Binance promete cobrir perdas após maior ataque hacker da história, de US$ 6,3 bilhões; empresas de segurança atribuem ação a grupos da Coreia do Norte
Publicado
30/10/2026 • 07:06
| Atualizado há 31 minutos
Binance suspende saques, estima impacto de US$ 6,3 bilhões e promete cobrir perdas com fundo SAFU e caixa próprio
Tether, Circle e Ripple congelam stablecoins, e bitcoin cai mais de 4% para menos de US$ 78 mil
TRM Labs, Chainalysis e Check Point ligam ataque ao grupo norte-coreano TraderTraitor, e Binance acha novos pontos de invasão
JUSTIN SULLIVAN/GETTY IMAGES NORTH AMERICA via AFP
A Binance, maior corretora de criptomoedas do mundo, confirmou em comunicado na rede X, nesta sexta-feira (30), que o ataque hacker contra a plataforma teve impacto total estimado em cerca de US$ 6,3 bilhões. A empresa suspendeu depósitos e saques enquanto conclui verificações de segurança e prometeu ressarcir todas as perdas.
Empresas de segurança atribuem a invasão a um grupo da Coreia do Norte, e a própria exchange informou ter achado outros pontos de invasão além do laptop de engenheiro apontado no início, ao confirmar impacto de cerca de US$ 6,3 bilhões.
O número ficou acima das primeiras estimativas. Na noite de quinta-feira (29), os dados públicos da blockchain apontavam saídas suspeitas de até US$ 5,8 bilhões, quando a própria Binance ainda evitava divulgar um total.
Grupo norte-coreano é apontado como autor do ataque à Binance
As empresas TRM Labs e Pangolin Intelligence atribuem a invasão ao TraderTraitor, grupo hacker da Coreia do Norte. A Chainalysis disse ter alta confiança na ligação, e a Check Point afirmou que o grupo também é conhecido como Lazarus, responsabilizado pelo ataque à Bybit em 2025, de US$ 1,5 bilhão, até então o maior da história.
Nick Carlsen, pesquisador sênior da TRM, disse que “foi absolutamente a Coreia do Norte”. Segundo ele, vários elementos do ataque lembram incidentes anteriores ligados ao país, entre eles o da Bybit.
Já Ari Redbord, diretor global de políticas da TRM, classificou o episódio como um momento de virada para o setor e o comparou ao maior assalto a banco da história. Ele afirmou que o invasor ainda detém parte dos ativos roubados, o que mantém em curso os esforços de rastreamento e recuperação.
A Binance não respondeu diretamente aos questionamentos sobre a ligação com a Coreia do Norte. A empresa disse que trabalha com autoridades policiais para confirmar a identidade dos criminosos e levá-los à Justiça. Agências de segurança ocidentais já afirmaram que os fundos roubados por esses grupos financiam os programas de armas nucleares e mísseis do país, e o regime nega envolvimento.
Laptop de engenheiro foi porta de entrada, e Binance acha outros pontos de invasão
A apuração inicial indicou que o laptop de um engenheiro de DevOps foi comprometido, o que deu ao invasor acesso a um contêiner de serviço e permitiu o envio de saques sem autorização.
Mais tarde, o co-CEO Richard Teng disse que o ataque envolveu um processo complexo, com mais de uma etapa, e que a investigação não atribuiu responsabilidade a nenhum funcionário. Segundo ele, não há indício de vazamento de chave privada de carteira.
Em nova atualização na rede X, a Binance informou que a investigação posterior encontrou outros pontos de invasão e que ainda reúne os fatos para divulgá-los.
Para Jayant Dave, diretor de segurança da informação da Check Point, o caso lembra o ataque à Bitget em setembro, que causou perdas de US$ 388 milhões. Na avaliação dele, os invasores deixaram de depender das chaves dos cofres e passaram a mirar os sistemas e as pessoas autorizadas a usá-las.
Binance confirma impacto de US$ 6,3 bilhões e suspende depósitos e saques
No comunicado assinado pela Equipe Binance e dirigido aos usuários, a empresa estima o impacto total em cerca de US$ 6,3 bilhões e diz que cerca de US$ 3 bilhões já estão congelados na cadeia, com apoio de parceiros de blockchain. As perdas serão cobertas pelo fundo SAFU e por recursos da própria companhia, e, segundo o texto, “os fundos dos usuários estão seguros”.
Como medida imediata, a corretora suspendeu temporariamente depósitos e saques enquanto conclui as verificações de segurança, revogou a autorização do endereço afetado e acionou autoridades policiais e parceiros de inteligência em blockchain para rastrear e recuperar os fundos. A Binance Alpha também teve as negociações interrompidas.
Além disso, a Binance prometeu publicar uma nova Prova de Reservas assim que a remediação estiver concluída e um relatório técnico detalhado depois que os fatos forem totalmente verificados. A empresa pediu que os usuários confiem apenas nos canais oficiais para atualizações.
Já a co-CEO Yi He afirmou que os saques seguem desativados até que o ambiente seja confirmado como seguro e que a retomada deve começar em até 48 horas. Em declaração separada, ela disse que os depósitos operam normalmente, o que diverge do texto do comunicado.
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Ao longo da noite, a corretora havia citado US$ 2,54 bilhões como total verificado de ativos congelados, e o volume passou depois para cerca de US$ 3 bilhões. Fundada na China em 2017, a Binance tem mais de 300 milhões de usuários registrados, segundo estimativas, e declarou em 2024 ter mais de US$ 160 bilhões em ativos sob custódia.
Kevin March, cofundador da JPEG Trading, avalia que a perda tende a ser administrável, por causa do fundo de seguro de US$ 1,2 bilhão da exchange e do congelamento rápido de ativos. A Binance.US, braço da empresa para os Estados Unidos, informou que não foi afetada, e a Coinbase disse o mesmo.
Tether, Circle e Ripple congelam stablecoins ligadas ao ataque
Emissoras de stablecoins agiram para travar os valores desviados. A Tether congelou mais de US$ 1,5 bilhão em USDT, segundo o CEO Paolo Ardoino, e a Circle bloqueou mais de US$ 800 milhões em USDC, de acordo com o CEO Jeremy Allaire. Juntas, as duas informaram o bloqueio de cerca de US$ 2,4 bilhões.
A Ripple atuou no congelamento de fundos em RLUSD, sua stablecoin lastreada em dólar, e ajudou a barrar a movimentação de US$ 200 milhões, segundo Yi He. A World Liberty Financial, empresa de criptomoedas ligada ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e à família dele, também disse ter trabalhado com parceiros para congelar fundos roubados.
Na prática, o congelamento impede que os hackers movam, transfiram ou convertam aqueles tokens, pois o endereço da carteira entra em uma lista de bloqueio antes que os ativos sejam trocados por outras moedas ou passem por um mixer, serviço usado para ocultar a origem dos recursos.
Os bloqueios, porém, podem alcançar só parte do total. A Arkham Intelligence vinculou quase US$ 6 bilhões em bitcoin, ether, solana e várias stablecoins a 55 endereços de carteira associados à possível invasão.
Bitcoin cai abaixo de US$ 78 mil e BNB recua mais de 8%
O mercado reagiu ao ataque. O bitcoin perdeu mais de 4% e chegou a US$ 77.994,96, e o token BNB, da Binance, recuou mais de 8% em 24 horas. As ações da Circle caíram cerca de 5% no after-hours de quinta-feira.
Entre os tokens de finanças descentralizadas, a AAVE caiu 11,3%, para US$ 118,54, e a UNI, da Uniswap, perdeu 10,4%, para US$ 6,48, segundo a CoinGecko.
Standard Chartered vê ataque como impulso a corretoras descentralizadas
Geoffrey Kendrick, chefe global de pesquisa de ativos digitais do Standard Chartered, avalia que o ataque pode acelerar a migração do trading para exchanges descentralizadas, as DEXs, o que beneficiaria a Uniswap no longo prazo. “Eu incentivaria os investidores a voltar a se expor à Uniswap”, disse ele em e-mail.
Segundo Kendrick, a DEX nunca sofreu exploits, e o ataque à maior exchange centralizada deve elevar a proporção do trading em DEXs em relação às CEXs. Levantamento da CoinGecko mostra que, entre as dez maiores plataformas de cada tipo, a razão no mercado à vista foi de 23,5% no segundo trimestre de 2026, alta de 2,1 pontos percentuais sobre o primeiro.
O executivo manteve a meta de US$ 100 para a UNI em 2030, apoiada na tese do banco de que os ativos bloqueados em DeFi chegarão a US$ 2,7 trilhões até lá, e disse que o ataque pode tornar a previsão baixa demais. Para o curto prazo, ele espera mais pressão negativa sobre os preços, e um novo patamar só deve surgir depois que os ativos forem descongelados e mais detalhes do ataque vierem à tona.
Polymarket também sofre ataque na quinta-feira
No mesmo dia, a plataforma de mercados de previsão Polymarket informou que um fornecedor terceirizado foi comprometido e chegou a interromper as negociações na versão internacional.
Dados de blockchain ligam cerca de US$ 2,65 milhões a uma carteira suspeita, valor que a empresa não confirmou como perda total. A plataforma disse que os usuários afetados serão ressarcidos, e as negociações foram retomadas depois da correção da origem do problema.
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