Invasão de US$ 6,3 bilhões na Binance pode elevar o valor atribuído a empresas que protegem e armazenam ativos digitais.
Richard Teng afirmou à CNBC que a Binance já recompôs 98% dos US$ 6,34 bilhões em ativos afetados.
Analistas veem possível avanço de custodiantes independentes e maior separação entre negociação e guarda de criptoativos.
Foto: Getty Images
O ataque hacker de US$ 6,3 bilhões (R$ 34,65 bilhões) à Binance pode acelerar uma mudança na forma como investidores avaliam empresas de criptomoedas, atribuindo maior valor a prestadores de serviços de custódia e à infraestrutura necessária para armazenar e proteger ativos digitais com segurança.
Grande parte da evolução do setor de criptomoedas neste ano envolveu empresas reduzindo sua dependência dos volumes de negociação e das taxas sobre transações, para se concentrar na construção da infraestrutura que conecta os ativos digitais às finanças tradicionais. A invasão da última quinta-feira (29) acrescenta uma nova dimensão a esse movimento, colocando em maior evidência a segurança cibernética, a custódia, a conformidade regulatória e a resiliência dos balanços.
É importante destacar que a invasão à Binance não representou uma condenação das criptomoedas em si, nem um caso de fraude liderada pela administração, como ocorreu com a FTX no fim de 2022. Em vez disso, a direção da Binance agiu rapidamente para conter as consequências, proteger os clientes e comprometer recursos próprios da corretora para cobrir as perdas.
Nesta terça-feira (3), o CEO da Binance, Richard Teng, disse ao programa “Squawk on the Street”, da CNBC, que a empresa já recompôs 98% dos US$ 6,34 bilhões (R$ 34,87 bilhões) em ativos afetados e ainda está adquirindo os ativos restantes, de menor liquidez.
A resposta da administração, juntamente com iniciativas de outras empresas do setor para reforçar a confiança, ajudou a impedir que uma falha de segurança se transformasse em uma crise mais ampla de credibilidade. Tether, Circle, Ripple e outras companhias agiram rapidamente para congelar ou restringir o acesso a cerca de US$ 3 bilhões (R$ 16,5 bilhões) em ativos roubados; a Coinbase bloqueou transferências para carteiras comprometidas e ofereceu assistência direta à Binance.
O ataque pode até ajudar a moldar a próxima fase dos investimentos em infraestrutura cripto. Os novos vencedores talvez não sejam apenas os negócios com mais usuários, maior volume ou mais ativos sob custódia, mas também aqueles capazes de demonstrar que conseguem proteger esses ativos sob pressão extrema.
Segurança cibernética e proteção de ativos
“Qual empresa tem recursos para investir em segurança cibernética e proteger os fundos dos clientes? Para uma empresa menor, isso pode ser muito mais difícil, porque, quando essas empresas de criptomoedas se tornam fornecedoras de infraestrutura, oferecendo a base para a tokenização […] elas precisam ter conformidade e controles para que um ataque semelhante não aconteça ou possa ser minimizado”, disse à CNBC Owen Lau, analista sênior da ClearStreet. “Empresas maiores têm mais recursos, o que pode lhes dar alguma vantagem.”
A custódia é central.
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Embora investidores institucionais tenham adotado cada vez mais os ativos digitais, uma expansão mais ampla depende da confiança de que esses ativos possam ser armazenados, acessados e transferidos com segurança. A invasão à Binance ressalta a importância dessa infraestrutura e pode aumentar a demanda por custodiantes especializados e plataformas com capacidades consolidadas de proteção de ativos.
A Coinbase opera um negócio dedicado à custódia institucional desde 2018. A Circle entrou nesse segmento neste ano, depois que o Office of the Comptroller of the Currency, órgão regulador bancário dos Estados Unidos, concedeu autorização para operar como banco fiduciário. Nos últimos anos, Ripple e Kraken também lançaram serviços de custódia.
Empresas menores também disputam a custódia
Empresas menores também competem nesse mercado. A Gemini Space Station, corretora de criptomoedas de pequena capitalização, oferece serviços de custódia desde 2019. A BitGo Holdings, fundada em 2013, é uma das pioneiras em custódia institucional e infraestrutura cripto, com reputação de segurança e atendimento a grandes instituições.
A mudança também pode impulsionar a consolidação do setor, à medida que empresas busquem adquirir capacidades, ampliar suas ofertas de infraestrutura e alcançar a escala necessária para competir, afirmou Lau.
A transformação estrutural mais relevante pode ser a separação entre custódia e execução de ordens, segundo o Morgan Stanley.
“Historicamente, as corretoras de criptomoedas combinaram negociação, custódia e liquidação em plataformas verticalmente integradas, concentrando o risco operacional. Violações de segurança recorrentes podem incentivar investidores a transferir ativos para serviços de custódia independentes, enquanto continuam negociando em corretoras centralizadas”, escreveu o analista Felix Stratmann, do banco, em nota de segunda-feira (2), referindo-se às chamadas CEXs.
“Isso preservaria o papel das corretoras centralizadas como locais de liquidez e execução, ao mesmo tempo que potencialmente beneficiaria custodiantes regulados, incluindo bancos, à medida que investidores institucionais atribuem maior importância à segregação de ativos, à resiliência operacional e à proteção do investidor”, afirmou Stratmann.
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