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Inteligência Artificial

Transparência: goiano cria sistema gratuito com IA para facilitar fiscalização da gestão pública pela população e quer levar ideia para todo país

Publicado 29/07/2026 • 09:30 | Atualizado há 49 minutos

KEY POINTS

  • Piracanjuba.ai reúne dados de vereadores, servidores e contratos em uma só plataforma gratuita.
  • Inteligência artificial organiza informações antes dispersas em portais oficiais de transparência.
  • Criador planeja expandir modelo para outras cidades de Goiás, como Morrinhos e Goiânia.
Gianluca Ferro - idealizador da plataforma Piracanjuba.ai.

Gianluca Ferro - idealizador da plataforma Piracanjuba.ai.

Piracanjuba.ai reúne dados de vereadores, servidores e contratos em uma só plataforma gratuita

“A Lei de Acesso à Informação tem como objetivo permitir a fiscalização de gastos, contratos e políticas públicas, por cidadãos e organizações, promovendo a transparência e a participação ativa. Mas esse processo nem sempre era tão simples na prática. Pensando em facilitar essa busca e fortalecer a democracia e o controle social, desenvolvi o aplicativo como um serviço à população”, afirmou o goiano Gianluca Ferro, de 35 anos, criador do Piracanjuba.ai.

🔍 Lei de Acesso à Informação (LAI): norma federal, de número 12.527, sancionada em 2011, que obriga órgãos públicos a disponibilizar dados sobre gastos, contratos e políticas para qualquer cidadão que solicitar.

A fiscalização da gestão pública depende, na prática, da capacidade de qualquer cidadão localizar e interpretar esses dados, o que nem sempre acontece com facilidade nos portais oficiais. Foi para reduzir essa distância que Ferro desenvolveu a plataforma, um sistema digital independente e gratuito que organiza, em um único ambiente, dados públicos sobre o município de Piracanjuba, no sul de Goiás.

Utilizando inteligência artificial, o sistema reúne informações que antes estavam dispersas em diferentes portais institucionais, como atuação de vereadores, remuneração de servidores com valores mensais detalhados, arrecadação municipal, emendas parlamentares, além de indicadores das áreas de saúde e educação.

Segundo o criador, embora esses dados já fossem públicos, o acesso era fragmentado e pouco intuitivo, o que dificultava a consulta por parte da população. A proposta da plataforma é transformar esse volume de informações em um repositório organizado, de navegação simples e com links diretos para as fontes oficiais, permitindo que qualquer cidadão acompanhe a gestão pública de forma rápida e verificável.

Ferro não é filiado a partido político e afirma que a iniciativa não tem vínculo com a prefeitura, a câmara municipal ou qualquer órgão governamental. Segundo ele, o projeto nasceu do uso da inteligência artificial para ampliar o acesso à informação pública e fortalecer a participação da população nas decisões do município.

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Um bueiro sem tampa

A motivação para o projeto remonta à época em que Ferro cursava direito na PUC Goiás. Perto da faculdade, um bueiro ficou sem tampa por semanas, ao lado de um ponto de ônibus. Uma senhora idosa caiu no buraco e se feriu antes que o problema fosse resolvido.

Anos depois, já em Piracanjuba, ele presenciou uma mãe cair de moto com o filho pequeno em um buraco que havia meses no meio de uma avenida. Ferro gravou um vídeo, marcou a prefeitura e o buraco foi fechado cerca de 40 minutos depois.

“Essas situações me revoltam porque mostram que o problema muitas vezes não é a falta de conhecimento, mas a falta de prioridade e de cobrança. Foi aí que decidi construir algo que trouxesse à luz informações que normalmente ficam nos bastidores do poder”, afirma.

Formação em direito une burocracia e tecnologia

O trabalho de conclusão de curso de Ferro tratou da responsabilidade civil do Estado em condutas omissivas, tema que se conecta com a atuação profissional dele em consultoria de vistos americanos, na Viaggi Vistos.

“Em ambos os campos existe um desafio semelhante, traduzir a burocracia para uma linguagem que o cidadão consiga compreender e usar”, explica. Segundo ele, a inconformidade com a relação entre o que o cidadão paga em impostos e o que recebe de volta em serviços foi o gatilho para somar essa bagagem jurídica ao conhecimento em inteligência artificial.

A programação e a inteligência artificial foram aprendidas de forma autodidata, a partir da participação em comunidades on-line sobre criptomoedas, metaverso e outras tecnologias emergentes. “Meu modo de aprender sempre foi colocar a mão na massa, testar, errar, ler documentação, desmontar um problema e tentar construí-lo de uma forma melhor”, diz.

Inteligência artificial híbrida organiza os registros

O Piracanjuba.ai não depende de um único modelo de inteligência artificial. Ferro descreve uma arquitetura híbrida, com modelos proprietários de diferentes fornecedores, coleta estruturada, banco de dados, regras determinísticas e cruzamento de registros.

O projeto começou em uma plataforma chamada Lovable e depois migrou para ferramentas como Claude Code, da Anthropic, e Codex, da OpenAI. “A inteligência artificial me auxilia na programação, na normalização de informações, na classificação de documentos, na busca e na identificação de relações que merecem análise. Ela não substitui o documento oficial e não cria os valores publicados. A fonte continua sendo o registro do órgão público”, afirma.

A coleta é predominantemente automatizada, via APIs sempre que disponíveis, ou por raspagem estruturada quando não há interface própria.

🔍 API: sigla para interface de programação de aplicações, mecanismo que permite que sistemas diferentes troquem dados de forma automática e organizada, sem necessidade de intervenção manual.

Segundo Ferro, remunerações de servidores costumam ser sincronizadas mensalmente, enquanto contratos e licitações passam por verificação diária. “Quando uma informação pode sugerir algo grave ou apresenta um valor fora do padrão, faço uma revisão manual antes de destacá-la. O objetivo não é alegar perfeição, mas reduzir o risco, manter rastreabilidade e corrigir rapidamente qualquer inconsistência comprovada”, diz.

Baixo custo mantém o projeto de pé

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A primeira versão funcional do Piracanjuba.ai ficou pronta em menos de uma semana e exigiu pouco mais de R$ 1 mil em investimento inicial. Hoje, os custos diretos de manutenção giram em torno de R$ 200 a R$ 300 por mês, incluindo infraestrutura, bancos de dados e ferramentas de desenvolvimento.

Como referência de escala, Ferro cita o Portal da Transparência de Piracanjuba, que registra o contrato 180/2026, com vigência iniciada em quarta-feira (3 de junho de 2026), no valor de R$ 62,4 mil, para assessoria e consultoria técnica em transparência municipal. “Os objetos não são idênticos, portanto não trato isso como uma comparação perfeita. Ainda assim, o contraste ajuda a mostrar o quanto a tecnologia pode reduzir o custo de criar ferramentas úteis ao cidadão”, pondera.

Anúncios locais substituem doações como fonte de receita

O projeto é bancado integralmente por Ferro. No início, ele abriu espaço para doações espontâneas e recebeu R$ 78 em quatro meses, valor que mostrou não ser uma base previsível de sustentação.

Depois, criou espaço para anúncios locais, mas relata resistência de empreendedores da cidade, de cerca de 25 mil habitantes, em associar a marca a uma iniciativa que pode ser vista, ainda que sem razão, como oposição à administração municipal. “O Piracanjuba.ai não é oposição. É uma fonte independente de informação e fiscalização”, diz.

Atualmente, o anúncio exibido no banner principal da plataforma é de uma empresa do próprio Ferro, o que significa que o projeto não gera receita externa para ele.

Expansão para outras cidades de Goiás

Ferro já trabalha em versões do projeto para outros municípios, batizadas Morrinhos.ai, Goiania.ai e Goias.ai, todas ainda em desenvolvimento. A escolha das cidades parte da percepção de onde há maior necessidade de organizar dados e do conhecimento mais próximo que ele tem sobre cada administração.

“No fundo, essa necessidade existe em praticamente todo o Brasil. O limite hoje é operacional, não tenho equipe. Sou apenas um cidadão comum, trabalhando com a ajuda da inteligência artificial”, afirma.

Ele recebeu contatos de empresários e agentes políticos interessados em levar o modelo a outras cidades, mas ainda não fechou nenhuma parceria. “Qualquer modelo financeiro só faria sentido se preservasse integralmente a independência editorial, a publicação das fontes, a transparência sobre quem financia e a prioridade absoluta do interesse público. Até agora, ainda não encontrei uma proposta que me dê segurança suficiente nesses pontos”, diz.

Qualidade dos portais municipais ainda é obstáculo à fiscalização

Um dos principais gargalos do projeto está na qualidade dos próprios portais de transparência. Na base oficial do Programa Nacional de Transparência Pública de 2025, a prefeitura de Piracanjuba teve índice de 54,24%, classificado como intermediário, e ficou na 231ª posição entre os 246 executivos municipais de Goiás.

Segundo Ferro, depois da repercussão sobre o tema na cidade, o portal municipal foi atualizado e passou a oferecer estruturas melhores para coleta. “Não podemos esperar a situação ideal para começar. Muitas vezes, um trabalho já iniciado ajuda a criar pressão para que a situação ideal se aproxime”, diz.

A plataforma já soma cerca de 300 visitas por dia, o equivalente a aproximadamente 9 mil por mês, desde o lançamento, no fim de janeiro de 2026.

Parcerias reforçam fiscalização em rede

Ferro relata conversas com organizações e observatórios sociais ligados à transparência pública, além de reunião marcada para agosto com a Transparência Internacional Brasil. Ele também participa de um projeto da Libera, rede antimáfia italiana, com trabalho voltado ao cruzamento de bases públicas.

Com tribunais de contas estaduais, segundo ele, ainda não houve aproximação. “De modo geral, tenho encontrado mais abertura na sociedade civil do que na administração pública”, afirma. Da prefeitura de Piracanjuba, diz não ter recebido qualquer contato institucional para conhecer ou aproveitar a iniciativa, mesmo após a repercussão pública.

Cuidados jurídicos evitam acusações indevidas

Ferro afirma que nenhum dado, alerta ou relação exibida na plataforma constitui acusação, prova de ilícito ou conclusão sobre a conduta de alguém. “Um padrão estatístico pode indicar que algo merece ser examinado, mas nunca substitui investigação, contraditório e análise jurídica”, explica.

O sistema preserva fonte, data e contexto de cada registro, e os casos de maior impacto passam por revisão adicional. “Se uma inconsistência for apontada, a postura correta é conferir a fonte, corrigir o que estiver errado e registrar a atualização. Transparência também significa ser transparente sobre limites e correções”, diz.

Sobre a publicação de valores de remuneração de servidores, Ferro cita entendimento do Supremo Tribunal Federal que reconhece como legítima a divulgação, em portal oficial, de nomes e vencimentos. “A IA pode errar, mas ela não é usada para inventar remunerações. Os números vêm dos bancos públicos”, afirma.

Até o momento, Ferro diz não ter recebido notificação extrajudicial nem ordem de retirada de conteúdo, apenas relatos indiretos de pessoas que teriam consultado advogados após a publicação de sua remuneração. “Compreendo o desconforto que a exposição de determinados dados pode causar e respeito o direito à privacidade. Ao mesmo tempo, quando falamos de agentes, remunerações, contratos e recursos públicos, a análise jurídica e social é diferente daquela aplicável à vida estritamente privada”, diz.

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