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Ciências e Saúde

Por que Trump mudou de posição e passou a acelerar pesquisas com drogas psicodélicas para saúde mental

Publicado 31/05/2026 • 11:19 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • O presidente Donald Trump assinou uma ordem executiva para acelerar pesquisas com terapias psicodélicas voltadas ao tratamento de transtorno de estresse pós-traumático, depressão e outras doenças mentais.
  • Defensores da medida consideram a decisão um avanço importante para ampliar o acesso a tratamentos alternativos, embora especialistas ainda levantem dúvidas sobre segurança e eficácia.
  • A iniciativa abre oportunidades para pacientes e empresas do setor, mas também aumenta o escrutínio sobre uma área que continua cercada por debates científicos.

Cristais bege de MDMA, droga psicodélica incluída nas pesquisas norte-americanas

Marie Phelan afirma que nunca tinha ouvido falar em MDMA até encontrar um anúncio procurando veteranos que sofriam de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

Hoje, ela diz que a substância psicoativa, mais conhecida como ecstasy ou molly, mudou o rumo de sua vida.

Minha experiência com o MDMA foi como se meu coração tivesse sido completamente aberto“, disse Phelan, que ingressou na Reserva do Exército dos Estados Unidos em 1999 e foi enviada ao Iraque em 2003.

Ela comparou o tratamento a deixar de carregar uma mochila pesada repleta de traumas e começar a desfazer esse peso pouco a pouco.

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Phelan está entre um pequeno grupo de americanos que participaram de estudos clínicos envolvendo terapias assistidas por psicodélicos, uma área que pode ganhar espaço após mudanças recentes promovidas pela administração Trump.

Mudança de postura

Em abril, Donald Trump assinou uma ordem executiva destinada a acelerar pesquisas com drogas psicodélicas para tratamento de doenças mentais. A iniciativa ocorreu ao mesmo tempo em que o governo concedeu vouchers de revisão prioritária a três empresas que desenvolvem terapias psicodélicas ou semelhantes ao MDMA: Compass Pathways, Usona Institute e Transcend Therapeutics.

A medida representa uma mudança relevante em relação ao primeiro mandato de Trump, quando sua administração adotou uma postura mais rígida em relação à cannabis e outras substâncias controladas.

Segundo a Casa Branca, compostos psicodélicos “demonstram potencial em estudos clínicos para tratar doenças mentais graves em pacientes cujas condições persistem após terapias convencionais“.

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Após o anúncio, investidores ampliaram o interesse pelo setor. As ações de empresas ligadas ao segmento, incluindo a Compass Pathways, registraram valorização, impulsionadas pela percepção de que a ordem executiva pode ajudar a legitimar uma indústria que durante anos foi considerada marginal.

O que dizem os estudos

Historicamente, diferentes substâncias psicodélicas foram associadas a tratamentos específicos. A psilocibina, presente em cogumelos alucinógenos, foi estudada para depressão. O MDMA foi associado ao tratamento de TEPT. Já o LSD foi investigado para ansiedade.

Outra substância citada é a ibogaína, composta derivada de um arbusto da África Ocidental e que, segundo alguns defensores, pode ajudar no tratamento de dependência química e lesões cerebrais traumáticas.

Apesar de o MDMA não ser tecnicamente classificado como um psicodélico tradicional, pesquisadores e reguladores costumam incluí-lo nesse campo porque o tratamento envolve sessões terapêuticas supervisionadas voltadas para TEPT, depressão e dependência.

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É importante reconhecer que todos esses medicamentos são muito diferentes entre si“, afirmou Brandon Weiss, pesquisador do Centro de Pesquisa Psicodélica e da Consciência da Universidade Johns Hopkins.

Debate sobre segurança

Pesquisas clínicas envolvendo algumas dessas substâncias apresentaram resultados promissores. Em estudos avançados patrocinados pela Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies (MAPS), cerca de 71% dos participantes com TEPT grave deixaram de atender aos critérios diagnósticos da doença após sessões de terapia assistida por MDMA.

Mesmo assim, a FDA rejeitou em 2024 um pedido de aprovação para terapia assistida por MDMA, citando preocupações com o desenho do estudo e a necessidade de mais dados.

Enquanto isso, outros países começaram a flexibilizar regras. A Austrália tornou-se, em 2023, o primeiro país a permitir que psiquiatras autorizados prescrevessem MDMA e psilocibina para determinadas condições de saúde mental. Estudos também avançam em Canadá, Suíça e Reino Unido.

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Weiss ressaltou que diferentes substâncias apresentam riscos distintos.

A ibogaína possui riscos cardiovasculares particularmente elevados“, afirmou, defendendo uma análise cuidadosa entre benefícios e riscos de cada composto.

A própria ordem executiva da Casa Branca menciona a aceleração das pesquisas com ibogaína, embora a substância ainda não tenha passado por grandes estudos clínicos nos Estados Unidos e já tenha sido associada a efeitos cardiovasculares potencialmente graves.

Receio de interferência política

Segundo Weiss, parte da preocupação dos pesquisadores não está relacionada à eficácia dos tratamentos, mas ao risco de que a pressão política avance mais rapidamente do que a produção de evidências científicas.

Minha maior preocupação seria um relaxamento dos padrões da FDA por razões políticas“, afirmou.

O presidente-executivo da Compass Pathways, Kabir Nath, rebateu essa preocupação ao afirmar que sua empresa segue os mesmos critérios exigidos para qualquer medicamento avaliado pela FDA.

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Ele disse que a companhia não teria iniciado o processo de aprovação do COMP360 Psilocybin caso considerasse os dados insuficientes.

Tratamentos mais complexos

Até mesmo defensores das terapias psicodélicas reconhecem que os tratamentos são muito mais complexos do que simplesmente tomar um comprimido em casa. Os estudos geralmente envolvem horas de preparação com profissionais de saúde, sessões supervisionadas e acompanhamento posterior.

Os riscos também incluem ataques de pânico, paranoia, aumento da frequência cardíaca e sofrimento psicológico durante as sessões. Em alguns casos, médicos recorrem a medicamentos de resgate, como benzodiazepínicos e antipsicóticos.

Phelan afirmou que sua experiência não se pareceu com intoxicação, mas sim com um processo controlado de enfrentamento de traumas acumulados ao longo dos anos.

Para Juliana Mercer, diretora da organização sem fins lucrativos Healing Breakthrough e veterana do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, a terapia assistida por psicodélicos “mudou completamente” sua vida. “Uma das coisas que essa experiência me proporcionou foi a permissão para me curar“, afirmou.

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Por que agora?

Enquanto a administração Trump promove cortes de pessoal no sistema de atendimento a veteranos e amplia o envolvimento militar com o Irã, alguns veteranos questionam as prioridades do governo.

Críticos afirmam que o momento da ordem executiva é relevante porque ocorre enquanto Trump busca recuperar apoio entre veteranos antes das eleições legislativas de meio de mandato.

Phelan, porém, rejeitou a ideia de que o apoio às terapias psicodélicas se converterá automaticamente em apoio político ao presidente.

Eles fizeram tantos cortes em benefícios e serviços médicos para veteranos. Ótimo, vocês fizeram algo certo. Mas, se a intenção é ganhar apoio político com isso, duvido que funcione“, afirmou.

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Executivos do setor também argumentam que a ordem executiva pode ter impacto imediato menor do que o sugerido pelas manchetes. Empresas como a Compass Pathways já estavam próximas da etapa final dos estudos de fase 3 antes mesmo do anúncio da Casa Branca.

Para Kabir Nath, o principal efeito da medida é sinalizar uma aceitação política mais ampla do setor.

Ela certamente traz um impulso importante, incentivo e validação“, afirmou.

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