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CRISE DE GESTÃO: Família Gerdau comandou empresa em escândalos de contaminação ambiental no Brasil
Publicado 19/08/2026 • 10:03 | Atualizado há 57 minutos
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Publicado 19/08/2026 • 10:03 | Atualizado há 57 minutos
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Há mais de uma década, a Gerdau convive com graves contaminações ambientais em pelo menos duas de suas unidades no Brasil, e em nenhuma delas os líderes da família na gestão da companhia tomaram a iniciativa de tornar pública a extensão do problema.
Em Salvador, o silêncio começou em 2021, quando um laudo da consultoria Arcadis identificou contaminação por nitrato e cobre na região do Terminal Itapuã, na praia de São Tomé de Paripe.
Em Sorocaba, no interior de São Paulo, a planta desativada em 2014 segue sem reabilitação doze anos depois, período em que a Gerdau esteve sob as gestões de Jorge Gerdau Johannpeter, André Bier Gerdau Johannpeter e do atual CEO da companhia, Gustavo Werneck. Nos dois casos, o silêncio só foi rompido por decisão de terceiros, o Ministério Público e a Polícia Federal.

Em contranotificação enviada ao instituto de meio ambiente da Bahia (Inema), a própria Gerdau reconheceu ter conhecimento prévio da contaminação por cobre na região de São Tomé de Paripe, com base no laudo Arcadis de fevereiro de 2021. O ativo em questão é o Terminal Itapuã, operado pela Gerdau por quase 30 anos até a venda para a Intermarítima, em 2022. Gustavo Werneck já ocupava a presidência executiva da companhia desde janeiro de 2018, cargo que mantém até hoje.
As informações vão além da contranotificação. Segundo nota técnica da Intermarítima, citada pelo jornal ‘A Tarde’, laudos apresentados pela própria Gerdau ao Inema, ainda durante o período em que a siderúrgica operava o terminal, já indicavam uma pluma de cobre em água subterrânea avançando em direção à praia. A Intermarítima afirma que a Gerdau garantiu, antes da venda do ativo em 2022, que a remediação daquele passivo havia sido concluída com eficácia, garantia que a atual crise ambiental em Salvador coloca em xeque.
A siderúrgica vendeu o ativo apenas em 2022, um ano depois de identificar o problema internamente, sem tornar pública a extensão da contaminação encontrada pelo laudo que ela mesma encomendou. Passaram-se mais quatro anos até que a Prefeitura de Salvador decretasse emergência ambiental na região.
Consultada pela reportagem, Monica Kruglianskas, professora da FIA Business School, faz uma distinção importante sobre o caso. Segundo ela, vender um ativo com passivo ambiental já identificado não é, por si só, irregular, trata-se de prática comum de due diligence, desde que a informação seja declarada ao comprador.
O problema, na leitura da professora, está em outro ponto, a contaminação segue ativa, e a Lei Federal nº 6.938, de 1981, estabelece que a responsabilidade por dano ambiental está ligada ao problema em si, não ao contrato entre as partes.
A Prefeitura de Salvador decretou situação de emergência na região de São Tomé de Paripe por meio do Decreto nº 41.834, publicado na segunda-feira (8) de junho, com validade inicial de 90 dias. O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia associou a contaminação por metais pesados, entre eles ferro, cobre e zinco, a atividades da Gerdau e da Intermarítima na faixa litorânea.
A Polícia Federal pediu à Justiça Federal da Bahia a indisponibilidade de bens da Gerdau, medida cautelar para garantir eventuais indenizações à população afetada. Um levantamento do Ministério Público da Bahia chegou a apontar cerca de 16 mil atingidos pela contaminação, considerando uma poligonal de 1,3 quilômetro. Até hoje, nenhum órgão público apresentou um cadastro único e consolidado de quantas famílias precisam ser indenizadas.
Reconstituída a partir de registros públicos da própria Gerdau, a linha sucessória de comando ajuda a situar quem estava à frente da companhia em cada momento relevante para os episódios apurados por esta reportagem.
Entre 2007 e 2017, Jorge Gerdau Johannpeter presidia o Conselho de Administração até 2015, enquanto André Bier Gerdau Johannpeter e Cláudio Gerdau Johannpeter ocupavam a co-presidência executiva da empresa. Foi nesse período que a planta de Sorocaba foi desativada, em 2014.
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Siga o Times | CNBCA partir de 2015, com a saída de Jorge da presidência do conselho, André e Cláudio passaram a acumular também a co-presidência do colegiado, mantendo ao mesmo tempo a condução executiva da companhia. Foi no mesmo ano que o Ibama aplicou auto de infração relacionado a passivos ambientais da Gerdau.
Gustavo Werneck assumiu o cargo de CEO em janeiro de 2018 e o mantém até hoje, período que inclui tanto a identificação da contaminação em Salvador pelo laudo Arcadis, em 2021, quanto a venda do ativo à Intermarítima, em 2022. André Bier Gerdau Johannpeter, nesse intervalo, ocupou a vice-presidência do conselho.
Em abril de 2025, André retornou à presidência do Conselho de Administração, substituindo Guilherme Chagas Gerdau Johannpeter, que respondia pelo cargo desde 2020. A mudança ocorreu poucos meses antes de o caso de Salvador chegar ao decreto de emergência e ao pedido de bloqueio de bens pela Polícia Federal, ou seja, André estava de volta ao posto mais alto de governança da companhia justamente quando o silêncio se tornou insustentável.
O problema em Sorocaba também não veio a público por iniciativa da Gerdau. A denúncia teve origem em relato anônimo de um ex-funcionário da companhia, feito em 2014, mesmo ano da desativação da planta. A partir daí, fiscalização da Cetesb constatou contaminação do solo e do lençol freático por metais pesados, hidrocarbonetos de petróleo e fluoreto na região próxima ao Rio Sorocaba, segundo o promotor Jorge Marum, responsável pelo caso no Ministério Público de São Paulo. A Gerdau só passou a se responsabilizar formalmente pelo passivo depois de exigência da Cetesb, e não por iniciativa própria.
A antiga planta foi desativada em 2014, sob a presidência executiva de André Bier Gerdau Johannpeter, e o caso virou ação civil pública movida pelo Ministério Público estadual em 2023, encerrada por acordo judicial no mesmo ano, com a remoção de cerca de 43,5 mil toneladas de solo e resíduos contaminados da área. Mais de uma década depois da desativação, a área segue classificada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo como Contaminada em Processo de Remediação, a chamada ACRe, conforme resposta da Cetesb ao Times Brasil | CNBC.
O acordo judicial de 2023 previa monitoramento até 2025. Segundo a Cetesb, porém, a Gerdau só informou a intenção de solicitar o Termo de Reabilitação até dezembro de 2026, um ano além do prazo original, já sob a gestão de Gustavo Werneck, e os estudos apresentados pela empresa ainda estão em análise pelo órgão ambiental.
Há também uma divergência não resolvida sobre o Rio Sorocaba. Em 2023, a Cetesb afirmava não haver evidência de contaminação no curso d’água. O promotor responsável pelo caso, porém, passou a declarar, em outubro de 2025, que a contaminação chegou ao rio de forma diluída. Questionada pela reportagem sobre essa divergência, a Cetesb respondeu que os dados mais recentes, apresentados pela própria Gerdau, não apontam concentrações acima dos padrões de qualidade aplicáveis ao rio, mas reconheceu que não há, até o momento, manifestação técnica conclusiva do órgão sobre esses resultados.
Enquanto o histórico de silêncio se acumula, a cúpula da Gerdau sinaliza prioridade para fora do Brasil. Em outubro de 2025, a companhia congelou R$ 2,1 bilhões em investimentos planejados no país e decidiu concentrar recursos na expansão da usina de Midlothian, no Texas. Werneck chegou a citar o enfraquecimento da indústria naval brasileira, um dos setores clientes da siderúrgica, como parte do cenário que motiva a reavaliação de prioridades da empresa.
Enquanto sustentava esse silêncio, a companhia seguia buscando reconhecimento público. A Gerdau chegou a conquistar prêmios de ESG e Gustavo Werneck aparece como porta-voz dessas conquistas em nota oficial da empresa, na qual afirma que a Gerdau segue comprometida em impactar positivamente as regiões onde está presente. André Bier Gerdau Johannpeter, por sua vez, descreve a companhia, em material institucional, como uma empresa construída com princípios éticos.
🔍 ESG é a sigla em inglês para Environmental, Social and Governance, conjunto de critérios ambientais, sociais e de governança usado para avaliar práticas corporativas.
A professora da FIA Business School aponta uma fragilidade nos próprios sistemas de premiação em ESG, que avaliam sobretudo o que a empresa reporta, políticas, metas e relatórios, e não necessariamente a extensão de passivos não resolvidos. Segundo ela, se confirmado que a Gerdau tinha conhecimento do passivo e que essa informação foi ocultada de relatórios ao mercado, há indício concreto de falha de governança, independentemente de qualquer decisão judicial futura.
A Gerdau foi procurada pela reportagem e até o momento não se pronunciou oficialmente.
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