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Raphael Coraccini

O brasileiro merece um pedaço do PIB?

Publicado 07/10/2026 • 20:00 | Atualizado há 7 horas

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Raphael Coraccini

Analista e repórter de mercado, economia e negócios, Raphael Coraccini é jornalista, especializado em jornalismo econômico e mercado financeiro, mestre e pesquisador em Ciência Social com foco em Ciência Política. Atua na cobertura de autoridades monetárias, autoridades econômicas, resultados corporativos, M&A, mercado de capitais, impostos e tarifas, regulação e outros assuntos relacionados a economia e política.

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A valorização do salário mínimo é uma das políticas públicas de distribuição de renda mais importantes das últimas décadas. Foi ela, mais que o bolsa família ou qualquer programa de assistência social, que permitiu o avanço da renda do brasileiro ao longo dos anos 2000 e parte dos anos 2010.

Manter a valorização do salário mínimo significa dar uma parte do PIB ao conjunto dos brasileiros. Isso porque a política de valorização do SM contempla a correção pela inflação mais o crescimento da economia no período. A pergunta que fica é: o conjunto dos brasileiros merece ter acesso a esse dinheiro?

O PIB é o conjunto de bens e serviços vendidos ou comprados dentro da economia, produzidos e comercializados por cada pessoa economicamente ativa durante o período. A política atual implica que a diferença de um ano para o outro (crescimento econômico) seja convertida em remuneração das pessoas que fizeram parte desse processo. Vale lembrar que o SM também é utilizado para calcular os salários de forma geral na economia.

Além disso, implica também repassar parte do crescimento econômico para outras gerações anteriores — que contribuíram para o desenvolvimento das forças produtivas — por meio da valorização das aposentadorias. Lembrando que o sistema de previdência social no Brasil é do tipo solidário. Os contribuintes de agora pagam a aposentadoria dos que já não estão na ativa, assim como estes pagaram para a geração anterior.

Nessa dinâmica, de uma sociedade solidária, a alta do PIB significa também o aumento proporcional ao crescimento da economia dos benefícios para quem não consegue participar economicamente por motivo, por exemplo, de saúde via aposentadoria por invalidez.

Quando houve a interrupção dessa política de valorização do salário, entre 2017 e 2022, o jogo virou. Houve o aumento da pobreza, inclusive o retorno do Brasil ao mapa da fome da ONU, do qual o país havia saído em 2014, mas para o qual voltou em 2022. Em julho de 2025, o país saiu novamente da lista de países com problemas sérios de falta de acesso a alimento.

A valorização do salário mínimo foi uma das principais medidas para o combate à pobreza absoluta, em determinada medida de maneira mais intensa que programas sociais como o bolsa família. E essa saída-entrada-saída do país no mapa da ONU mostra isso, porque os programas sociais continuaram, mas não foram suficientes para salvar a população da escassez mais grave enquanto não havia valorização do SM.

Diante de todas essas evidências, a pergunta é urgente: deve o Brasil repassar parte do seu crescimento para seu povo? Ela pode vir a ser bastante discutida nos próximos anos a depender das propostas de contenção de gastos que estarão na mesa a partir de 2027, independentemente de quem vença a eleição.

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