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DECISÃO 2026: Gastos do pacote de bondades de Lula deixarão fatura alta de juros e dívida para os próximos anos, dizem economistas
Publicado 21/10/2026 • 20:00 | Atualizado há 1 hora
Publicado 21/10/2026 • 20:00 | Atualizado há 1 hora
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Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil
Orçamento do governo Lula aponta falta de R$ 53,7 bilhões para manter políticas atuais entre 2028 e 2030, diz documento
O segundo turno, marcado para domingo (25), chega acompanhado de críticas de economistas ao chamado “pacote de bondades” do governo Lula. Os gastos somam R$ 354 bilhões no Gastômetro do Estadão e R$ 215 bilhões na conta do economista Marcos Mendes, do Insper, conforme o critério de cada levantamento.
Para Vladimir Maciel, professor de Ciências Econômicas do Mackenzie, o estímulo fiscal numa economia aquecida configura uma “política econômica punta taco”, que pressiona inflação e juros. Já Margarete Campos Vieira, professora da Unicesumar, aponta que parte do custo, como o reajuste do Bolsa Família, recai sobre o próximo governo.
Entre as medidas estão o reajuste de 15,04% do Bolsa Família, o perdão de dívidas de microempreendedores individuais (MEIs) e a tarifa zero nos fins de semana, prometida por Lula na quinta-feira (15), a dez dias da votação. A PEC da gratuidade só seria enviada ao Congresso em 2027, caso o presidente seja reeleito.
Advogados ouvidos pela reportagem afirmam que as medidas têm caminho legal, com condições.
Somar tudo em um único número confunde recursos mobilizados com custo fiscal, afirma a economista Margarete Campos Vieira, professora da Unicesumar (Corecon 6331-1). Segundo ela, uma linha de crédito de R$ 10 bilhões não representa custo de R$ 10 bilhões, porque o dinheiro volta ao Tesouro. A conta deve considerar o subsídio, o custo de financiamento e a inadimplência esperada.
Por sua vez, Vladimir Maciel, coordenador do MackLiber, descreve critério parecido. Para ele, gastos diretos e subsídios pesam de imediato no resultado primário, o crédito afeta a dívida bruta pela emissão de títulos e as garantias só entram na conta se forem executadas.
Além disso, as estimativas variam. Há cálculos que vão de R$ 260 bilhões a R$ 354 bilhões, conforme o critério, e Margarete observa que só podem ser comparados depois de uniformizar período, medidas incluídas e metodologia.
Ainda segundo o estudo de Mendes, apenas R$ 9 bilhões são contabilizados nas regras do arcabouço fiscal, o que não elimina os efeitos econômicos das demais medidas, diz Margarete. Ela afirma que os R$ 215 bilhões também não representam necessariamente impulso líquido dessa dimensão, por causa de compensações e sobreposições entre estimativas.
Na conta de Mendes, o reajuste do Bolsa Família custa R$ 5,8 bilhões em 2026 e cerca de R$ 22 bilhões em 2027. O advogado Pedro Abrão Júnior, sócio do Pedro Abrão Advocacia & Consultoria Empresarial, observa que a proposta orçamentária enviada em agosto não previa o aumento.
Do ponto de vista legal, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) dispensa compensação para reajuste que preserva o valor real do benefício, explica Abrão. Isso vale se os 15,04% corresponderem à inflação acumulada, e a despesa ainda precisa caber no Orçamento e no limite do arcabouço. Jean Paolo Simei e Silva, sócio do Fonseca Brasil Serrão Advogados, afirma que a dispensa não elimina os demais controles.
Em paralelo, o perdão aos MEIs andou rápido. Anunciado por Lula na terça-feira (13), passou pela Câmara no dia seguinte e foi aprovado pelo Senado no mesmo dia em que o presidente prometeu a tarifa zero, por 78 votos a zero. O texto do PLP 186/2026 segue para sanção.
Na estimativa da Fazenda, a renúncia soma R$ 3,04 bilhões entre 2027 e 2029 para perdoar R$ 12,57 bilhões em dívidas com a União, de cerca de 3,6 milhões de MEIs. Segundo o ministério, manter a cobrança desse estoque gera custo administrativo sem garantia de arrecadação.
Quanto à compensação, Abrão explica que o projeto dispensa os artigos 14 e 14-A da LRF, o que é possível por se tratar de lei complementar, de mesma hierarquia. Simei lembra que, no regime geral, a renúncia precisa ser considerada na previsão de receita sem comprometer as metas ou ser compensada, e que o tratamento depende do regime legal efetivamente aprovado.
Por fim, os R$ 12,57 bilhões são valor nominal. Para Abrão, a perda efetiva equivale à expectativa de recuperação desses créditos, estimada pelo governo em cerca de R$ 3 bilhões, porque eles já foram baixados do Balanço Geral da União.
A tarifa zero aos fins de semana não tem estimativa oficial. A XP calcula R$ 11,8 bilhões por ano para ônibus aos sábados e domingos, com dados de cinco cidades que somam 25% da demanda nacional. Já a NTU, associação das empresas de transporte urbano, chega a R$ 20,8 bilhões ao incluir trens e metrôs e projetar alta média de 20% no número de passageiros, segundo Margarete.
Além disso, Lula associou a PEC ao uso de emendas parlamentares, que somam R$ 49,9 bilhões em 2026 e são renegociadas todo ano. Margarete diz que a gratuidade seria compromisso contínuo, com fonte variável, o que cria risco de interrupção do serviço ou de transferência do custo para o Tesouro e os municípios. Maciel fala em “descasamento intertemporal” e em possíveis paralisações, calotes a operadoras ou socorro do Tesouro.
Do lado jurídico, Simei afirma que é possível financiar parcelas anuais de uma política permanente com emendas. O problema, segundo ele, está em criar obrigação duradoura sem demonstrar como será sustentada nos exercícios seguintes, o que atrai os artigos 16 e 17 da LRF.
Abrão acrescenta que metade das emendas individuais vai obrigatoriamente para a saúde e que, nas emendas Pix, ao menos 70% devem ser investimento, sem pagamento de pessoal ou dívida. Para funcionar, diz ele, a PEC teria de reservar parcela das emendas ao transporte, o que retira do parlamentar a decisão sobre esse dinheiro.
Como mostrou o Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o prefeito da capital, Ricardo Nunes (MDB), chamaram a proposta de “estelionato eleitoral” na sexta-feira (16). Tarcísio, que citou R$ 9 bilhões anuais do Estado em subsídios ao transporte sobre trilhos, cobrou estimativa de impacto e sinalizou apoio caso o financiamento seja demonstrado.
Qualquer programa financiado por emendas ficaria sujeito às decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 19 de dezembro de 2022, nas ADPFs 850, 851, 854 e 1014, a Corte considerou inconstitucional o orçamento secreto, formado pelas emendas de relator RP-9.
Em seguida, decisões posteriores condicionaram a execução à transparência e à rastreabilidade, com plano de trabalho aprovado para emendas Pix e identificação de autores e destino. Em 3 de março de 2026, na ADPF 854, o ministro Flávio Dino proibiu saques em espécie de recursos de emendas.
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Siga o Times | CNBCAinda conforme Abrão, o Supremo limitou o crescimento das emendas ao das demais despesas discricionárias, nos termos da Lei Complementar 210/2024.
Sobre a PEC, Simei e Abrão não veem contradição jurídica com o veto de junho a trechos do marco do transporte (Lei 15.432/2026), embora a coerência política seja assunto legítimo de debate. Abrão lembra que os trechos vetados obrigavam estados e municípios a custear gratuidades com orçamento próprio e vinculavam subsídios a operadoras e parte da Cide às áreas urbanas, e que o veto citou a autonomia dos entes e a intenção de não criar despesa obrigatória para a União.
Já uma emenda constitucional pode ir além da lei ordinária, afirma Abrão. Pode criar obrigação de financiamento da União, instituir fundo ou transferência obrigatória aos municípios e até tratar a despesa fora do limite do arcabouço. Os contratos de concessão vigentes, acrescenta, terão de ser reequilibrados, porque o operador continua a ser remunerado.
Quanto à responsabilização, Simei e Abrão afirmam que não há punição pessoal automática por resultado fiscal ruim. Abrão cita como condutas de risco deixar de contingenciar quando a lei exige, infração punida com multa de 30% dos vencimentos anuais (Lei 10.028/2000), e ordenar despesa não autorizada, crime previsto no artigo 359-D do Código Penal. No caso do presidente, há ainda o crime de responsabilidade.
Por outro lado, o déficit de 2025 já acionou o gatilho que proíbe novo benefício tributário e limita o crescimento da folha, afirma Abrão. O governo entende que a regra vale para 2027, enquanto o TCU e consultorias do Congresso entendiam que valia desde 2026.
Na esfera eleitoral, a advogada Daniela Poli Vlavianos, sócia do Poli, Porto & Andreghetto Advogados, lembra que o artigo 73, parágrafo 10, da Lei 9.504/1997 proíbe, em ano eleitoral, a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios pela administração pública. Há ressalvas para calamidade, estado de emergência e programas sociais autorizados em lei e já em execução orçamentária no exercício anterior.
Em relação à PEC, o anúncio, por si só, não configura conduta vedada, porque não concede benefício imediato, diz Daniela. A proximidade da eleição, segundo ela, não torna a medida ilegal, mas pode pesar na identificação de finalidade eleitoral.
Para a advogada, o exame deve verificar o uso de recursos públicos, a promoção pessoal do candidato, a vinculação do anúncio à campanha e medidas administrativas concretas voltadas a produzir vantagem eleitoral. Havendo uso indevido da máquina pública, com gravidade capaz de comprometer a legitimidade da eleição, pode haver responsabilização por abuso de poder político, nos termos do artigo 22 da Lei Complementar 64/1990.
O Orçamento de 2027 prevê crescimento de 2,5% e superávit de R$ 18,6 bilhões. A mediana do Prisma Fiscal aponta crescimento de 1,43% e déficit de R$ 45,4 bilhões, o que abre distância de cerca de R$ 64 bilhões, calcula Margarete.
Além disso, o superávit de R$ 18,6 bilhões, equivalente a 0,13% do PIB, é o resultado cheio. Pelos critérios do arcabouço, que permitem excluir despesas da meta, o governo apresenta superávit ajustado de R$ 83,4 bilhões. Margarete observa que essas exclusões permitem cumprir a meta no papel, sem eliminar a necessidade de financiar os gastos nem seus efeitos sobre a dívida.
Na avaliação de Maciel, se a receita frustrar a projeção nos primeiros bimestres de 2027, o Tesouro terá de contingenciar investimentos e custeio. A perda de credibilidade, segundo ele, encarece a rolagem da dívida e anula os estímulos que o governo tenta injetar na economia.
Há ainda o cálculo do próprio governo de insuficiência de R$ 53,7 bilhões entre 2028 e 2030 para manter as políticas atuais, com despesas obrigatórias subindo 22,8% e as discricionárias, 8,0%. Margarete esclarece que o valor é acumulado no período, sem equivaler a corte em um único ano. Maciel vê duas saídas, a revisão de vinculações como os pisos de saúde e educação ou o aumento permanente de receitas.
Por sua vez, a equipe econômica apresenta outra leitura. Ao enviar o Orçamento, disse que terá ajuste de cerca de R$ 100 bilhões em 2027 com medidas já aprovadas, como o pacote fiscal de 2024 e gatilhos para conter despesas de pessoal. Em julho, o secretário-executivo da Fazenda, Rogério Ceron, afirmou à Folha que não vê descontrole nem crise fiscal.
Na parte monetária, Margarete lembra que o Copom projeta inflação de 5,2% em 2026 e de 3,9% em 2027. No Boletim Focus de segunda-feira (19), a projeção do mercado para 2027 passou de 4,30% para 4,32%, acima do centro da meta, de 3%. Segundo ela, o Focus projeta Selic de 13,25% no fim de 2026 e de 12% em 2027.
Ainda de acordo com a economista, o Copom avalia que, com expectativas desancoradas, é preciso restrição monetária maior e por mais tempo, e que menor disciplina fiscal pode elevar a taxa de juros neutra.
Maciel descreve a “política econômica punta taco” como a manobra do automobilismo de pisar no acelerador e no freio ao mesmo tempo. Na leitura dele, o estímulo fiscal à demanda numa economia aquecida pressiona a inflação, o Banco Central eleva os juros, o custo da dívida aumenta, o esforço fiscal necessário não se concretiza e o prêmio de risco sobe.
Além disso, Maciel trata os R$ 215 bilhões como impulso líquido em 2026, com efeitos que se estendem a 2027 por meio de reajustes permanentes, como o do Bolsa Família, e de desonerações.
Por fim, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB em agosto, o maior patamar em cinco anos, segundo o Banco Central. As projeções do Focus citadas por Margarete apontam 83,4% em 2026 e 95,1% em 2030. A Instituição Fiscal Independente (IFI) calcula que estabilizar a relação exigiria superávit primário de 2,1% do PIB ao ano, ante 0,13% do PIB previsto no Orçamento de 2027.
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