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‘Muito ruim’, ‘ridícula’ e ‘voluntarismo ingênuo’: economistas criticam proposta de Lara Resende para Selic a 7,5%
Publicado 02/11/2026 • 20:30 | Atualizado há 1 hora
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Publicado 02/11/2026 • 20:30 | Atualizado há 1 hora
KEY POINTS
A proposta do economista André Lara Resende para reduzir a Selic a cerca de 7,5% ao ano em aproximadamente 12 meses recebeu críticas de economistas que veem riscos de inflação, fuga de capitais, pressão sobre o câmbio e dificuldades para o financiamento da dívida pública.
O debate veio à tona após a notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia se reunir com Lara Resende nesta semana. Nesta segunda-feira (2), porém, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, negou que haja um encontro agendado entre os dois e afirmou que a equipe econômica não discute levar a proposta ao presidente.
Lara Resende defende uma redução gradual da taxa básica ao longo de cerca de 12 meses, até aproximadamente 7,5% ao ano, além da criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar as políticas fiscal e monetária. O economista também admite o uso das reservas internacionais para conter pressões cambiais durante a transição.
Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central, reagiu com ironia à proposta. Em publicação no X, afirmou que toparia a ideia sob duas condições: que Lara Resende assumisse o Ministério da Fazenda para conduzir a política e mantivesse todos os seus ativos no Brasil e em reais. “Skin in the game”, escreveu.
Schwartsman também republicou uma postagem com críticas antigas feitas às teses de Lara Resende e comentou: “Já faz um tempo”.
Em 2020, no artigo “A cloroquina monetária”, o economista contestou argumentos de Lara sobre dívida pública, operações compromissadas e expansão monetária. Na ocasião, sustentou que mudanças contábeis ou monetárias não eliminariam o problema fiscal e que juros abaixo do nível compatível com a meta de inflação teriam efeito inflacionário.
O economista Felipe Miranda, fundador da Empiricus Research, afirma ter “muito respeito” e admiração por Lara Resende como intelectual e economista, mas discorda da proposta. “Eu o admiro como intelectual, mas acho a proposta muito ruim”, afirmou.
Miranda reconhece como correto parte do diagnóstico de Lara Resende sobre o peso da conta de juros nas finanças públicas. A divergência aparece nas consequências de uma redução acelerada da Selic.
Para ele, a proposta ignora efeitos indiretos capazes de superar o benefício inicial da queda do custo dos juros.
“Os efeitos de segunda ordem são muito maiores e mais intensos e sobrepujam os efeitos de primeira ordem. Acaba você atirando no próprio pé”, afirmou. “O efeito final é contrário àquele inicialmente projetado.”
Um dos principais riscos apontados por Miranda é a inflação. Segundo ele, uma Selic de 7,5% colocaria a taxa real de juros abaixo do nível que considera neutro para a economia brasileira, estimulando a demanda em um momento em que a oferta poderia não responder na mesma velocidade.
“Se você vai para 7,5%, você vai estimular muito a demanda agregada e você vai ter mais inflação”, afirmou.
Leia também: Em semana de decisão do Copom, Lula terá encontro com Lara Resende, um dos pais do Real e crítico dos juros altos
Miranda também argumenta que a redução do diferencial de juros entre Brasil e exterior poderia diminuir a atratividade dos ativos brasileiros.
Na avaliação dele, uma saída de recursos elevaria a demanda por dólares, pressionaria o câmbio e acabaria contaminando os preços por meio do repasse cambial.
“As pessoas escapam lá para fora. No que elas escapam lá para fora, tem uma demanda por dólares. A taxa de câmbio dispara”, disse.
Ele também critica a possibilidade de recorrer às reservas internacionais para conter esse movimento.
“Esse é o nosso seguro contra a crise. Se a gente começar a usar demais as nossas reservas, daqui a pouquinho as pessoas vão olhar pro Brasil e vai ter um ataque especulativo”, afirmou.
Segundo Miranda, o corte dos juros de curto prazo também poderia provocar uma alta nas taxas mais longas negociadas pelo mercado, encarecendo financiamentos de maior prazo.
“Você faz o ajuste, mas da pior forma possível. Empobrece todo mundo e concentra a renda, porque a inflação é pior para o pobre”, disse.
O professor da Universidade de Brasília (UnB) José Luis Oreiro concorda com Lara Resende que os juros elevados exercem papel essencial no crescimento da dívida pública brasileira. No entanto, discorda da estratégia de reduzir a Selic de 13,75% para 7,5% em apenas 12 meses.
“A solução proposta por André Lara Resende […] padece de um voluntarismo ingênuo”, afirmou Oreiro.
O economista argumenta que uma redução dessa magnitude não poderia ser realizada sem mudanças prévias na estrutura do sistema financeiro brasileiro.
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Siga o Times | CNBCEntre os principais obstáculos citados estão a presença de títulos públicos indexados à Selic, como as Letras Financeiras do Tesouro (LFTs), e a livre movimentação de capitais.
Na avaliação de Oreiro, reduzir fortemente o retorno dos ativos domésticos sem alterar essa estrutura poderia estimular investidores a buscar dólares e outros ativos, pressionando a moeda brasileira.
“A resposta curta, direta e respaldada pela macroeconomia estruturalista e pós-keynesiana é: não. É absolutamente impossível fazer isso sem deflagrar uma crise cambial de grandes proporções”, argumentou.
Oreiro também rejeita o uso das reservas internacionais como principal instrumento para conter uma eventual pressão sobre o real durante o processo de redução dos juros.
Segundo ele, o volume de ativos financeiros que poderia buscar proteção cambial é muito superior ao estoque de reservas disponível para intervenção.
O economista sustenta que, antes de reduzir os juros no ritmo defendido por Lara Resende, seria necessário reformar a estrutura da dívida pública e discutir mecanismos de administração dos fluxos de capitais.
Oreiro classificou como um “ponto cego” da proposta a tentativa de reduzir a Selic sem enfrentar previamente a indexação de parte da dívida pública ao juro de curto prazo.
Para ele, juros estruturalmente menores são desejáveis, mas exigiriam uma sequência diferente de medidas.
Leia também: Lula 4 terá R$ 230 bilhões em concessões, mas juros ameaçam tirar projetos do papel
Ana Paula Vescovi, ex-secretária do Tesouro Nacional e ex-economista-chefe do Santander Brasil, também criticou a proposta, com foco no uso das reservas internacionais para conter uma eventual desvalorização do real.
“Reservas são o seguro externo do país. Transformá-las no cheque especial de uma aposta monetária é uma temeridade”, escreveu em publicação no LinkedIn.
Segundo Vescovi, intervenções cambiais podem ser justificadas diante de problemas temporários de liquidez, mas uma pressão persistente sobre o dólar poderia transformar a estratégia em vendas recorrentes de reservas.
Ela também chama atenção para a possibilidade de saída de recursos de investidores residentes, que concentram grande parte da dívida pública brasileira e poderiam realocar rapidamente suas carteiras diante da expectativa de desvalorização do real.
“A proposta promete economizar juros. Falta demonstrar que essa economia não será paga com os dólares das reservas”, afirmou.
Para Vescovi, a redução dos juros também precisaria estar acompanhada de um compromisso fiscal capaz de garantir que a economia obtida com a queda da despesa financeira não seja convertida em novos gastos.
Jason Vieira, economista-chefe da Lev DTVM, fez uma das críticas mais duras à proposta. “Ridículo, simplesmente ridículo”, afirmou.
Vieira também concentra a avaliação nos possíveis efeitos inflacionários e cambiais de uma redução conduzida nesses termos.
“Infelizmente nós estamos indo para uma posição que pode criar um impacto monstruoso na inflação”, disse.
Segundo o economista, os efeitos não ficariam restritos aos preços. Ele afirma que uma mudança abrupta na política de juros poderia atingir o mercado de títulos públicos e a percepção de segurança dos investidores em relação ao financiamento do governo.
“Isso pode também criar um impacto monstruoso na questão dos títulos públicos, que a necessidade de financiamento de títulos públicos do governo acaba sendo afetada”, afirmou.
Vieira acrescentou que o movimento poderia comprometer a confiança do investidor e provocar pressão sobre o câmbio.
“Isso afeta efetivamente a perspectiva de segurança do investidor em relação ao governo”, disse.
Embora divirjam sobre a viabilidade e os efeitos da proposta, as críticas convergem principalmente sobre o risco cambial e o uso das reservas internacionais. A maioria dos economistas alerta que uma redução acelerada da Selic poderia aumentar a pressão sobre o dólar ou exigir intervenções mais intensas no mercado de câmbio. Lara Resende reconhece a possibilidade de desvalorização no curto prazo e defende o uso das reservas para suavizar esse movimento, justamente um dos pontos mais contestados pelos críticos.
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