Binance diz que fundos de clientes brasileiros seguem protegidos e mantém saques suspensos durante verificação de segurança
Regras do Banco Central exigem segregação de ativos, auditoria e prova de reserva das corretoras de criptomoedas
Autocustódia permite controlar as próprias chaves, mas exige proteger a frase de recuperação e conferir cada transação
Foto: Unsplash
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Um ataque de cerca de US$ 6,3 bilhões à Binance, na quinta-feira (29), recolocou em discussão uma dúvida que costuma surgir só depois de incidentes, a de quem controla o dinheiro guardado em uma corretora de criptomoedas. Entre as respostas, especialistas citam a autocustódia, modelo em que o próprio usuário guarda as chaves de acesso aos ativos, e alertam que ela também traz riscos.
A seguir, sete perguntas e respostas sobre o que se sabe do ataque, o que a regulação brasileira prevê e quando a autocustódia faz sentido.
Como hackers chegaram aos recursos da Binance?
A Binance diz que a investigação inicial aponta o comprometimento do laptop de um engenheiro de DevOps, o que deu ao invasor acesso a um contêiner de serviço e permitiu saques não autorizados. A corretora afirma que não encontrou evidência de vazamento de chave privada de carteira.
Para especialistas em cibersegurança, o ataque explorou credenciais e acessos, e não uma quebra de criptografia. Ray Canzanese, do Netskope Threat Labs, explica que sessões autenticadas e tokens de serviços internos tornaram desnecessárias as chaves privadas, enquanto Glauco Sampaio, CEO da Beephish, vê o laptop como provável porta de entrada para uma escalação de privilégios. A apuração segue em andamento.
A BBrasil SPSAV, entidade da Binance que atende os usuários no Brasil, afirmou em comunicado no X que os fundos de seus clientes permanecem seguros. Segundo a empresa, os ativos virtuais ficam em cold wallets, as carteiras frias, e a operação segue os requisitos de segregação estabelecidos pelo Banco Central.
Por precaução, os saques seguem temporariamente suspensos durante uma verificação de segurança, e os demais serviços funcionam normalmente. A companhia diz que retomará as retiradas quando o processo terminar.
Regra do Banco Central protege quem guarda criptomoedas em corretora?
Desde 2 de fevereiro de 2026, valem as Resoluções BCB 519, 520 e 521, que regulam as sociedades prestadoras de serviços de ativos virtuais, as SPSAVs. As empresas precisam separar o patrimônio próprio do dinheiro e dos criptoativos dos clientes, manter carteiras distintas, fazer auditoria independente a cada dois anos, com relatório público, e apresentar provas de reserva que comprovem a existência dos ativos.
Além disso, ficam sujeitas a regras de governança, segurança cibernética e prevenção à lavagem de dinheiro semelhantes às do sistema financeiro. As exigências buscam reduzir o risco de perdas por má gestão ou insolvência, mas não funcionam como garantia de ressarcimento aos clientes.
Cobertura de perdas anunciada por corretora elimina risco para cliente?
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Para Leonardo Maximiliano, CEO da DSEC Labs, não. Ele afirma que, mesmo quando a instituição anuncia que cobrirá as perdas, o cliente continua dependendo da capacidade dela de responder ao incidente e restabelecer o serviço.
Maximiliano explica que uma corretora concentra o patrimônio de milhões de usuários e, por isso, vira alvo valioso para criminosos, na lógica do “honeypot”, o pote de mel. O porte da empresa e os investimentos em segurança, diz ele, não eliminam essa exposição.
Autocustódia significa guardar criptomoedas fora da corretora?
Significa controlar as próprias chaves da carteira. Maximiliano diz que ter saldo em uma corretora é diferente de possuir as chaves que autorizam as movimentações, porque o cliente acessa uma conta e depende das regras e da disponibilidade do serviço.
Na autocustódia, o usuário assume diretamente a autorização das transações e pode movimentar os ativos sem precisar da corretora. Segundo o executivo, o modelo reduz essa dependência.
Maximiliano afirma que uma frase de recuperação exposta ou uma transação autorizada por engano pode causar perda irreversível. O modelo exige conhecimento, proteção do backup e disciplina, e o usuário precisa verificar os dados de cada operação e saber como recuperar o acesso se perder o dispositivo.
Por isso, ele defende que a autonomia venha acompanhada de educação e ferramentas adequadas.
Quando vale considerar autocustódia?
Maximiliano diz que a escolha sobre onde guardar o patrimônio precisa levar em conta essas responsabilidades e ser feita antes de uma emergência. Na avaliação dele, o aprendizado do ataque é entender onde está o patrimônio, quem pode movimentá-lo e quais dependências cada pessoa está disposta a aceitar.
Ele também recomenda separar o ambiente de negociação da proteção do patrimônio. Uma corretora precisa operar continuamente, processar saques e manter sistemas conectados, o que cria uma superfície de ataque, e manter as chaves offline reduz a exposição a ambientes conectados.
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