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Guilherme Carter

O primeiro tempo de 2026: quando o comprador marginal da bolsa trocou de endereço

Publicado 14/07/2026 • 11:00 | Atualizado há 5 horas

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Guilherme Carter

Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV. Coordenador dos programas de pós-graduação da B7 Business School. Managing Director da DataBay, fintech de inteligência de dados para o mercado de capitais. Presença constante na mídia sobre economia e gestão de patrimônio.

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Balanço semestral do DataWatch, o monitor de mercado da Plataforma DataBay: a renda fixa captou R$ 127,2 bilhões, o investidor estrangeiro desfez 40% da posição acumulada até abril, o Ibovespa preservou cerca de um terço da alta que chegou a exibir no ano e a curva de juros devolveu parte do prêmio construído em maio. O registro do que os dados mostraram — e das variáveis que o segundo semestre coloca sob observação, do fluxo de capital externo às eleições de outubro. 

O primeiro semestre de 2026 pode ser resumido em três séries de dados que, lidas em conjunto, descrevem um único processo. A indústria de fundos direcionou R$ 127,2 bilhões líquidos para a renda fixa, enquanto retirava R$ 8,3 bilhões dos fundos de ações. Na Bolsa, o investidor estrangeiro acumulou R$ 56,5 bilhões em compras líquidas entre janeiro e abril e desfez R$ 22,7 bilhões nos dois meses seguintes. E a curva de juros futuros, que em maio negociava toda a estrutura entre 14,3% e 15,0%, encerrou a primeira semana de julho entre 14,0% e 14,5%. O processo comum às três séries é a redefinição de quem forma o preço marginal dos ativos brasileiros — e a que nível. 

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Fundos: a alocação seguiu o juro, não a narrativa 

A captação líquida da indústria conta uma história de concentração dupla. Concentração de classe: dos R$ 127,2 bilhões absorvidos pela renda fixa, R$ 101,6 bilhões — 80% do total — entraram no primeiro bimestre, quando a estrutura a termo já sinalizava a persistência do juro em patamar elevado. E concentração de direção: a renda fixa foi a única classe relevante com saldo semestral positivo. O resgate de R$ 9,4 bilhões registrado em maio, primeiro do ano, foi seguido de captação de R$ 9,0 bilhões em junho; a sequência é mais consistente com um evento pontual de liquidez do que com mudança na função de alocação do investidor, embora um dado mensal não permita afirmação categórica em nenhuma direção. 

Os fundos de ações desenharam trajetória simétrica à do índice: resgates no primeiro bimestre (R$ 8,0 bilhões), captação nos três meses de valorização (R$ 4,0 bilhões entre março e maio) e novo resgate em junho — R$ 4,3 bilhões, o maior do ano — quando a correção se consolidou. Os multimercados encerraram o semestre com resgate acumulado de R$ 3,3 bilhões; o dado de junho (R$ 474 milhões negativos), o menor da sequência, interrompeu a aceleração dos resgates sem revertê-la. 

Captação Líquida — Indústria de Fundos | 1º semestre de 2026 (em R$ milhões) 

Estratégia Jan Fev Mar Abr Mai Jun 1º sem. 
Ações -3.949 -4.030 1.394 1.143 1.456 -4.318 -8.305 
Cambial 253 -208 -129 712 100 -560 169 
Multimercado 12.820 -5.542 -2.142 -5.599 -2.389 -474 -3.326 
Renda Fixa 44.340 57.290 11.797 14.240 -9.434 8.962 127.196 

Fonte: DataWatch — Plataforma DataBay | Elaboração para a CNBC 

Bolsa: o fluxo soma zero; o preço, não 

A compra estrangeira desacelerou de forma monotônica — R$ 26,3 bilhões em janeiro, R$ 15,4 bilhões em fevereiro, R$ 11,7 bilhões em março, R$ 3,2 bilhões em abril — antes de inverter o sinal em maio (R$ 14,9 bilhões negativos) e moderar em junho (R$ 7,8 bilhões negativos). O espelho doméstico percorreu o caminho oposto: vendedor até abril, comprador desde maio, com a particularidade de que em junho todas as quatro categorias locais estiveram simultaneamente no lado comprador, configuração inédita no ano. A pessoa física encerrou o semestre com saldo positivo de R$ 3,0 bilhões. 

Sobre o preço, o registro é o que dimensiona o semestre. O Ibovespa chegou a acumular valorização próxima de 24% no pico de abril — o mês em que o saldo estrangeiro atingiu seu máximo — e encerrou junho com alta no ano de 2026 acumulada em torno de 8,25%, aproximadamente 13% abaixo do topo. A sequência temporal entre saldo externo máximo, inversão do fluxo e devolução de dois terços do ganho anual é consistente com a leitura de que o não residente operou como formador do preço marginal na alta e permaneceu nessa condição na baixa: a demanda doméstica absorveu a oferta externa, mas em níveis progressivamente inferiores. A desaceleração da venda estrangeira em junho reduziu a pressão sobre o preço de liquidação; se isso configura esgotamento do ajuste de posição ou intervalo dentro dele, somente as leituras de julho em diante poderão estabelecer. 

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Fluxo de Investimentos na Bolsa | 1º semestre de 2026 (em R$ milhões) 

Período Estrangeiro Institucional Pessoa Física Inst. Financeiras Outros 
Janeiro 26.314 -17.538 -3.571 -4.686 -518 
Fevereiro 15.396 -12.788 -2.735 1.649 -1.522 
Março 11.656 -9.949 277 -4.768 2.785 
Abril 3.179 -9.445 33 4.988 1.197 
Maio -14.910 13.329 5.821 -1.529 -2.711 
Junho -7.786 1.789 3.155 2.368 473 
1º semestre 33.848 -34.603 2.980 -1.978 -295 

Fonte: dados da Bolsa elaborados pela equipe DataBay | DataWatch — Plataforma DataBay 

Curva de juros: compressão de prêmio sem reconstrução de ciclo 

Entre a fotografia de maio e a de 9 de julho, a estrutura a termo fechou em todos os vértices: 20 pontos-base no curto prazo, 44 em janeiro de 2027, 74 em janeiro de 2028 — a maior variação da curva —, 61 em 2029, com magnitudes decrescentes até os 29 pontos-base do vértice de 2036. A distribuição do fechamento é informativa: a compressão concentrou-se na barriga de 2028–2029, exatamente os vértices onde a abertura de abril e maio havia sido mais intensa e que capturam o horizonte do próximo mandato presidencial. O prêmio retirado é, em boa medida, o prêmio que havia sido adicionado. 

O nível cedeu; o formato, não. A curva atual parte de 14,15% no curtíssimo prazo, atinge seu mínimo em torno de 14,01% entre outubro e novembro de 2026 e retoma inclinação positiva a partir daí, cruzando 14,17% em janeiro de 2028 e estabilizando na faixa de 14,4–14,5% ao longo da década seguinte. Em termos de precificação, isso corresponde a cerca de 15 pontos-base adicionais de flexibilização no horizonte de quatro meses, seguidos de estabilidade e recomposição gradual da taxa. A estrutura, portanto, distingue dois fenômenos que convém não confundir: houve compressão do prêmio de estresse construído durante o choque de abril e maio, e não houve reprecificação de um ciclo de afrouxamento monetário. Uma curva que estaciona em 14,4% no vértice de 2036 incorpora uma taxa terminal de equilíbrio — e o conjunto de premissas fiscais compatível com ela — que permanece essencialmente o mesmo de antes do alívio. 

Curva de Juros Futuros — DI | Curva atual (09/07/2026) vs. precificação de maio/2026 

Vértice Curva atual (%) Curva em mai/26 (%) Variação (bps) 
Curto prazo (jul/26) 14,15 14,35 -20 
Jan/2027 14,04 14,48 -44 
Jan/2028 14,17 14,91 -74 
Jan/2029 14,36 14,97 -61 
Jan/2030 14,45 14,92 -48 
Jan/2032 14,48 14,82 -35 
Jan/2036 14,40 14,69 -29 

Fonte: DataWatch — Plataforma DataBay | Elaboração para a CNBC 

O segundo tempo: as variáveis sob observação 

Encerrado o balanço, o calendário do segundo semestre define por si a agenda de monitoramento — e cada item dela tem um registro observável nas séries acompanhadas por esta coluna. O primeiro é o fluxo estrangeiro de julho: a distinção entre esgotamento do ajuste e pausa tática, que os dados de junho deixaram em aberto, será estabelecida pela combinação entre o sinal do fluxo e o nível em que o índice passar a negociar. O segundo é a sequência de decisões do Copom até dezembro, cuja leitura relevante não estará no comunicado, mas na reação do trecho curto da curva — hoje precificando flexibilização residual de aproximadamente 15 pontos-base — a cada reunião. 

O terceiro item domina os demais em potencial de reprecificação: as eleições gerais de outubro, que renovarão Executivo e Congresso e definirão os responsáveis pelo quadro fiscal do ciclo 2027–2030. A barriga da curva de 2028–2029 — os vértices que mais abriram no estresse de maio e mais fecharam no alívio de junho — é o instrumento em que o mercado registra, em tempo real, sua avaliação sobre esse horizonte; a tramitação do orçamento de 2027 no Congresso, no último trimestre, oferecerá o primeiro teste objetivo das plataformas em disputa. Completam o radar as variáveis externas que condicionaram todo o semestre: o desencadear da Guerra EUA e Irã e a trajetória da política monetária americana, que determina o diferencial de juros relevante para a conta de capitais. Nenhuma dessas variáveis comporta previsão responsável a esta altura; todas comportam medição. 

É precisamente essa a função de um monitor. As três séries que estruturam este balanço — captação da indústria de fundos, fluxo por categoria de investidor na Bolsa e estrutura a termo do DI — seguem sendo atualizadas e cruzadas no DataWatch, a plataforma de inteligência de mercado da DataBay, de onde esta coluna extrai seus dados. Em um semestre que será decidido pela velocidade com que fluxo, curva e calendário eleitoral interagirem, a diferença entre acompanhar o mercado e ser surpreendido por ele tende a se resumir à qualidade e à tempestividade da medição. O segundo tempo começou; os placares parciais estarão no monitor. 

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