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TDAH e dinheiro: por que você sabe o que fazer, mas não consegue cumprir

Publicado 02/09/2026 • 13:15 | Atualizado há 5 horas

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Brazil Health

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Uma fatura vence, o dinheiro está na conta e, ainda assim, o pagamento não acontece. Em outro momento, uma pessoa compra em poucos minutos algo que não estava previsto, embora saiba que precisa economizar. No fim do mês, a promessa de “ter mais controle” volta a ser feita, e o ciclo recomeça.

Esses episódios são frequentemente tratados como falta de disciplina. Em parte dos adultos com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), porém, o problema pode estar em uma etapa anterior: iniciar uma tarefa, mantê-la ativa na memória, avaliar suas consequências e interromper uma ação que oferece uma recompensa imediata.

A distância entre hoje e depois

A relação entre TDAH e dinheiro não é automática nem igual para todos. Ansiedade, depressão, estresse, hábitos de consumo, publicidade, renda e instabilidade profissional também influenciam as decisões financeiras. Uma compra impulsiva pode estar relacionada à impulsividade; em outro caso, pode funcionar como uma tentativa de aliviar uma emoção difícil.

O dinheiro é administrado no presente, mas suas consequências costumam aparecer no futuro. A compra acontece agora; a fatura chega depois. O prazer de adquirir um produto é imediato; a reserva para uma emergência depende de uma recompensa que ainda não existe.

Essa diferença é estudada pela economia comportamental por meio do conceito de desconto temporal: recompensas próximas tendem a parecer mais promissoras do que benefícios maiores, mais distantes. Em pessoas com TDAH, a dificuldade para adiar gratificações pode contribuir para decisões financeiras.

Quando a organização falha

Pagar uma conta parece uma ação única, mas envolve várias etapas: lembrar o vencimento, localizar a cobrança, acessar o aplicativo, consultar o valor e concluir a operação. Para quem apresenta dificuldades nas funções executivas, qualquer interrupção pode fazer com que a tarefa seja adiada.

O mesmo ocorre com a poupança. Saber que é importante economizar dinheiro não garante que a transferência será feita todos os meses. Uma pessoa pode ter uma meta clara, mas não consegue iniciar ou sustentar a sequência de ações necessárias para realizá-la.

Adultos com TDAH podem apresentar dificuldades em aspectos como acompanhar contas, estabelecer metas de longo prazo e avaliar determinadas decisões financeiras, áreas que podem exigir suporte específico, mas que não indicam incapacidade geral para lidar com dinheiro.

Compra impulsiva sob a força da emoção

Nem todo consumo impulsivo nasce do mesmo processo. Às vezes, uma pessoa esquece de avaliar o impacto da compra. Em outras situações, comprar produz um alívio temporário para tédio, ansiedade, frustração, tristeza ou sobrecarga.

Nesse segundo caso, o produto é apenas parte da decisão. A pessoa também busca modificar rapidamente seu próprio estado emocional. O alívio pode ser seguido por queixas, culpa e preocupação com a fatura, mas o desconforto posterior não impede necessariamente que o comportamento se repita.

A distinção muda o tipo de estratégia. Lembretes e pagamentos automáticos podem ser úteis quando o problema principal é o esquecimento. Um período de espera pode ser o ideal quando a dificuldade está na interrupção ou no impulso. Quando o consumo parece associado ao sofrimento emocional, apenas reduzir o limite do cartão pode conter o prejuízo, mas não necessariamente interromper o ciclo.

Antes de perguntar apenas “como gastar menos?”, pode ser mais produtivo observar o que acontece antes da compra: houve tédio, ansiedade, pressa, frustração, cansaço ou uma oferta planejada para provocar uma resposta imediata?

O contexto também pesa

O risco financeiro não depende somente dos sintomas. Renda instável, desemprego, ausência de reservas, conflitos familiares, facilidade de acesso ao crédito e falta de informação podem ampliar o impacto de uma decisão ruim. Uma pessoa com renda estável talvez consiga compensar esquecimentos com automatizações e alertas. Outra, com orçamento apertado, pode não ter margem para absorver uma multa, uma compra não planejada ou o pagamento mínimo do cartão. Também é importante não transformar dificuldade financeira em diagnóstico. O TDAH exige avaliação clínica, história de sintomas desde o desenvolvimento e impacto em diferentes áreas da vida. Da mesma forma, ter o diagnóstico não significa ser necessariamente impulsivo ou desorganizado com dinheiro.

Estratégias que controlam decisões

As medidas mais úteis costumam criar apoios externos para tarefas que não podem depender apenas de memória e autocontrole. Automatizar despesas fixas, programar alertas, separar o valor das contas essenciais e retirar cartões salvos de aplicativos são exemplos. Para compras não essenciais, uma regra de espera cria distância entre desejo e decisão. Anotar o item, registrar o preço e retomar a compra depois de algumas horas ou dias permite avaliar se o gasto continua fazendo sentido.

O controle também pode ser simplificado. Ao acompanhar planilhas, a pessoa pode observar quanto recebe, quanto já está comprometido com despesas fixas, quanto gastou no cartão e quanto poderá utilizar até o próximo pagamento.

A estratégia precisa ser possível de manter. Um sistema complexo, mesmo que perfeito no papel, tende a falhar se exigir mais organização do que uma pessoa consegue sustentar no cotidiano.

Quando procurar ajuda

Dificuldades persistentes com contas, gastos, dívidas e planejamento merecem atenção quando comprometem a rotina, o trabalho, os relacionamentos ou a saúde emocional.

A avaliação neuropsicológica pode investigar atenção, memória de trabalho, planejamento, flexibilidade, tomada de decisão e controle dos impulsos, sempre em conjunto com a história e as condições atuais da pessoa. O objetivo não é apenas confirmar ou descartar o TDAH, mas compreender como o funcionamento mental e emocional participa do padrão financeiro.

Antes de se culpar por uma compra ou por uma conta esquecida, vale perguntar o que estava acontecendo naquele momento: houve esquecimento, esforço para planejar, impulso ou uma emoção intensa? A resposta ajuda a escolher uma intervenção compatível com o problema.

Dependendo de cada caso, um tratamento completo pode reunir acompanhamento médico, psicoterapia, estratégias de organização e, quando necessário, um olhar especializado para a relação com o dinheiro, seja de psicólogo financeiro ou de educador financeiro. Afinal, as finanças fazem parte da vida de qualquer pessoa e podem influenciar escolhas, autonomia, relacionamentos e até a saúde mental.

Cuidar da relação com o dinheiro é também cuidar da forma como ocupamos nosso lugar no mundo. Com TDAH, outro transtorno do neurodesenvolvimento ou sem qualquer diagnóstico, a saúde financeira atravessa escolhas, autonomia, relacionamentos e oportunidades. Afinal, aprender a lidar com o dinheiro não diz respeito apenas ao que se tem na conta, mas à capacidade de construir a própria vida e participar da sociedade com mais segurança, liberdade e consciência.

Luanda Rosa - CRP 06/106954

Psicóloga e neuropsicóloga, especialista em autismo na adolescência e na vida adulta

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