Presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus defendeu crédito, incentivos e política pública-privada para acelerar a renovação da frota.
Roberto Cortes disse que o setor de caminhões e ônibus depende diretamente do desempenho da economia, do custo do frete e da rentabilidade dos transportadores. Em momentos de alta do diesel e instabilidade internacional, disse, esses fatores ficam pressionados.
Executivo disse que o Brasil pode ser vitrine em biocombustíveis, biometano e eletrificação, mas ainda enfrenta juros altos e infraestrutura precária.
A frota antiga de caminhões no Brasil encarece o transporte, reduz a produtividade, aumenta emissões e exige uma política estruturada de renovação, afirmou Roberto Cortes, CEO e presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus.
Em entrevista ao TIMES | CNBC Parlatório Talks, Cortes disse que o setor de caminhões e ônibus depende diretamente do desempenho da economia, do custo do frete e da rentabilidade dos transportadores. Em momentos de alta do diesel e instabilidade internacional, disse, esses fatores ficam pressionados.
“O setor de caminhões e ônibus tem uma dependência muito grande de economia, de frete, de rentabilidade dos transportadores. Com a crise, esses três fatores estão sendo fortemente afetados”, afirmou.
O executivo disse que medidas compensatórias para aliviar custos são necessárias, mas defendeu que a solução de longo prazo passa por ganho de eficiência, renovação da frota e melhora da infraestrutura.
Cortes afirmou que a frota brasileira de caminhões é “realmente velha” e tem idade média duas vezes superior à observada nos Estados Unidos e na Europa.
Segundo ele, cerca de 300 mil caminhões em circulação no país têm mais de 20 anos. A maior parte desses veículos está nas mãos de caminhoneiros autônomos.
“São caminhões que poluem, não são produtivos, caminhões antigos”, disse.
Para o presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus, renovar essa frota seria uma forma direta de reduzir o custo Brasil e o custo do frete.
“Seria a fórmula ideal para tornar o custo logístico muito mais acessível. Você vai ter caminhões que produzem mais, são mais produtivos, consomem menos, poluem bem menos e causam menos acidentes”, afirmou.
Cortes defendeu uma política pública-privada para viabilizar a troca dos veículos mais antigos. O principal entrave, segundo ele, é o crédito para o caminhoneiro autônomo.
Hoje, afirmou, o próprio caminhão costuma ser a garantia real do financiamento. Como o veículo também é o instrumento de trabalho do autônomo, a concessão de crédito fica mais difícil.
“O caminhão é a garantia real do empréstimo e é o ganha-pão do autônomo caminhoneiro”, disse.
Diesel e novas tecnologias
Ao comentar a pressão sobre o diesel, Cortes afirmou que o Brasil tem condições de se tornar uma vitrine global em alternativas de descarbonização para o transporte pesado.
Segundo ele, o país tem vantagens específicas em biocombustíveis, biodiesel, diesel vegetal, biometano e gás, além de avançar no desenvolvimento de caminhões e ônibus elétricos.
“O Brasil está se tornando uma vitrine para toda essa nova tecnologia, principalmente relacionada aos biocombustíveis”, afirmou.
Para Cortes, crises internacionais podem reforçar a vantagem competitiva brasileira ao chamar atenção para alternativas energéticas disponíveis no país.
“São momentos como esses que chamam atenção ao mundo e mostram o que nós temos aqui disponível”, disse.
O executivo afirmou que o caminhão do futuro será limpo, digital e autônomo. No caso brasileiro, disse, a transição deve combinar diferentes tecnologias, e não depender apenas do veículo elétrico.
Segundo Cortes, novas tecnologias ainda têm custo mais alto e, por isso, precisam de incentivos para ganhar escala. Ele citou o caso dos veículos elétricos, que hoje custam cerca de duas vezes mais que um modelo a combustão, embora tenham ganho de produtividade pelo menor custo de energia.
“O veículo elétrico é uma opção bastante interessante, principalmente em aplicações urbanas”, disse.
Infraestrutura limita avanço
Cortes também apontou a infraestrutura rodoviária como um dos principais gargalos do setor. Segundo ele, apenas 12% das rodovias brasileiras estão em boas condições.
O problema é mais relevante porque o Brasil depende fortemente do transporte sobre rodas. O executivo afirmou que 65% das mercadorias são transportadas por rodovia e que 90% das pessoas que usam transporte público utilizam ônibus.
“É um país rodoviário, um país que depende de rodovias”, disse.
Na avaliação dele, falta prioridade para o tema. Cortes defendeu privatizações e parcerias público-privadas como instrumentos para ampliar a qualidade da malha viária.
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“Está faltando projeto, prioridade. Por isso a gente fomenta a privatização e as parcerias público-privadas”, afirmou.
Expansão internacional
O presidente da Volkswagen Caminhões e Ônibus disse que a prioridade da empresa no Brasil é manter a liderança de mercado com rentabilidade. Como crescer participação no país custa caro, afirmou, a estratégia passa também pela expansão internacional.
Segundo Cortes, a companhia quer replicar em outros mercados o modelo construído no Brasil, com marca, produto, rede de distribuição e serviços adaptados a cada país.
“O que nos resta é crescer fora do Brasil”, afirmou.
A Volkswagen Caminhões e Ônibus já está presente em cerca de 30 países, com gestão a partir do Brasil. A empresa mira crescimento em mercados como Argentina, México, Chile, África e Oriente Médio.
“Nosso objetivo estratégico é crescer em outros lugares do mundo”, disse.
Cortes afirmou que a expansão será feita com responsabilidade financeira, já que cada novo mercado exige investimento em produto, rede, serviços e suporte ao cliente.
Juros travam o setor
O crédito também aparece como obstáculo para o mercado doméstico. Segundo Cortes, cerca de 90% dos caminhões e ônibus vendidos no Brasil são financiados.
Com a taxa básica de juros elevada e spreads que podem levar o custo final do financiamento a cerca de 20%, a compra de veículos novos fica mais difícil.
“Para justificar uma compra com uma taxa básica de 14,75%, que jogando spread pode chegar a 20%, fica uma equação muito difícil”, afirmou.
Segundo ele, o setor de caminhões e ônibus encolheu 25% em janeiro e fevereiro, embora tenha mostrado alguma melhora em março com programas de incentivo.
Cortes defendeu mecanismos de financiamento mais competitivos para máquinas, equipamentos e renovação de frota, considerando a dependência do país do transporte rodoviário.
IA, conectividade e segurança
O executivo afirmou que a inteligência artificial já impacta o setor em diferentes áreas, do desenvolvimento de produtos ao controle da operação dos veículos e ao pós-venda.
Segundo ele, a Volkswagen Caminhões e Ônibus utiliza dados e conectividade para aumentar a eficiência dos caminhões e reduzir paradas.
“A obsessão é que o caminhão rode, gaste pouco combustível e entregue bastante mercadoria”, disse.
Cortes citou o uso de tecnologia para manutenção preventiva. Em uma viagem de São Paulo a Manaus, por exemplo, sistemas conectados podem antecipar a necessidade de peças e reduzir o tempo de parada.
“Um caminhão uma hora parado é dinheiro jogado fora”, afirmou.
Na segurança, ele disse que a tecnologia ajuda no gerenciamento de rotas e frotas, mas reconheceu que o Brasil ainda precisa avançar muito.
Cortes afirmou que a agenda ESG tem peso crescente no setor de caminhões e ônibus. No eixo ambiental, voltou a defender a renovação da frota como medida central.
Segundo ele, caminhões novos no Brasil já têm níveis de emissões equivalentes aos modelos europeus. O problema está nos veículos muito antigos ainda em circulação.
“Um caminhão Euro Zero equivale a 50 caminhões novos em termos de poluição”, afirmou.
Para o executivo, substituir caminhões com décadas de uso traz ganhos ambientais, sociais e econômicos ao mesmo tempo.
“Por isso a gente advoga a renovação de frota, além de segurança e produtividade”, disse.
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