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Ataque à Binance: como funciona a custódia de criptomoedas e quem controla os ativos dos clientes?

Publicado 02/11/2026 • 08:30 | Atualizado há 55 minutos

KEY POINTS

  • Corretoras centralizadas costumam administrar as chaves privadas dos clientes, enquanto os investidores mantêm os direitos sobre os ativos depositados.
  • O armazenamento de criptomoedas envolve carteiras conectadas à internet, opções offline e diferentes níveis de autorização para movimentar recursos.
  • O congelamento de stablecoins pode impedir novas transferências, mas a recuperação definitiva dos valores depende de procedimentos legais e da colaboração entre empresas e autoridades.
Binance

Foto: Creative Commons

Corretoras centralizadas administram chaves privadas e mantêm estruturas próprias para armazenar os recursos dos investidores

O ataque hacker à Binance, que teve impacto estimado em US$ 6,3 bilhões (cerca de R$ 34 bilhões), levantou dúvidas sobre a segurança dos ativos digitais mantidos em corretoras e sobre quem tem controle efetivo desses recursos. Embora os investidores sejam os proprietários das criptomoedas depositadas nas plataformas, a administração das carteiras e dos mecanismos de movimentação fica, em grande parte, sob responsabilidade das empresas que oferecem o serviço de custódia.

O episódio mostra que a proteção dos investimentos não depende apenas da tecnologia blockchain. Também envolve os sistemas internos das corretoras, o gerenciamento das chaves privadas, os processos de autorização de transações e os controles de acesso utilizados pelos funcionários.

No caso da Binance, a investigação inicial apontou que o computador de um engenheiro de DevOps teria sido comprometido. A partir desse acesso, os invasores conseguiram alcançar um contêiner de serviço da companhia e realizar movimentações não autorizadas. A empresa também identificou outros possíveis pontos de invasão durante a apuração.

A corretora suspendeu temporariamente as operações de saque e depósito enquanto realizava verificações de segurança. A companhia afirmou que os prejuízos serão cobertos pelo fundo emergencial SAFU (Secure Asset Fund for Users) e por recursos próprios, além de trabalhar com empresas especializadas e autoridades para localizar os valores desviados.

Leia também: Ataque de US$ 6,3 bi à Binance derruba bitcoin, trava saques e expõe novo risco do mercado cripto

Como funciona a custódia de criptomoedas?

A custódia é o serviço responsável por armazenar e administrar os ativos digitais de investidores. Quando uma pessoa compra bitcoin ou outra criptomoeda em uma corretora centralizada, pode deixar os recursos na própria plataforma, sem precisar administrar diretamente uma carteira digital.

Nesse modelo, a exchange mantém a infraestrutura necessária para guardar as chaves privadas, que funcionam como credenciais criptográficas para autorizar transações na blockchain. Quem possui essas chaves consegue movimentar os ativos associados aos endereços correspondentes.

Na prática, isso significa que o investidor pode ter direito econômico sobre determinada quantidade de criptomoedas, mas não necessariamente controla as chaves que permitem transferi-las. A corretora administra essa parte da operação e precisa garantir que os mecanismos de acesso sejam protegidos.

Existem diferentes formas de armazenamento. As chamadas hot wallets permanecem conectadas à internet e permitem realizar operações com maior rapidez. Por outro lado, ficam mais expostas a ataques digitais. Já as cold wallets mantêm as chaves privadas em ambientes desconectados da rede, o que reduz a exposição a invasões remotas.

As grandes corretoras costumam combinar os dois modelos. Uma parcela dos recursos fica disponível para atender às movimentações dos clientes, enquanto outra permanece armazenada em estruturas com controles adicionais de segurança.

Leia também: Trump diz que governo americano acompanha investigação sobre invasão à Binance

Quem controla os ativos e como uma corretora pode sofrer ataques?

O controle das criptomoedas depende da modalidade de carteira utilizada. Em exchanges centralizadas, a empresa geralmente administra as chaves privadas e estabelece os procedimentos necessários para autorizar transferências. Isso não significa que os ativos pertençam à corretora, mas que ela possui responsabilidade operacional sobre sua movimentação.

A segurança também não depende exclusivamente das chaves privadas. Sistemas internos, computadores corporativos, credenciais de funcionários e ferramentas de autorização fazem parte da estrutura que protege os recursos.

O caso da Binance chamou atenção justamente por envolver uma possível invasão à infraestrutura utilizada pela empresa. Segundo a investigação preliminar, os criminosos teriam conseguido explorar o acesso de um funcionário para alcançar sistemas internos, sem que houvesse necessariamente um vazamento das chaves privadas das carteiras.

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Esse tipo de ocorrência demonstra que uma plataforma pode apresentar vulnerabilidades mesmo quando utiliza mecanismos avançados de armazenamento. Se um invasor consegue acessar sistemas com permissões suficientes, pode tentar executar operações que normalmente dependeriam de autorizações legítimas.

Para reduzir esses riscos, as corretoras podem utilizar autenticação multifator, segregação de permissões, monitoramento de transações, armazenamento offline e sistemas de aprovação conjunta. Essas medidas dificultam que uma única credencial comprometida seja suficiente para movimentar grandes quantidades de ativos.

O que acontece quando criptomoedas são roubadas?

Depois de uma invasão, a recuperação dos recursos depende do tipo de ativo e da possibilidade de bloquear sua movimentação. Diferentemente de uma transferência bancária convencional, as transações realizadas em muitas redes blockchain não podem simplesmente ser canceladas.

As stablecoins, moedas digitais que acompanham o valor de outro ativo, como o dólar, apresentam uma particularidade. Suas emissoras podem ter mecanismos para bloquear endereços e impedir que determinados tokens sejam movimentados.

Foi o que ocorreu após o ataque à Binance. Tether e Circle participaram dos esforços para congelar valores associados às carteiras suspeitas. A Ripple também atuou no bloqueio de recursos vinculados ao incidente.

O congelamento, porém, não significa que o dinheiro já tenha sido devolvido. Ari Redbord, diretor global de políticas da TRM Labs, explicou a diferença entre as duas etapas: “O congelamento impede que o dinheiro se mova, e a recuperação vem por processo legal”.

Em geral, a devolução exige a participação de autoridades e procedimentos jurídicos que autorizem a liberação dos valores. Já no caso de bitcoin e ether, não existe uma empresa emissora com poder para bloquear diretamente os ativos. Os investigadores precisam acompanhar as transações e tentar interceptar os recursos quando chegam a corretoras ou serviços que possam colaborar com as autoridades.

Leia também: CEO da Binance prevê retomar saques em até 30 horas após ataque hacker de US$ 6,3 bilhões

Como os investidores podem proteger suas criptomoedas?

O episódio também chama atenção para a diferença entre manter criptomoedas em uma corretora e administrar uma carteira própria. Na primeira alternativa, o investidor delega à plataforma a guarda das chaves privadas. Na segunda, assume diretamente a responsabilidade pelo armazenamento e pela segurança dos acessos.

Carteiras não custodiais permitem que o usuário mantenha o controle das próprias chaves. Entretanto, essa autonomia exige cuidados adicionais. Se a senha de recuperação for perdida ou exposta, pode não existir uma empresa capaz de recuperar os recursos.

Entre as medidas recomendadas estão manter as frases de recuperação em locais seguros, evitar compartilhar informações de acesso, utilizar autenticação em duas etapas e desconfiar de solicitações inesperadas de transferência.

Também é importante verificar como a corretora administra os recursos dos clientes, quais mecanismos de segurança utiliza e se divulga informações sobre suas reservas. A Prova de Reservas, por exemplo, permite verificar determinados ativos mantidos pela plataforma, embora não represente, isoladamente, uma auditoria completa de todas as obrigações financeiras da empresa.

Após o ataque, a Binance anunciou que pretende divulgar uma nova Prova de Reservas e um relatório técnico com informações sobre o incidente. A retomada das operações e a transparência sobre os procedimentos de segurança estão entre os pontos acompanhados pelo mercado.

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