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Surfwear: o que explica a ascensão, o declínio e a reinvenção do setor

Publicado 21/06/2026 • 21:30 | Atualizado há 22 horas

KEY POINTS

  • O surfwear se transformou em um mercado bilionário entre os anos 1990 e 2000, impulsionado pela popularização do estilo de vida associado ao surfe.
  • A expansão da fast fashion, a ascensão do streetwear e mudanças nos hábitos de consumo reduziram a relevância das marcas tradicionais do setor.
  • Em busca de crescimento, empresas reposicionam produtos e exploram novos públicos, modalidades esportivas e nichos de mercado.

Reprodução

Associado ao estilo de vida praiano, o mercado da moda surfwear já esteve entre os segmentos mais lucrativos da indústria da moda esportiva global.

Marcas como Quiksilver, Billabong, Rip Curl e Hang Loose transformaram o surfe em um fenômeno de consumo que superou os limites das praias e conquistou consumidores que nunca subiram em uma prancha. No entanto, após anos de crescimento acelerado, o setor enfrentou uma forte retração e precisou buscar novos caminhos para manter sua relevância.

Embora o esporte tenha chegado ao Brasil por Santos, foi no Rio de Janeiro, especialmente na Praia do Arpoador, que se firmou como manifestação cultural.

A partir dos anos 1980, esse universo passou a influenciar o mercado da moda, impulsionando a expansão de marcas especializadas. Nos anos 1990 e 2000, o surfwear alcançou seu auge.

O segmento deixou de atender apenas praticantes do esporte e passou a ocupar uma posição de destaque entre osjovens consumidores.

Vestir marcas ligadas ao surfe tornou-se um símbolo de identificação com um estilo de vida associado à liberdade, ao lazer e à cultura californiana.

Nos Estados Unidos, atletas como Kelly Slater e Andy Irons contribuíram para ampliar a visibilidade do setor ao estrelar campanhas publicitárias e firmar parcerias com grandes marcas. Ao mesmo tempo, a aproximação entre os universos do surfe e do skate ampliou ainda mais o alcance comercial dessas empresas.

O fenômeno também ganhou força no Brasil. Marcas nacionais como Hang Loose, Redley e Fico conquistaram espaço em ummercado que se expandia rapidamente. Nos anos 90, os shopping centers eram dominados porlojas especializadas em surfwear.

Nesse período, algumas marcas também passaram a dialogar com as artes marciais. A Bad Boy, por exemplo, nasceu na Califórnia ligada ao surfe, mas se tornou uma importante patrocinadora do jiu-jítsu. O clima tropical brasileiro também favoreceu a expansão desse mercado.

O fenômeno não se limitou ao público masculino. A Roxy, divisão feminina da Quiksilver, conquistou grande destaque e ajudou a ampliar o alcance do segmento.

O crescimento do setor refletiu diretamente nos resultados financeiros das principais empresas do segmento. Em 2005, a Quiksilver registrou uma receita líquida próxima de US$ 769,9 milhões (aproximadamente R$ 3,95 bilhões) em 6 meses, conforme indicado em seu relatório financeiro anual de 2004. Já a Billabong alcançou uma receita líquida de aproximadamenteUS$ 779,32 milhões (R$ 4 bilhões) na cotação da época) em 12 meses, segundo informações do seu relatório financeiro completo de 2005 a 2006.

No Brasil, um estudo publicado pelo do Instituto Brasileiro de Surf (Ibrasurf), em 2002, indicou que a cadeia econômica do surfe movimentava aproximadamente R$ 2 bilhões por ano e era responsável pela geração de cerca de 140 mil empregos.

A moda surfwear possuía forte apelo juvenil e ultrapassava os limites da comunidade surfista. Vestir essas marcas significava transmitir uma imagem de descontração.

Segundo a NSS Magazine, fenômeno semelhante ocorreu na Europa. Estudos sobre a moda jovem apontam que, entre o final dos anos 1990 e o início dos anos 2000, guarda-roupas adolescentes foram dominados por camisetas estampadas com tubarões, pranchas e flores, produzidas por marcas como Billabong e Maui & Sons.

As empresas também investiam fortemente em patrocínios. Além de atletas como Kelly Slater e Andy Irons, apoiavam equipes inteiras eexpandiam sua presença para outras modalidades. A Quiksilver desenvolveu parcerias com grandes nomes do skate, incluindo Tony Hawk.

Outro diferencial estava na produção de conteúdo audiovisual. As marcas destinavam recursos à criação devídeos e fitas VHS relacionados ao surfe.

Equipes de filmagem acompanhavam atletas em viagens para destinos como Indonésia e Havaí. Embora essas produções raramente gerassem lucro direto, fortaleciam a imagem do estilo de vida surfista e funcionavam como uma ferramenta de marketing.

Mudança de mercado

Na última década e meia, porém, o cenário mudou. O crescimento do fast fashion aumentou a concorrência ao oferecer peças inspiradas na estética surfwear (como bermudas, camisetas estampadas e roupas com temática tropical) por preços inferiores aos praticados pelas marcas tradicionais do segmento.

Outro fator importante foi a mudança de preferência entre os jovens. O estilo de vida associado ao surfe perdeu espaço para referências urbanas. O público que antes consumia surfwear passou a demonstrar maior interesse pelo streetwear e por marcas ligadas à cultura do skate, como a Vans.

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Além disso, durante os anos 2000, várias empresas do setor abriram capital na bolsa ou foram adquiridas por fundos de investimento. A pressão por crescimento acelerado levou à expansão da produção. As roupas deixaram de transmitir exclusividade e passaram a ocupar prateleiras em larga escala.

Propaganda da Billabong com Andy Irons. Reprodução / Instagram

O design também enfrentou dificuldades para acompanhar as mudanças culturais. Estampas com coqueiros, hibiscos e referências tropicais continuaram dominando as coleções por anos. Enquanto marcas de streetwear renovavam constantemente suas propostas visuais, boa parte do surfwear permaneceu presa a fórmulas consagradas do passado.

Em fevereiro de 2025, mais de 100 lojas da Billabong, Volcom e Quiksilver encerraram suas atividades nos Estados Unidos, resultando na demissão de aproximadamente 1,4 mil funcionários.

A Liberated Brands, responsável pela operação dessas marcas, também entrou com pedido de falência após registrar prejuízo de 12,5 milhões de dólares. A empresa atribuiu parte das dificuldades ao crescimento da fast fashion e às mudanças no comportamento do consumidor.

Novos caminhos

Diante da retração do mercado tradicional, parte do setor se reinventou passou a diversificar sua atuação. Modalidades como beach tennis, futevôlei e skate tornaram-se alternativas para empresas que buscavam novos públicos.

Eventos multiesportivos ligados ao universo praiano também ganharam relevância como plataformas de divulgação. Eventos como o Mormaii Beach Festival exemplificam essa estratégia ao reunir diferentes esportes de praia e atrair novos consumidores.

No Brasil, um movimento específico chamou a atenção. Durante os anos 2000 e 2010, marcas historicamente associadas ao surfe, como Oakley, Cyclone, Hurley, Rip Curl e MCD, conquistaram espaço na cultura urbana periférica, especialmente entre jovens ligados ao funk e à moda de rua.

Peças como moletons da Cyclone e óculos da Oakley passaram a ocupar um papel de destaque em estilos conhecidos popularmente como “mandrake” e “chavoso”.

O fenômeno representa uma mudança relevante no perfil do consumidor. Durante décadas, o surfwear esteve associado às classes mais altas. Atualmente, enquanto parte dessas classes migrou para grifes internacionais ou para o streetwear minimalista, muitos consumidores da periferia mantiveram essas marcas relevantes e ajudaram a preservar sua presença.

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