institucional e o alocador de capital, o ruído das campanhas importa menos do que a consistência econômica dos programas de governo. Ao analisar os documentos oficiais das duas candidaturas que lideram a disputa — PT e PL —, fica evidente que o país se depara com duas visões distintas sobre a alocação de recursos, o tamanho do Estado e a trajetória da solvência pública.

O que está em jogo nos preços dos ativos é a direção do custo de capital no Brasil para o próximo ciclo presidencial. Abaixo, confrontamos os dados macroeconômicos recentes com as propostas centrais de cada candidatura.

Fiscal e Dívida Pública

A âncora fiscal permanece como o principal determinante do prêmio de risco cobrado nos vértices longos da estrutura a termo da taxa de juros. A dinâmica da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) reflete a urgência de uma consolidação crível.

Fonte: Banco Central do Brasil (SGS) | Unidade: % do PIB (fechamento de período) / Elaboração: Plataforma DataBay

Após a pandemia de 2020 e a descompressão observada em 2022, a relação Dívida/PIB retomou uma trajetória ascendente, renovando a exigência do mercado por um desenho fiscal que estanque a expansão do passivo soberano.

  • A proposta do PT: O programa defende a sustentação do atual Arcabouço Fiscal, destacando um esforço de consolidação da ordem de R$ 240 bilhões (cerca de 2% do PIB) entre 2023 e 2026. A estabilização das contas é projetada via recomposição de receitas e justiça distributiva — tributando fundos exclusivos, rendas no topo da pirâmide e mantendo a isenção do Imposto de Renda para até R$ 5.000 —, mirando encerrar o exercício com déficit primário de 0,4% do PIB.
  • A proposta do PL: O plano rejeita o modelo vigente e propõe uma reformulação integral das regras fiscais, ancorada na meta explícita de redução do endividamento. A estratégia central repousa sobre o chamado "Tesouraço" de despesas públicas: extinção de no mínimo 10 ministérios, corte de cargos comissionados, limitação do crédito subsidiado do Tesouro e revisão da reforma tributária com foco na redução da alíquota padrão do IVA sobre a produção.

Trajetória da Inflação

A condução da política monetária pelo Banco Central encontra-se condicionada pelo fenômeno da desancoragem das expectativas de médio e longo prazos. A convivência entre a inflação corrente e as projeções do Boletim Focus define o prêmio embutido nos títulos soberanos indexados à inflação (NTN-B).

Fonte: IBGE e Banco Central do Brasil (Sistema Focus)/Elaboração: Plataforma DataBay

Enquanto o IPCA corrente oscila dentro do limite de tolerância (4,50%), a curva de expectativas apurada pelo Focus para o encerramento de 2026 projeta inflação acima do teto, explicando a rigidez da política monetária.

  • A visão do PT: Trata a taxa básica de juros como fator de concentração de renda e obstáculo aos investimentos produtivos. O programa propõe criar condições para a queda sustentável dos juros através do controle inflacionário pelas vias de expansão de oferta (estoques reguladores de alimentos, políticas industriais e modicidade tarifária de combustíveis pela Petrobras).
  • A visão do PL: Sustenta que a taxa de juros real não cede por decreto, mas como consequência direta do equilíbrio fiscal e da desaceleração da dívida pública. Argumenta que a disciplina nas contas e a recuperação da credibilidade fiscal têm papel central na criação das condições para a redução sustentável dos juros e a convergência da inflação à meta.

Mercado de Trabalho e Custo de Contrataçã

A dinâmica do mercado de trabalho dita o comportamento da inflação do setor de serviços, a produtividade marginal do trabalho e a margem operacional das companhias.

Fonte: IBGE / PNAD Contínua (Média Anual)/Elaboração: Plataforma DataBay

O mercado de trabalho opera próximo do pleno emprego técnico, sustentando a massa salarial, porém impondo desafios de custos unitários do trabalho (Unit Labor Costs) para o setor corporativo.

  • A proposta do PT: Foco na valorização real contínua do salário-mínimo e no fortalecimento da rede de proteção social. Defende ativamente no Congresso o encerramento da escala de trabalho 6x1 com jornada fixada em 40 horas semanais (sem perda salarial), além da regulação trabalhista e previdenciária das plataformas digitais e combate à terceirização irrestrita.
  • A proposta do PL: Ênfase na flexibilização e na redução do "Custo Brasil" na folha de pagamento. O documento defende a prevalência do negociado sobre o legislado e a criação de contratos desonerados para jovens (18 a 24 anos) e profissionais seniores (acima de 50 anos desempregados), ampliando a flexibilidade da negociação entre empresas e trabalhadores.

Investimento em Infraestrutura e o Papel das Estatais

A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) mede a taxa de investimento produtivo necessária para expandir o PIB potencial do país sem gerar pressões inflacionárias de demanda.

Fonte: IBGE (Contas Nacionais Trimestrais)/Elaboração DataBay

O nível de formação de capital fixo segue oscilando em torno de 17% do PIB, historicamente abaixo do patamar considerado ótimo (22% a 25%) para sustentar taxas de crescimento acima de 3% ao ano no longo prazo.

  • A visão do PT: O Estado atua como indutor central do investimento via compras públicas, bancos de desenvolvimento e coordenação do Novo PAC (meta de R$ 1,3 trilhão) articulado à Nova Indústria Brasil (NIB). A Petrobras é posicionada como vetor de transição energética, refino e reativação da indústria naval nacional via conteúdo local.
  • A visão do PL: O Estado assume um papel mais enxuto, concentrado na regulação, na segurança jurídica e na criação de condições para que o investimento privado tenha maior protagonismo. O plano projeta R$ 900 bilhões em quatro anos majoritariamente via concessões, PPPs e mercado privado, propondo contratos de infraestrutura com estabilidade de regras de até 20 anos e aprovação ambiental tácita em caso de inércia estatal. Na governança, reafirma o fortalecimento da Lei das Estatais e a retomada seletiva do Programa Nacional de Desestatização (PND).
*FDI = Foreign Direct Investment

Promessas de campanha sofrem desconto matemático frente aos limites da governabilidade no Congresso Nacional.

De um lado, a manutenção de um modelo em que o Estado exerce papel relevante na indução do investimento exigirá demonstrar que a arrecadação recorrente é capaz de sustentar o piso dos gastos sociais sem pressionar a trajetória da dívida. Do outro, a promessa de um choque liberal com cortes expressivos dependerá da aprovação de reformas administrativas de alta complexidade política.

A depender do desfecho eleitoral, a curva de juros longa — que já embutiu prêmios severos de incerteza — reagirá à credibilidade do plano de voo fiscal apresentado. O alocador de capital precisará balizar seus portfólios não por discursos, mas pelas restrições institucionais que moldarão o orçamento real do país a partir de 2027.

Por Guilherme Carter, Msc

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