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Bill Gates ou Jensen Huang: quem está certo sobre o futuro do trabalho?

Publicado 02/09/2026 • 09:00 | Atualizado há 2 horas

Foto de Joaquim Santini

Joaquim Santini

Pesquisador e palestrante internacional, diplomado em Psicologia Clínica Organizacional e mestre em Consulting and Coaching for Change no Insead ( european business school, na França), graduado e mestre em Engenharia Mecânica pela Unicamp. Fundador da EXO - Excelência Organizacional.

A inteligência artificial eliminará milhões de empregos ou criará centenas de milhares de novas oportunidades?

Em menos de uma semana, dois protagonistas da revolução tecnológica apresentaram respostas aparentemente opostas.

Em 26 de agosto de 2026, Bill Gates publicou no Gates Notes o artigo “A turbulenta era da IA chegou. As escolhas que fazemos agora são críticas”. Nele, alertou que a inteligência artificial poderá substituir parte da cognição humana, eliminar permanentemente muitos empregos e provocar uma das transições sociais, políticas e econômicas mais turbulentas da história.

Poucos dias depois, em 1º de setembro de 2026, a revista Fortune publicou uma reportagem de Preston Fore apresentando uma visão mais otimista de Jensen Huang, CEO da Nvidia. Para Huang, a inteligência artificial criará mais empregos do que eliminará. Fábricas de chips, data centers, usinas de energia e sistemas de refrigeração já estariam abrindo milhares de oportunidades para eletricistas, técnicos, encanadores, carpinteiros e outros profissionais especializados.

Afinal, quem está certo?

Provavelmente, os dois — mas cada um observa uma dimensão diferente da transformação.

Huang enxerga a infraestrutura física necessária para sustentar a inteligência artificial. Gates olha para os efeitos sociais e econômicos que surgirão quando essa tecnologia puder executar, com autonomia e baixo custo, uma parcela crescente do trabalho intelectual.

Uma visão não invalida a outra. A tensão entre elas revela a dimensão da mudança de época que estamos atravessando.

A inteligência artificial também precisa de chão

A inteligência artificial costuma ser representada como algo abstrato, que vive na nuvem. Mas a nuvem precisa de chão.

Por trás de cada modelo existem chips, data centers, energia, sistemas de refrigeração, construção civil, manutenção e milhares de profissionais especializados.

A reportagem da Fortune mostra a dimensão desse movimento. Há um ano, aproximadamente 10 mil trabalhadores atuavam nas obras da QTS, empresa de

data centers controlada pela Blackstone. Até o final de 2026, esse número poderá chegar a 40 mil.

Depois de décadas em que o diploma universitário e o trabalho administrativo foram tratados como os principais caminhos de ascensão, os ofícios técnicos podem recuperar enorme relevância econômica e social.

Há uma ironia poderosa nisso: uma tecnologia capaz de automatizar parte do pensamento está valorizando pessoas que sabem construir, instalar, reparar e manter o mundo físico funcionando.

Huang está certo ao afirmar que a expansão da inteligência artificial criará uma grande onda de empregos nas áreas de energia, infraestrutura, construção e manutenção.

Mas isso não resolve o problema levantado por Gates.

Entre os empregos que desaparecem e os que surgem

A criação de novos empregos pela inteligência artificial não garante que as pessoas que perderem suas funções estejam preparadas para ocupar as novas oportunidades.

Esse é, para mim, o ponto central da discussão.

As vagas eliminadas e os novos empregos não surgirão necessariamente nos mesmos lugares, no mesmo momento ou exigindo as mesmas competências.

Um profissional administrativo de 55 anos, cuja atividade foi automatizada, não se transforma automaticamente em eletricista de um data center. Entre o desaparecimento de uma atividade e o surgimento de outra existe um espaço frequentemente ignorado: o da transição humana.

Podemos chegar ao futuro com um saldo positivo de empregos e, ainda assim, deixar milhões de pessoas sem condições reais de participar das novas oportunidades. A economia pode ganhar vagas enquanto indivíduos e famílias perdem estabilidade, identidade e perspectiva.

Como alerta Gates, não estamos apenas diante de uma tecnologia que amplia a força física ou acelera tarefas; estamos criando sistemas capazes de executar atividades intelectuais antes reservadas às pessoas.

Além disso, a IA não precisa esperar a construção de uma fábrica para entrar nas empresas. Ela já funciona nos equipamentos que utilizamos, conversa em linguagem natural e aprende com os dados e processos existentes. Sua velocidade de difusão será muito maior do que a das revoluções tecnológicas anteriores.

Por isso, não basta contar quantos empregos serão criados e quantos poderão desaparecer. Precisamos saber quem perderá o trabalho, quem terá acesso às novas oportunidades e que preparação será oferecida.

É nesse intervalo que a desigualdade poderá crescer.

A arquitetura invisível da transformação

O trabalho não é apenas fonte de renda. É também identidade, dignidade, pertencimento e reconhecimento social.

As empresas anunciam programas de inteligência artificial como grandes iniciativas de produtividade. Muitos profissionais, porém, escutam outra mensagem: “Talvez eu não seja mais necessário”.

Os líderes pedem que as equipes adotem a IA, mas raramente explicam quais funções serão transformadas, quais poderão desaparecer e o que será feito com os ganhos de produtividade.

Forma-se um pacto silencioso: a organização apresenta a tecnologia como oportunidade; os funcionários demonstram adesão, mas passam a utilizá-la com medo, desconfiança e autoproteção.

Essa é a arquitetura invisível da transformação.

Uma empresa pode ter excelentes ferramentas, grandes investimentos e especialistas competentes. Ainda assim, poderá fracassar se ignorar os medos, as disputas de poder e as ameaças à identidade profissional provocadas pela tecnologia.

Não existe transformação tecnológica sustentável sem uma transição humana minimamente confiável.

O que deve continuar humano?

Bill Gates apresenta uma ideia provocadora: determinadas atividades deveriam ser consideradas “reservadas aos seres humanos”.

Não porque a máquina seja incapaz de realizá-las, mas porque existem coisas que talvez não devêssemos eliminar em nome da eficiência.

Gates cita os profissionais que cuidaram de seu pai nos estágios finais do Alzheimer. Eles compreendiam suas necessidades mesmo quando ele já não conseguia expressá-las. Havia naquele cuidado algo insubstituivelmente humano.

Essa reflexão precisa entrar na agenda estratégica das organizações.

Se um algoritmo pode informar uma pessoa de que ela possui uma doença incurável, isso significa que deveria fazê-lo? Se um sistema consegue selecionar funcionários para demissão, devemos permitir que tome essa decisão sozinho?

O fato de a tecnologia ser capaz de fazer alguma coisa não significa que devamos permitir que ela faça.

A responsabilidade pertence ao C-Level

A inteligência artificial redistribuirá tarefas, conhecimento, autoridade, renda e poder. Sua adoção, portanto, não é apenas uma decisão tecnológica. É uma decisão sobre o futuro da própria organização.

O C-Level precisará definir o que será feito com o tempo liberado pela tecnologia, como os ganhos de produtividade serão distribuídos, quais profissionais serão preparados para novas funções e quais decisões permanecerão sob responsabilidade humana.

Sem respostas claras, a IA poderá aumentar a produtividade e, simultaneamente, destruir confiança, pertencimento e capacidade de cooperação.

Não se trata de proteger indefinidamente todas as funções. Trata-se de não transformar pessoas em efeitos colaterais de decisões tomadas exclusivamente em nome da eficiência.

Jensen Huang está certo: a inteligência artificial criará infraestrutura e novas oportunidades de trabalho.

Bill Gates também está certo: isso não impedirá o desaparecimento de muitas funções nem garantirá que as pessoas afetadas participem dessas oportunidades.

A IA criará empregos e eliminará empregos. A verdadeira questão é se teremos capacidade política, empresarial e social para conduzir a transição entre uns e outros.

A inteligência artificial poderá produzir uma prosperidade extraordinária. Mas prosperidade tecnológica não significa, por si só, prosperidade humana.

Entre o futuro imaginado por Jensen Huang e o alerta de Bill Gates existe uma responsabilidade que não pertence às máquinas.

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