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Guilherme Carter

O preço de empreender no Brasil, medido em juro 

Publicado 27/07/2026 • 13:00 | Atualizado há 5 horas

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Guilherme Carter

Mestre pela FGV-EESP. Professor de Finanças na FGV. Coordenador dos programas de pós-graduação da B7 Business School. Managing Director da DataBay, fintech de inteligência de dados para o mercado de capitais. Presença constante na mídia sobre economia e gestão de patrimônio.

Imagem ilustrativa

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Quase 14 mil emissões de debêntures, CRIs e CRAs mostram quanto custa o dinheiro para as empresas mais preparadas do país — e esse é só o piso da conta. 

Por Guilherme Carter 

Pergunte a qualquer empresário brasileiro qual é o sócio mais caro do negócio dele e a resposta, quase sempre, não será um nome — será uma taxa (e imposto claro, mas trataremos isso em outro artigo). Com a Selic a 14,25% e a inflação projetada acima de 5%, o Brasil opera hoje com um dos juros reais mais altos do planeta. Mas a estatística agregada esconde a parte mais dura da história: quanto isso custa, na prática, para quem produz. Fui buscar a resposta onde ela está escrita em contrato — no registro de 13.768 emissões de debêntures, CRIs e CRAs extraído da Plataforma DataBay, cobrindo o que as empresas brasileiras efetivamente pagaram para se financiar no mercado de capitais desde 2019. 

O resultado, resumido em uma linha: a empresa brasileira mais bem preparada, aquela que tem porte, balanço auditado e acesso ao mercado, paga hoje entre 8% e 11% ao ano acima da inflação para tomar dívida. E ela é a ponta privilegiada da fila. 

O que pagam as empresas com acesso ao mercado 

Os números de 2026 formam uma escada de risco nítida. As debêntures — a dívida corporativa clássica, emitida em geral por companhias grandes e escrutinadas — saem, na mediana, a IPCA + 8,3% ao ano. Os CRAs, lastreados em recebíveis do agronegócio, saem a IPCA + 8,7%. E os CRIs, que embalam créditos imobiliários e carregam o risco de projetos e estruturas, saem a IPCA + 11,3% — juro real de dois dígitos, pago por operações registradas, com lastro e com investidor do outro lado. 

Nas emissões atreladas ao CDI, a mesma hierarquia: debêntures pagam, na mediana, CDI mais 1,9 ponto — o que, com o CDI atual, significa um custo nominal na casa dos 16% ao ano —, enquanto CRIs e CRAs saem a CDI mais 4, ou algo em torno de 18% nominais. São os melhores preços que o setor produtivo brasileiro consegue. Vale repetir: os melhores, com exceção dos privilegiados pelos cofres públicos. 

Uma década ficando mais caro 

O gráfico acima conta a segunda parte da história: o custo real de cada uma das três classes só andou em uma direção. A debênture mediana pagava IPCA + 5,2% em 2019; paga 8,3% hoje. O CRA saiu de 4,3% para 8,7% — praticamente dobrou. O CRI foi de 7,3% para 11,3%, subindo em todos os anos da série, sem uma única pausa. Não houve choque, colapso ou crise aguda que explique o movimento: houve um encarecimento contínuo, ano após ano, atravessando pandemia, eleição, ciclo de alta e início de ciclo de corte da Selic. Para o empresário, o recado é o que importa: o dinheiro não ficou caro em 2026 — ele vem ficando mais caro há sete anos, e o patamar atual é o teto da série. 

Faça a conta que qualquer conselho de administração faz. Um projeto financiado a IPCA + 8% precisa gerar retorno real acima disso só para pagar o credor — antes de remunerar o risco do negócio, o capital do sócio e o próprio trabalho de empreender. A IPCA + 11%, a régua exclui quase tudo que não seja excepcional. Quando o custo de capital supera o retorno da maioria dos projetos da economia real, o efeito não aparece de uma vez: aparece em investimento adiado, fábrica não ampliada e contratação que não acontece. É o imposto silencioso do juro. 

E esse é o preço de quem passou no vestibular 

Aqui entra a distinção que a estatística média não mostra. Acessar o mercado de capitais não é para qualquer CNPJ: exige demonstrações auditadas, estrutura de governança, ratings, assessores, custos fixos de emissão que só fazem sentido a partir de dezenas de milhões de reais. Em teoria — e, na maior parte das vezes, na prática —, quem emite uma debênture ou estrutura um CRA já passou por um filtro de diligência que a imensa maioria das empresas brasileiras não passa. Os 8% a 11% reais dos gráficos são, portanto, o preço do melhor aluno da turma. 

Para todo o resto, sobra o balcão do banco. E o balcão cobra outra tabela. Segundo dados da Plataforma DataBay, a taxa média do capital de giro com prazo acima de um ano — a modalidade bilateral mais comparável a uma debênture — estava em 23% ao ano em maio de 2026. Considerando o conjunto do crédito livre e direcionado, a taxa média das novas contratações no país rodava perto de 33% ao ano no início do ano. Ou seja: a empresa média, sem acesso ao mercado, paga de 7 a 15 pontos percentuais a mais ao ano do que a empresa diligente paga na emissão — pela mesma finalidade, o mesmo capital de giro, o mesmo investimento. A distância entre ter e não ter acesso ao mercado de capitais virou, no Brasil de 2026, uma das maiores vantagens competitivas que uma empresa pode construir. 

A conclusão que o empresário já conhece 

Os dados apenas confirmam, com 13.768 contratos, o que qualquer dono de negócio sente no caixa: no Brasil, o capital é o insumo mais caro da produção. A empresa exemplar paga juro real de país em crise; a empresa comum paga juro nominal que, em boa parte do mundo, seria manchete. E é aqui que a leitura precisa ser honesta sobre onde está o problema. Não é falta de lição de casa do setor privado: as emissoras desta base já fizeram tudo o que se pede a uma empresa — auditoria, governança, rating, escala — e mesmo assim pagam de 8% a 11% ao ano acima da inflação. Quando o melhor aluno da turma paga juro de reprovado, o defeito não está no aluno. Está no professor, aquele que conduz. 

O juro estrutural brasileiro é, no fundo, o preço do risco fiscal. O credor que empresta para a melhor empresa do país cobra caro porque, antes de precificar a companhia, precifica o soberano — a trajetória da dívida pública, a rigidez do orçamento, a incerteza sobre as regras de amanhã. Nenhuma quantidade de diligência corporativa compensa esse prêmio, porque ele não nasce dentro da empresa: é herdado por ela. A conclusão que estes 13.768 contratos impõem, portanto, não é uma agenda para o empresário — é uma agenda para o Estado. Reformas estruturais que devolvam credibilidade à trajetória fiscal, disciplinem o gasto obrigatório e reduzam a incerteza regulatória são o único caminho capaz de derrubar o piso do juro real para todos os andares da economia, da Debenture ao capital de giro do balcão. Até que isso aconteça, o país seguirá cobrando de quem produz um pedágio que nenhuma governança privada consegue negociar — e cada ponto de juro estrutural a mais seguirá se convertendo, silenciosamente, em fábrica não ampliada, investimento adiado e emprego que não se cria. 


Notas de método: base de 13.768 emissões de debêntures, CRIs e CRAs registradas na Plataforma DataBay (extração de 24/07/2026), das quais 12.717 entre 2019 e 2026 (5.628 CRIs, 5.342 debêntures e 1.747 CRAs). Juro real: mediana anual das emissões indexadas ao IPCA (4.365 observações), excluídos papéis com taxa registrada abaixo de 4% reais — típica de emissões incentivadas ou precificadas como spread —, para não distorcer a comparação de custo pleno. Spreads sobre CDI: mediana das emissões indexadas a DI em 2026. Taxas bancárias bilaterais: Banco Central do Brasil, série SGS 20723 (capital de giro PJ acima de 365 dias, 23,05% a.a. em maio/2026) e Estatísticas Monetárias e de Crédito (taxa média das novas contratações, jan/2026). Elaboração do autor. 

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