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Sob Lula, política fiscal ganha peso no cenário de juros altos e inadimplência empresarial explode

Publicado 27/09/2026 • 13:01 | Atualizado há 12 minutos

KEY POINTS

  • Política fiscal do governo Lula, com estímulos à renda, ao consumo e ao crédito, entrou no debate sobre a manutenção dos juros elevados por seu possível impacto sobre a demanda e a inflação
  • Inadimplência empresarial alcança 9,2 milhões de companhias e soma cerca de R$ 239 bilhões em dívidas vencidas, com micro e pequenas empresas concentrando 95% dos casos
  • Juros altos encarecem financiamentos, pressionam o caixa das empresas e contribuem para o avanço das recuperações judiciais em setores como indústria, agropecuária, construção e logística.
Fiscal

Arte - Times Brasil

A combinação entre uma política fiscal voltada à sustentação da renda, do consumo e do crédito, a inflação ainda resistente e os juros elevados tem ampliado a pressão sobre empresas brasileiras já endividadas. Enquanto o governo Lula adota medidas de estímulo à atividade econômica, o Banco Central mantém uma política monetária restritiva para conter a demanda e os preços.

Nesse ambiente, o custo do crédito aumentou, a inadimplência empresarial avançou e mais companhias passaram a recorrer à recuperação judicial.

Segundo a Serasa Experian 9,2 milhões de empresas estavam inadimplentes, com cerca de R$ 239 bilhões em dívidas vencidas. A maior parte do problema está concentrada entre micro e pequenos negócios: 8,7 milhões de empresas desse grupo tinham pagamentos atrasados, somando aproximadamente R$ 206 bilhões.

Política fiscal entra no centro da discussão sobre os juros

A condução das contas públicas passou a ocupar posição relevante no debate sobre a trajetória da Selic. Medidas que elevam a demanda podem dificultar uma desaceleração mais rápida da inflação e, consequentemente, adiar cortes mais intensos nos juros.

A preocupação está no efeito combinado das políticas econômica e monetária. Enquanto o governo utiliza gastos públicos e instrumentos de estímulo para apoiar a atividade, o Banco Central procura reduzir a pressão sobre os preços por meio de juros elevados.

Quando a demanda cresce acima da capacidade de produção da economia, aumenta o risco de novas pressões inflacionárias, o que pode levar a autoridade monetária a manter a Selic em níveis mais altos. Segundo a Veja, o próprio Banco Central chamou atenção para estímulos capazes de elevar a demanda agregada acima do potencial de crescimento da economia.

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Empresas acumulam quase R$ 240 bilhões em dívidas vencidas

O impacto aparece nos indicadores de inadimplência. As 9,2 milhões de empresas com contas atrasadas acumulavam cerca de R$ 239 bilhões em débitos, segundo a Serasa Experian.

Micro e pequenas empresas representavam 95% dos negócios inadimplentes. A concentração mostra maior vulnerabilidade desse segmento, que geralmente dispõe de menor reserva financeira e enfrenta condições mais restritas para obter ou renegociar crédito.

O número de empresas submetidas a processos de recuperação também aumentou. Das 6.341 companhias nessa situação citadas no levantamento, 3.106 eram de médio porte, 2.400 eram micro ou pequenas e 835 eram grandes empresas.

Recuperação judicial avança em diferentes setores

A deterioração financeira alcançou diversas áreas da economia. A indústria de transformação reunia 1.241 empresas em recuperação, enquanto a agropecuária contabilizava 1.110. Construção aparecia com 645 casos, e transporte e logística, com 557.

Grandes companhias também passaram por processos de renegociação de dívidas. A Casas Bahia, Marabraz, Grupo Pão de Açúcar, Raízen e Braskem.

A Marabraz entrou com pedido de recuperação judicial para renegociar cerca de R$ 140 milhões. A Braskem, por sua vez, iniciou uma recuperação extrajudicial envolvendo mais de R$ 50 bilhões em dívidas.

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Foram registradas 292 decretações de falência entre janeiro e abril, segundo os números apresentados pela publicação, o maior resultado para o período desde o início da série histórica, em 2012.

Endividamento começou a crescer no período de crédito barato

Parte da situação atual foi construída durante os anos de juros mais baixos. A Selic caiu de 13% ao ano, no início de 2017, para 6,5% em março de 2018 e, durante a pandemia de Covid-19, chegou a 2%.

Com crédito mais barato, empresas ampliaram a contratação de empréstimos. O volume de concessões para pessoas jurídicas passou de aproximadamente R$ 1,3 trilhão, em 2017, para cerca de R$ 2 trilhões em 2020.

A dificuldade surgiu quando os juros voltaram a subir. Como parte dos contratos tinha remuneração pós-fixada, as despesas financeiras aumentaram junto com a Selic, tornando dívidas anteriormente administráveis mais pesadas para o caixa das empresas.

Inflação provocou mudança na trajetória da Selic

A reabertura da economia depois da fase mais crítica da pandemia trouxe uma recuperação rápida da demanda, enquanto cadeias produtivas e fornecedores ainda operavam com limitações. Esse desequilíbrio contribuiu para elevar os preços e levou o Banco Central a iniciar um ciclo de aumento dos juros.

Quando Luiz Inácio Lula da Silva iniciou seu terceiro mandato, em janeiro de 2023, a Selic estava em 13,75% ao ano. Posteriormente, a taxa chegou a 15%.

O aumento teve como objetivo desacelerar o consumo e o crédito, reduzindo as pressões inflacionárias. Para as empresas, porém, o efeito foi o encarecimento do financiamento e das dívidas já contratadas.

Custo financeiro aperta o caixa das companhias

Algumas linhas de crédito empresarial passaram a apresentar taxas anuais entre 18% e 30%. Quanto maior o custo dos financiamentos, maior a parcela da receita destinada ao pagamento de juros. Isso reduz o dinheiro disponível para salários, fornecedores, investimentos e demais despesas operacionais.

O problema é especialmente relevante para empresas que trabalham com margens menores. Mesmo negócios que mantiveram vendas e faturamento podem enfrentar dificuldades quando as despesas financeiras crescem mais rapidamente que a geração de caixa.

Bancos aumentam exigências nas renegociações

O crescimento da inadimplência também tornou o sistema financeiro mais cauteloso. Empresas que buscam novos empréstimos ou tentam renegociar dívidas passaram a enfrentar exigências mais elevadas de garantias, como imóveis e equipamentos.

Para companhias que já chegam às negociações com patrimônio comprometido, essa restrição reduz as alternativas disponíveis. Quando não há acordo com os credores, a recuperação judicial ou extrajudicial pode se tornar uma saída para reorganizar os pagamentos.

Esses processos permitem negociar prazos e condições, mas não solucionam automaticamente dificuldades de caixa ou problemas operacionais.

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