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O vermelho que virou ativo: como Valentino transformou moda em império de luxo
Publicado 19/01/2026 • 19:24 | Atualizado há 8 meses
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Publicado 19/01/2026 • 19:24 | Atualizado há 8 meses
KEY POINTS
Christophe Archambault / AFP
Imagem de arquivo. O estilista italiano Valentino Garavani chega ao evento "Karl For Ever", em homenagem ao falecido estilista alemão Karl Lagerfeld, no Grand Palais, em Paris, em 20 de junho de 2019.
A morte do estilista Valentino Garavani encerrou a biografia de um costureiro que dominou tapetes vermelhos e vestiu a elite global por décadas. Mas, para o mercado do luxo, o que ficou não foi só uma assinatura estética, e sim um ativo. Uma marca que aprendeu cedo a converter desejo em escala e que, no fim da vida do fundador, já atravessava um capítulo corporativo típico do setor: acionistas poderosos, pressão de margem, transição criativa e uma decisão societária capaz de redesenhar o portfólio da Kering.
A história começou antes do “império” existir. No fim dos anos 1950, Valentino abriu sua casa em Roma, apostando num luxo italiano que ainda buscava espaço num mundo dominado por Paris. O salto de reputação veio rápido. Ao longo dos anos 1960, ele conquistou uma clientela internacional e passou a ser associado a uma ideia de glamour sem esforço, com vestidos de festa que viraram uniforme informal de primeiras-damas, estrelas e realeza.
Foi nesse ponto que o negócio começou a ganhar forma. Valentino entendeu que a alta-costura, sozinha, não sustentava crescimento contínuo. Ela construía prestígio, mas nem sempre caixa. A saída, que depois viraria manual do luxo, foi ampliar o alcance da marca para além do ateliê. A maison entrou no jogo do prêt-à-porter e, mais tarde, fortaleceu as categorias que realmente movem o setor: acessórios e beleza. Não por acaso, décadas depois, fragrâncias e cosméticos seguiram como motor relevante para casas de moda.
O outro pilar dessa construção apareceu com nome e sobrenome. Giancarlo Giammetti, parceiro de vida e de negócios, tornou-se a engrenagem empresarial que ajudou a organizar a marca e sustentar a expansão. No luxo, esse tipo de dupla costuma ser decisivo: criatividade na vitrine e gestão no bastidor.
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Depois veio o sinal mais conhecido da marca. O “Valentino red” não foi apenas uma cor bonita. Virou um identificador imediato, repetido por décadas e reconhecido como referência cultural. Em termos de negócios, era o tipo de ativo intangível que vale ouro, porque reduz a necessidade de explicar a marca o tempo todo. Um vestido vermelho podia “entregar” Valentino à distância.
A partir dos anos 1990, a história mudou de natureza. O criador passou a dividir o palco com o capital. Em 1998, a marca foi vendida e iniciou um período de trocas de controle que se tornaria comum no luxo europeu. Em 2012, o ativo entrou na órbita do Catar. A Mayhoola assumiu a Valentino e acelerou o projeto de expansão global, com mais lojas e investimento em infraestrutura e e-commerce.
Enquanto isso, Valentino saiu de cena. Ele se aposentou em 2008, mas o negócio seguiu, agora dependente de um desafio que só cresceu no luxo: manter relevância sem o fundador na linha de frente.
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Siga o Times | CNBCNos anos seguintes, a marca atravessou novas transições criativas, até anunciar Alessandro Michele como diretor criativo para puxar uma fase de renovação e reconectar a maison a uma cultura pop que havia mudado de endereço.
A virada mais importante, porém, veio do lado societário. Em 2023, a Kering comprou 30% da Valentino por 1,7 bilhão de euros e entrou como acionista relevante, com um acordo que previa opções para avançar no controle no futuro. O movimento foi lido como estratégico: a Kering buscava diversificar e somar mais um nome forte do luxo italiano, enquanto a Valentino ganhava um sócio com experiência em escala global.
Só que 2024 foi um teste duro. A Valentino reportou receita de 1,31 bilhão de euros e viu o EBITDA operacional cair 22%, para 246 milhões de euros, refletindo um momento mais fraco do luxo e pressões de rentabilidade.
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Em novembro de 2025, Mayhoola e Kering acordaram uma injeção de 100 milhões de euros após violação de covenants de empréstimo, um sinal claro de que a marca precisou reforçar o caixa e reorganizar sua estrutura financeira.
Com a morte de Valentino, o que mudou foi o simbolismo, não a operação. A maison continuou sendo uma companhia com agenda de empresa, com objetivo de recuperar margens, atravessar um ciclo de consumo mais seletivo, consolidar uma nova fase criativa e decidir qual seria seu destino acionário.
Foi um roteiro em que o luxo revelou o que realmente era por trás do brilho. Não apenas moda, mas uma indústria onde reputação vira balanço e, às vezes, cor vira patrimônio.
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