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EXCLUSIVO: Gás produzido em Vaca Muerta, na Argentina, pode chegar ao Brasil via Bolívia e Gasbol, diz vice-presidente da Tecpetrol Daniel Valencio

Publicado 07/09/2026 • 15:03 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Vaca Muerta é uma formação geológica de petróleo e gás não convencional localizada principalmente na província argentina de Neuquén.
  • Queda da produção boliviana abriu capacidade em uma infraestrutura que pode ser aproveitada para transportar gás argentino ao mercado brasileiro.
  • Daniel Valencio afirma que Vaca Muerta tem oferta excedente a preços competitivos em relação ao GNL transportado por navios.
  • Viabilidade do corredor dependerá do custo de trânsito pela Bolívia, de contratos firmes de suprimento e das condições regulatórias no Brasil.

Divulgação/Tecpetrol

O gás produzido em Vaca Muerta, formação geológica de petróleo e gás não convencional localizada principalmente na província argentina de Neuquén, pode chegar ao mercado brasileiro aproveitando a rede de gasodutos já existente entre Argentina, Bolívia e Brasil. O movimento reduziria a necessidade de construção de uma nova infraestrutura de longa distância.

Em entrevista exclusiva ao repórter Diego Mezzogiorno, do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC. Daniel Valencio, vice-presidente da Tecpetrol, afirmou que a combinação entre o aumento da produção argentina, o declínio da oferta boliviana e a demanda brasileira cria uma oportunidade de integração energética no Cone Sul.

“Em vez de construir um novo e bilionário gasoduto do zero cruzando o sul do continente, a rota de menor custo utiliza a infraestrutura existente por meio de reversões de fluxo”, afirmou.

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Queda da oferta boliviana abre espaço para gás argentino

A mudança no mercado de gás da região começa pela Bolívia. Segundo Valencio, o esgotamento natural dos campos bolivianos reduziu significativamente os volumes que historicamente eram enviados ao Brasil.

“O declínio da Bolívia deixou a infraestrutura do Gasbol com capacidade ociosa”, afirmou.

Ao mesmo tempo, Vaca Muerta ampliou a produção argentina e passou a gerar excedentes que podem buscar mercados externos.

“A formação de gás de xisto na província argentina de Neuquén tem volume excedente a preços competitivos em comparação com o Gás Natural Liquefeito transportado por navios”, disse.

Esse novo equilíbrio permite inverter a lógica histórica da infraestrutura regional. Ou seja, em vez da Bolívia fornecer gás para Argentina e Brasil, parte da rede passa a funcionar como corredor para o produto argentino.

Rota usa reversão de fluxo até a Bolívia

O desenho começa em Vaca Muerta, na província de Neuquén. O gás segue pela infraestrutura argentina em direção ao norte, utilizando o sistema conectado ao Gasoduto Presidente Néstor Kirchner e ao Gasoduto Norte.

As obras de reversão do Gasoduto Norte permitem que o produto argentino avance em direção à fronteira boliviana, invertendo o sentido pelo qual a Argentina historicamente recebia gás da Bolívia.

“O gás sobe pelo Gasoduto Presidente Néstor Kirchner e acessa o Gasoduto Norte argentino, cujas obras de reversão de fluxo permitem empurrar o insumo em direção ao norte”, afirmou Valencio.

Na etapa seguinte, o gás entra na rede boliviana.

“A YPFB opera como transportadora, cobrando uma tarifa de pedágio”, disse.

Depois de atravessar a Bolívia, o volume pode chegar ao Brasil por Corumbá, em Mato Grosso do Sul, e acessar o Gasbol, seguindo para os mercados consumidores do Centro-Sul e Sudeste.

Indústria brasileira é mercado potencial

Na avaliação da Tecpetrol, o Brasil representa um destino natural para parte do aumento da oferta de Vaca Muerta.

Setores industriais intensivos em energia, como química, fertilizantes, siderurgia e cerâmica, estão entre os potenciais consumidores.

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“A indústria brasileira demanda gás natural contínuo e mais barato para recuperar margem e competitividade”, afirmou Valencio.

Para que essa oportunidade se concretize, porém, o preço do produto na chegada ao consumidor brasileiro precisa continuar competitivo após somados os diferentes custos de transporte. Uma das referências de comparação é o GNL importado por navios.

Tarifa boliviana será decisiva

Valencio apontou o custo de trânsito pela Bolívia como um dos principais elementos para a viabilidade econômica da rota.

“A Bolívia precisa cobrar uma taxa de trânsito competitiva para que o gás não chegue mais caro que o GNL spot no mercado brasileiro”, afirmou.

O preço final também incorpora o transporte dentro da Argentina, o trânsito pela rede boliviana e a utilização da infraestrutura brasileira. Com isso, a vantagem de Vaca Muerta na origem não garante sozinha a competitividade no mercado brasileiro.

Inverno argentino é desafio para fornecimento contínuo

Outro ponto importante é a segurança de abastecimento, uma vez que a demanda argentina aumenta durante o inverno austral, período em que o mercado doméstico ganha prioridade.

Para a indústria brasileira, isso aumenta a importância de contratos que ofereçam previsibilidade.

“Os contratos com importadores brasileiros precisam de cláusulas de firmeza e previsibilidade de entrega”, disse.

Essa questão é importante especialmente para setores que não conseguem interromper facilmente as operações em períodos de maior demanda argentina.

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Gás pode chegar à malha do Sudeste

Uma vez dentro do Gasbol, o gás argentino pode se integrar à infraestrutura que atende os mercados de São Paulo e Rio de Janeiro. Segundo Valencio, isso permite aumentar as alternativas de suprimento para consumidores industriais e térmicas do Sudeste.

A chegada de uma nova fonte também pode tornar o mercado mais flexível, ao permitir a combinação entre gás argentino, produção brasileira e volumes importados de GNL.

O arranjo ainda abre espaço para operações de troca e otimização logística entre diferentes pontos do sistema.

“Isso gera liquidez no mercado”, afirmou Valencio, ao explicar a possibilidade de combinar entregas físicas e volumes equivalentes em diferentes regiões.

Energia está no centro da missão em Buenos Aires

A discussão sobre Vaca Muerta ocorre em meio à Missão Empresarial Argentina e Brasil que reúne mais de 90 companhias na Argentina e no Brasil entre os dias 7 e 11 de setembro. A iniciativa é promovida pela Confindustria e pela ICE-Agência e busca estimular investimentos, parcerias industriais e integração das cadeias produtivas.

Na etapa argentina, a programação reservou espaço para discussões sobre energia, investimentos, indústria, cadeias de valor e a expansão de Vaca Muerta para mercados externos. Além disso, incluiu uma visita técnica à sala de controle das perfurações da Tecpetrol e debates sobre recursos minerais e cadeias estratégicas de valor.

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