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Sem sinal fiscal, incerteza aumenta e pressão sobre Lula escala após reeleição

Publicado 29/10/2026 • 21:31 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • Ibovespa perdeu os 170 mil pontos nesta quinta-feira (29), enquanto o dólar fechou a R$ 5,3878 em mais um dia de cautela após a eleição.
  • Henrique Meirelles afirma que cumprir o arcabouço fiscal “sem truques” já seria um primeiro passo para reduzir a desconfiança dos investidores.
  • Especialistas avaliam que a escolha do próximo ministro da Fazenda pode trazer algum alívio, mas não será suficiente sem uma sinalização clara de Lula sobre a política fiscal.

Quatro pregões depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o mercado brasileiro ainda tenta encontrar um novo equilíbrio. O movimento inicial de desmontagem de posições feitas antes do segundo turno continua pesando sobre os ativos, e a ausência de sinais claros sobre a política fiscal do próximo mandato ganha cada vez espaço.

Nesta quinta-feira (29), o Ibovespa caiu 1,06%, aos 169.186,42 pontos, e perdeu novamente o patamar dos 170 mil pontos. Foi a quarta sessão consecutiva de queda desde a eleição de domingo (25).

O dólar avançou 0,89%, para R$ 5,3878, mesmo em um dia de recuo da moeda americana no exterior. Durante o pregão, chegou a R$ 5,4290.

A indefinição sobre quem comandará o Ministério da Fazenda, o tamanho de um eventual ajuste das contas públicas e a trajetória dos gastos mantém investidores em compasso de espera. E, à medida que os dias passam sem respostas, o silêncio começa a pesar tanto quanto o reposicionamento provocado pelo resultado eleitoral.

Meirelles: não colocar despesas fora do arcabouço seria um grande progresso

Para Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central, o governo não precisaria apresentar de imediato um pacote amplo para começar a reduzir a tensão.

O primeiro gesto, segundo ele, seria demonstrar que pretende cumprir as regras fiscais existentes sem retirar despesas do arcabouço.

“Se for cumprir o arcabouço sem truque, sem colocar despesas fora do arcabouço, isso é um orçamento público transparente, realista, isso já é um grande progresso”, afirmou ao Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC.

Meirelles considera esse movimento o ponto de partida para estabilizar as expectativas.

“Isso aí é o mínimo para estabilizar, cumprir as regras”, disse.

Para o ex-ministro, a forte reação dos mercados após o segundo turno teve, inicialmente, um componente técnico: investidores que apostavam em outro resultado eleitoral precisaram desmontar posições rapidamente.

Agora, porém, a atenção começa a migrar para as decisões que serão tomadas pelo novo governo.

“Agora começa a entrar na expectativa”, afirmou.

Na avaliação de Meirelles, os próximos sinais mais importantes serão o nome escolhido para a Fazenda e, principalmente, o mandato que essa pessoa receberá para conduzir as contas públicas.

Leia também: Oposição entre ajuste fiscal e política social é um ‘falso dilema’

“Tem que ver primeiro o nome e o histórico e o gabarito dessa pessoa. Em seguida, qual é o anúncio? Virá um ajuste fiscal forte ou fraco ou nenhum?”, questionou.

Boulos adiciona ruído ao debate fiscal

A cautela aumentou durante o pregão desta quinta-feira após uma declaração do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos.

Em publicação nas redes sociais, Boulos rejeitou a ideia de um ajuste fiscal baseado em cortes de programas sociais e afirmou que esse tipo de agenda foi derrotado nas urnas.

“Quem está defendendo que Lula faça ajuste fiscal, cortando gastos em políticas sociais, não entendeu nada do que foi essa eleição. O Tesouraço foi derrotado nas urnas e pela mobilização popular”, escreveu.

Em outra manifestação, afirmou:

“O candidato da Faria Lima perdeu e fugiu para os EUA. A agenda econômica do Brasil será a que venceu as eleições, não a que perdeu!”

O dólar chegou à máxima do dia depois das declarações e reduziu parte da alta mais tarde, em meio a informações sobre uma possível indicação do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), para o Ministério da Fazenda.

“Falta de notícias começa a pesar”

Na avaliação do comentarista de política e economia do Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC, Vinicius Torres Freire, o mercado ainda sente os efeitos do ajuste provocado pela surpresa do segundo turno, mas a demora do governo em apresentar alguma direção já começa a ter peso próprio.

“A falta de notícias começa a pesar”, afirmou.

Segundo ele, muitos investidores continuam tentando encerrar posições assumidas antes da eleição, o que ajuda a explicar a sequência de quedas. Ao mesmo tempo, faltam compradores dispostos a assumir risco enquanto não houver maior clareza sobre a política econômica.

Torres Freire chama atenção para o aperto das condições financeiras provocado pela combinação de juros elevados, bolsa em queda e dólar mais caro.

Esse cenário, segundo ele, pode ir além das mesas de negociação e chegar à economia real, encarecendo o crédito e reduzindo a disposição das empresas para investir e contratar.

O anúncio de um ministro da Fazenda poderia trazer algum alívio. Mas, na avaliação do comentarista, o nome escolhido terá efeito limitado se não houver respaldo presidencial para mudanças.

“Ministro da fazenda, por mais genial que seja, o papa ou um anjo que seja, não vai fazer milagre se o presidente não concordar com a mudança. É ele que manda, ele que teve voto.”

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E acrescentou: “Se ele não tiver um mandato para fazer mudanças e isso não ficar claro, o refresco vai ser pequeno.”

Dívida entra no centro das preocupações

Meirelles também colocou a trajetória da dívida pública entre os principais pontos de atenção para o próximo mandato.

“Nós temos um aumento da dívida pública que, se continuar nessa trajetória, pode chegar a um ponto de insustentabilidade”, afirmou.

Para ele, qualquer estratégia mais ampla de recuperação da confiança deveria começar por uma redução permanente, e não apenas temporária, das despesas.

“A primeira coisa é o ajuste fiscal. Tem que ter uma sinalização clara de corte de despesas importantes e uma visão de sustentabilidade disso, não é só um corte temporário”, disse.

Depois de uma consolidação fiscal, Meirelles defende reformas capazes de elevar a produtividade da economia, incluindo mudanças administrativas e a simplificação do sistema tributário.

Uma melhora das contas públicas, segundo ele, também poderia abrir espaço para juros menores no futuro.

Fonteles pode ajudar, mas não resolve problema sozinho

O possível nome de Rafael Fonteles também entrou no radar dos investidores nesta quinta-feira.

Meirelles avaliou positivamente o governador do Piauí, com quem disse ter relação desde o período em que Fonteles comandava a Secretaria da Fazenda do estado.

“Ele é um homem qualificado”, afirmou.

Na avaliação do ex-ministro, Fonteles poderia dialogar tanto com o PT quanto com agentes do mercado.

“Primeiro, ele é petista, governador eleito pelo PT. De outro lado, ele é um nome mais razoável, vai conversar, já está conversando com a Faria Lima”, disse.

A eventual indicação, porém, não eliminaria a principal dúvida dos investidores: qual espaço o próximo ministro terá para conduzir uma política de contenção de gastos.

Essa preocupação também aparece na análise de Gustavo Cruz, estrategista-chefe de investimentos da Sincra.

Para ele, a recuperação da bolsa depende de uma nova narrativa econômica capaz de reduzir as dúvidas sobre a trajetória das despesas.

“A bolsa vai precisar realmente de uma nova narrativa interna ou externa para justificar essa recuperação”, afirmou.

Cruz considera que Fonteles poderia ser recebido positivamente.

“Esse nome agradaria o mercado”, disse.

Leia também: Sem sinal fiscal, Bolsa terá dificuldade para se recuperar, diz Gustavo Cruz, da Sincra

Mas ressalta que a questão principal não é apenas encontrar técnicos capazes de elaborar medidas fiscais, e sim garantir apoio político dentro do governo para executá-las.

Bolsa ainda digere apostas feitas antes da eleição

Felipe Corleta, sócio da Brasil Wealth, também vê na sequência de quedas um forte componente de reposicionamento.

Segundo ele, investidores brasileiros e estrangeiros haviam montado posições considerando um resultado eleitoral diferente. A vitória de Lula obrigou parte desse grupo a reduzir rapidamente a exposição aos ativos domésticos.

Mas a falta de informação sobre o próximo governo dificulta uma estabilização.

“O mercado muitas vezes prefere a notícia ruim do que a não notícia”, afirmou.

Para Corleta, a escolha do ministro da Fazenda, isoladamente, não será suficiente para recuperar a confiança. Os investidores também querem saber quais serão as prioridades fiscais e qual autonomia será concedida à equipe econômica.

A consequência dessa combinação já aparece nos preços. Empresas mais dependentes de crédito, como as ligadas ao varejo e à construção, estão entre as mais vulneráveis ao cenário de juros elevados e dúvidas sobre as contas públicas.

Encerrada a disputa nas urnas, o teste passa agora da campanha para a execução. O que investidores tentam precificar é como as promessas eleitorais serão acomodadas no Orçamento e quais escolhas Lula fará quando elas esbarrarem nos limites das contas públicas.

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