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Vida nas organizações Joaquim Santini

A IA já expandiu a capacidade humana. Agora ela começa a expor os limites das organizações

Publicado 15/05/2026 • 09:49 | Atualizado há 48 minutos

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

Arte - Times Brasil

Para quem aloca capital, é o tipo de assimetria que vira tese de investimento. No caso brasileiro, ainda está fora do preço.

O Work Trend Index 2026 da Microsoft coloca o capital humano brasileiro à frente da média global em sofisticação no uso de inteligência artificial. Para investidores, é um sinal de mercado que merece atenção - e cautela.

Enquanto o mercado discute se a próxima rodada da bolha de IA vai ou não estourar, um relatório publicado em maio pela Microsoft entrega um dado que reposiciona o Brasil no mapa global da economia da inteligência: 27% dos profissionais brasileiros que já usam IA no trabalho se enquadram como Frontier Professionals — o grupo que opera com agentes em fluxos complexos, redesenha processos e tira da IA produtividade de verdade. Isso é mais que os 17% dos Estados Unidos, mais que os 16% do Reino Unido, mais que o dobro dos 13% do Japão e mais que três vezes os 8% da França.

Para quem aloca capital, é o tipo de assimetria que vira tese de investimento. No caso brasileiro, ainda está fora do preço.

A escalada de agentes: 15 vezes em um ano

O 2026 Work Trend Index é o maior levantamento global sobre IA no trabalho. Combina trilhões de sinais anonimizados do ecossistema Microsoft 365, análise de mais de 100 mil interações em chats do Copilot e uma pesquisa Edelman Data x Intelligence com 20 mil trabalhadores em dez mercados. Os números de infraestrutura dão a dimensão do que está acontecendo por baixo do capô: o número de agentes ativos no ecossistema Microsoft 365 cresceu 15 vezes em relação ao ano anterior. Em grandes empresas, o salto chega a 18 vezes.

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Esse não é um crescimento de adoção tecnológica. É um redesenho silencioso da função de produção. Quase metade — 49% — de todas as conversas registradas no Copilot envolvem trabalho cognitivo de alto valor: análise, resolução de problemas, avaliação, decisão e pensamento criativo. Tomada de decisão e resolução de problemas, sozinhas, respondem por 28% das interações. Em termos econômicos, o que a IA está fazendo dentro das empresas em 2026 não é tirar tarefa repetitiva do humano. É deslocar o output cognitivo de alto valor para um custo marginal próximo de zero.

Setores: software acelera, indústria escala

A geografia setorial da adoção tem implicação direta para investidores. Em software e tecnologia, a adoção é a mais ampla: quase uma em cada cinco empresas que usam agentes está nesse setor. Em manufatura, menos empresas adotam, mas as que adotam o fazem em escala muito maior dentro da operação. Em outras palavras: a tecnologia adota em largura, a indústria adota em profundidade. O comportamento individual, curiosamente, é homogêneo — usuários de todos os setores rodam entre 57 e 66 prompts. A diferença real está em onde e como as organizações integram agentes ao processo produtivo. É lá que aparece — ou não — o ganho de margem.

Para quem cobre mercado, isso significa que a análise tradicional “quem está usando IA?” virou pouco informativa. A pergunta certa passou a ser: a empresa em questão está usando IA para fazer o mesmo trabalho mais barato, ou para fazer um trabalho novo que antes era inviável? O relatório registra que 58% dos usuários globais dizem produzir trabalhos que não conseguiriam fazer um ano atrás. No Brasil, esse número sobe para 72%. Entre os Frontier Professionals brasileiros, chega a 82%.

O mercado de trabalho já reagiu — só não em todo lugar

Dados do LinkedIn citados pelo estudo mostram que empregadores criaram pelo menos 1,3 milhão de vagas relacionadas a IA nos últimos dois anos — anotadores de dados, engenheiros de IA, engenheiros de implantação, funções que simplesmente não existiam cinco anos atrás. Para um país com a estrutura demográfica brasileira, com mão de obra jovem e digitalmente fluente, isso é, em tese, um vetor positivo. Mas a tese exige uma ressalva fundamental: o estudo mostra que o impacto real da IA depende muito menos do trabalhador e muito mais da empresa que o emprega.

O dado mais importante do relatório para quem analisa produtividade não é tecnológico. É organizacional. Ao testar 29 variáveis contra resultados reais reportados por funcionários, os pesquisadores descobriram que os fatores organizacionais — cultura, gestores, práticas de talento — explicam 67% do impacto da IA. Os fatores individuais explicam apenas 32%. O preditor isolado mais forte é a cultura organizacional de IA, duas vezes e meia mais potente que o melhor fator individual.

Em linguagem de tese de investimento: a vantagem competitiva da próxima década não estará no balanço como software. Estará como governança, cultura e desenho de processo. Coisa que dificilmente aparece em uma linha de receita, mas que define a velocidade com que a receita cresce.

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Owned Intelligence: o moat que ninguém está medindo

O relatório, em parceria com Karim Lakhani, professor da Harvard Business School, propõe um conceito que merece entrar no vocabulário de qualquer analista: Owned Intelligence. É a inteligência institucional acumulada pela empresa a partir das interações entre humanos e

agentes — fluxos documentados, padrões de qualidade, regras de transição, aprendizados codificados. Cada ciclo torna esse ativo mais valioso e mais difícil de replicar pela concorrência. Os Frontier Professionals são significativamente mais propensos a reportar que esses fluxos e padrões estão documentados no nível da equipe, da função e da organização inteira.

É, em essência, um moat — análogo ao que os efeitos de rede foram para a economia de plataforma. Só que invisível para o analista que olha apenas o múltiplo. Está no processo, não no produto. Quem constrói Owned Intelligence agora chega em 2028 com vantagem estrutural difícil de neutralizar.

O risco brasileiro

O retrato do Brasil no relatório é de contraste: profissional avançado, consciente dos limites da IA — 93% dos brasileiros dizem tratar o output como ponto de partida, contra 86% da média global — e ávido por mais. Mas, no plano organizacional, só 38% dos usuários brasileiros dizem que a liderança está clara e alinhada sobre IA. É o melhor índice entre os dez mercados, mas ainda significa que quase dois terços das empresas brasileiras navegam sem direção definida.

A tese é dupla. De um lado, o Brasil tem hoje um excesso de capital humano em IA em relação à demanda doméstica organizada por esse capital — uma arbitragem que pode virar exportação de talento ou rentabilidade extraordinária para as poucas empresas locais que capturarem esse excedente. De outro, se o tecido corporativo não acelerar a absorção, o país corre o risco de produzir uma geração de profissionais cognitivamente expandidos presa em estruturas que premiam conformidade. Essa frustração tem custo macroeconômico — em produtividade não realizada e em fuga de capital humano.

Para quem alocar capital nos próximos doze meses, a métrica relevante não é mais quem está usando IA. É quem está aprendendo com ela.

A próxima rodada de retorno extraordinário em IA não virá de novos modelos. Virá das empresas que descobrirem, primeiro, que o ativo mais subprecificado do balanço delas é a maneira como aprendem.

Fonte: 2026 Work Trend Index Annual Report — “Agents, human agency, and the opportunity for every organization”. Microsoft, maio de 2026.

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