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Como as cartas de Pokémon se transformaram em ativos milionários e criaram uma indústria de colecionismo

Publicado 20/08/2026 • 21:30 | Atualizado há 2 horas

KEY POINTS

  • 30 anos após o lançamento, Pokémon TCG se tornou um mercado global de colecionáveis.
  • Cartas raras já alcançam milhões de dólares, como a Pikachu Illustrator vendida por US$ 16,5 milhões.
  • Nostalgia, escassez e conservação impulsionam o mercado, que também atrai investidores e celebridades.

Foto: Getty Images

Uma carta que cabia no bolso passou a disputar espaço com relógios, obras de arte e outros itens colecionáveis de alto valor. O mercado de Pokémon TCG transformou ilustrações impressas em ativos que podem valer milhares, centenas de milhares e, em casos extremos, milhões de dólares.

Em fevereiro de 2026, uma carta Pikachu Illustrator pertencente ao influenciador Logan Paul foi vendida por US$ 16,5 milhões em um leilão da Goldin Auctions. O negócio estabeleceu um recorde para uma carta de Pokémon e, segundo a Associated Press, também para qualquer carta colecionável vendida em leilão.

O mais impressionante é que essa mesma carta havia sido adquirida por Paul em 2021 por US$ 5,2 milhões. Em cinco anos, o objeto passou de um recorde a outro e ajudou a mostrar como o mercado de cartas Pokémon deixou de ser apenas um hobby infantil para se transformar em uma indústria global de colecionismo.

Como nasceu o Pokémon TCG

O Pokémon Trading Card Game foi lançado no Japão em outubro de 1996, inspirado no universo criado nos videogames da franquia Pokémon. A proposta combinava duas atividades: colecionar os personagens e utilizá-los em batalhas estratégicas.

A expansão internacional veio depois. O jogo chegou à América do Norte e à Europa em 1999, e o primeiro Campeonato Mundial de Pokémon TCG foi realizado em 2004.

No início, a lógica era simples: os jogadores compravam pacotes, abriam os envelopes e montavam seus baralhos. Algumas cartas eram comuns e outras mais difíceis de encontrar. A escassez já fazia parte do produto, mas ainda estava muito distante da sofisticação financeira que existe hoje visto que o objetivo principal na época era apenas jogar e colecionar.

As cartas tinham diferentes níveis de raridade, e algumas chamavam mais atenção por apresentarem Pokémon populares, ilustrações especiais ou menor quantidade de exemplares. O Charizard, por exemplo, rapidamente se tornou um dos grandes objetos de desejo entre os colecionadores, assim como o Blastoise.

O que ninguém imaginava era que algumas dessas cartas, décadas depois, seriam tratadas como peças históricas.

Quando uma carta deixou de ser apenas uma carta

O mercado ganhou uma nova dimensão quando três características começaram a se combinar: nostalgia, escassez e conservação.

Uma carta antiga não vale muito simplesmente porque é velha. Ela precisa reunir fatores como raridade, procura, condição física, edição, idioma, erros de impressão, procedência e, em alguns casos, uma história única. É aí que entra o chamado grading.

Empresas especializadas avaliam a autenticidade e o estado de conservação das cartas, atribuindo notas. Uma carta aparentemente igual a outra pode alcançar preços completamente diferentes dependendo de sua condição e da quantidade de exemplares existentes naquela classificação.


O fenômeno ganhou força especialmente entre pessoas que cresceram com Pokémon nos anos 1990 e passaram a ter maior poder de compra na vida adulta.

Um estudo citado pela Axios mostra o tamanho dessa transformação: as cartas de Pokémon representaram 43% de todas as cartas avaliadas pela PSA em 2023, contra 17% em 2018, um aumento significativo. Ou seja, o mercado deixou de ser formado apenas por crianças trocando cartas. Adultos, colecionadores profissionais, investidores e celebridades passaram a disputar os mesmos objetos, transformando esse mercado em algo que passou a ir muito além de batalhas entre amigos.

Segundo a OLX, uma das maiores plataformas de compra e venda do Brasil, o interesse por cartas de Pokémon TCG cresceu 130% em 2025.

O primeiro grande combustível: nostalgia

O lançamento de Pokémon GO, em 2016, foi um dos principais catalisadores da nova onda de interesse. O jogo para celulares colocou Pokémon novamente no centro da cultura pop e trouxe a franquia para uma geração que já conhecia os personagens e outra que estava descobrindo a marca.

O aumento meteórico de jogadores acelerou novamente durante os períodos de isolamento da pandemia. Mas outro acontecimento ajudou a transformar o fenômeno em espetáculo: o envolvimento de grandes influenciadores.

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Em 2020, Logan Paul transmitiu ao vivo a abertura de uma caixa de cartas Pokémon. O evento colocou o chamado box break, a abertura pública de produtos lacrados, diante de milhões de espectadores e ajudou a alimentar uma nova onda especulativa: a carta deixou de ser apenas um item guardado no álbum, ela virou conteúdo. E, posteriormente, passou a ser apresentada também como investimento.

O Charizard de US$ 420 mil

Um dos exemplos mais conhecidos é o Charizard Holográfico da Base Set de 1999, 1ª edição e sem sombra. Uma unidade em condição excepcional foi vendida por US$ 420 mil em um leilão da PWCC em 2022. A venda estabeleceu, naquele momento, um recorde para um Charizard e entrou para a história do mercado de Pokémon TCG.

A carta pertence a uma das primeiras gerações do jogo em inglês, possui uma combinação específica de edição e impressão e foi preservada em condição extremamente rara.

Milhões de cartas podem ter sido impressas, mas poucas permanecem décadas depois praticamente intactas.

O Pikachu que virou ativo de US$ 16,5 milhões

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Se o Charizard representa o ícone clássico do mercado, o Pikachu Illustrator representa sua versão mais extrema. A carta foi criada em 1998 para um concurso de ilustração no Japão. Apenas algumas dezenas de exemplares são conhecidas, e a versão de Logan Paul tinha classificação PSA 10, a nota máxima.

Em 2021, Paul adquiriu a carta por US$ 5,275 milhões, estabelecendo um recorde para uma carta Pokémon em venda privada. Em fevereiro de 2026, ele colocou o item novamente em leilão. O resultado foi US$ 16,5 milhões.

O comprador foi A.J. Scaramucci, investidor e filho do financista Anthony Scaramucci. O negócio foi certificado pelo Guinness World Records como o maior valor já pago por uma carta colecionável em um leilão, recorde esse que ainda não foi superado.

Logan Paul recebe certificado do Guinness ao concluir a venda para AJ Scaramucci (Foto: Goldin)

O caso também mostra como o mercado funciona: o valor de um objeto raro não é necessariamente determinado por seu custo de produção, mas pela combinação entre escassez, demanda, autenticidade, conservação, reputação e disposição dos compradores em competir por aquela peça.

O mercado de cartas Pokémon funciona como uma bolsa?

Não exatamente. E essa diferença é importante. Cartas Pokémon não têm uma cotação única e oficial como uma ação negociada em bolsa. O preço é formado por transações reais, leilões, marketplaces, raridade, condição e demanda. Uma carta pode custar US$ 10 em uma condição e centenas ou milhares de dólares em outra.

O grading se tornou, por isso, uma espécie de infraestrutura de confiança do mercado. A certificação ajuda muitos compradores e vendedores a reduzir a assimetria de informação sobre autenticidade e conservação.

Isso também criou um mercado secundário sofisticado: colecionadores compram cartas, enviam para avaliação, aguardam a classificação e depois podem revendê-las.

Em 2025, a PSA avaliou 19 milhões de cartas, segundo dados citados em reportagem publicada em agosto de 2026. O número ajuda a dimensionar a escala atingida pelo setor.

A carta moderna também pode valer milhares

O mercado não é formado apenas por peças dos anos 1990. Novas expansões são lançadas regularmente e algumas cartas modernas alcançam valores relevantes pouco depois de chegar às lojas. A lógica, porém, é diferente da das peças históricas.

Nos lançamentos recentes, o preço costuma depender muito da popularidade do Pokémon, da raridade, da estética da ilustração, da quantidade disponível e da demanda entre colecionadores. Isso cria uma dinâmica curiosa: a empresa imprime novas cartas em escala industrial, enquanto o mercado secundário tenta descobrir quais delas poderão se tornar raridades no futuro.

Para o colecionador, abrir um pacote funciona quase como uma pequena caça ao tesouro. Para o mercado, cada nova coleção cria milhares de novos ativos potenciais, embora apenas uma pequena parcela alcance valores realmente elevados.

Mas também existe risco

A transformação das cartas em ativos não significa que qualquer Pokémon antigo seja um investimento. O mercado é altamente segmentado e pode sofrer oscilações importantes. A produção de novas cartas, mudanças na demanda, falsificações, aumento da população de cartas graduadas e comportamento especulativo podem afetar os preços.

O crescimento do grading, por exemplo, aumenta a transparência, mas também cria uma enorme quantidade de informações sobre quantas cópias de determinada carta receberam notas altas. Além disso, o mercado já enfrentou problemas de fraude. Em 2026, um caso envolvendo manipulação de cartas e certificados da PSA expôs os riscos existentes em um setor no qual autenticidade e conservação são fundamentais.

Por isso, apesar de algumas cartas terem apresentado valorizações extraordinárias, não existe garantia de que uma carta comprada hoje se valorizará amanhã.

E onde entra a Nintendo?

O Pokémon TCG não é simplesmente um produto “da Nintendo”. A franquia é administrada por uma estrutura corporativa que envolve Nintendo, Creatures e GAME FREAK.

A The Pokémon Company foi criada originalmente por essas três empresas. Segundo a própria companhia, a Creatures é responsável pelo desenvolvimento do Pokémon Trading Card Game, enquanto a Nintendo atua, entre outras áreas, na fabricação e comercialização dos videogames Pokémon.

A The Pokémon Company, por sua vez, administra o negócio global da marca, incluindo o Trading Card Game, videogames, aplicativos, licenciamento, lojas oficiais e outras atividades. Isso significa que a Nintendo está profundamente ligada ao ecossistema Pokémon, mas não deve ser tratada como a única empresa responsável pelas cartas.

Na prática, o TCG funciona como uma das grandes engrenagens da estratégia de propriedade intelectual de Pokémon. Videogame, anime, cartas, produtos licenciados, eventos e aplicativos reforçam uns aos outros.

O próprio TCG já ultrapassou a lógica física. Em 2024, a Pokémon Company lançou Pokémon TCG Pocket, uma versão digital desenvolvida pela Creatures e pela DeNA, permitindo colecionar cartas digitais e abrir dois pacotes gratuitos por dia.

De brinquedo a ativo de colecionador

Trinta anos depois de seu lançamento, o Pokémon TCG vive uma contradição interessante. A venda milionária da carta Pikachu Illustrator em 2026 é o exemplo extremo dessa transformação. Uma carta criada para um concurso infantil em 1998 acabou sendo negociada por um valor comparável ao de obras de arte e outros objetos raros.

O fenômeno ajuda a explicar por que o Pokémon TCG se tornou muito mais do que um jogo. E a história ainda está sendo escrita: em 2026, ano em que o Pokémon TCG completa 30 anos, a franquia prepara uma expansão comemorativa com lançamento global simultâneo em setembro.

Pokémon TCG não é mais apenas um jogo de cartas. É um investimento.

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