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Sem sinal fiscal, Bolsa terá dificuldade para se recuperar, diz Gustavo Cruz, da Sincra

Publicado 29/10/2026 • 19:00 | Atualizado há 41 minutos

KEY POINTS

  • Gustavo Cruz afirma que indefinição sobre equipe econômica e ajuste fiscal deixa investidores sem referência após eleição.
  • Estrategista vê risco de dívida chegar a 92% ou 93% do PIB até 2030 se promessas de campanha forem integralmente cumpridas.
  • Juros elevados, menor acesso ao crédito e investimentos contidos estão entre as consequências apontadas pelo especialista.

A falta de sinais claros sobre a política fiscal e a composição da próxima equipe econômica dificulta a recuperação da Bolsa após a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), avaliou Gustavo Cruz, estrategista-chefe de investimentos da Sincra, em entrevista ao Times Brasil – Licenciado Exclusivo CNBC. Para ele, o mercado aguarda indicações de como o governo pretende conciliar a expansão de programas sociais e o controle das contas públicas.

A avaliação ocorre após o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, afirmar nesta quinta-feira (29) que propostas de ajuste fiscal com cortes em políticas sociais foram rejeitadas nas urnas. Cruz vê uma divergência dentro do governo entre integrantes da área econômica e ministros contrários à contenção de despesas. “O mercado financeiro fica um pouco sem muito norte, aguardando essa definição inicial”, afirmou.

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Segundo o estrategista, a escolha dos integrantes do próximo governo, esperada até o fim do ano, ajudará a esclarecer a direção da política econômica. “Vai ser uma disputa que a gente vai ver para qual lado vai pender nos próximos anos”, disse, ao mencionar a resistência a propostas de ajuste observada durante o mandato anterior.

Equipe econômica e recuperação da Bolsa

Para Cruz, uma recuperação sustentada das ações depende de novos fatores internos ou externos. No Brasil, ele cita a definição da equipe econômica, as indicações pendentes para o Banco Central e medidas capazes de moderar a expansão das despesas. “A Bolsa vai precisar realmente de uma nova narrativa interna ou externa para justificar essa recuperação”, afirmou.

No cenário internacional, o entrevistado mencionou a possibilidade de mudanças nas tensões entre Estados Unidos e Irã, inclusive em torno do estreito de Ormuz, como um fator que poderia alterar o humor dos investidores. “Do jeito que está hoje, é difícil ver a Bolsa se recuperar”, avaliou, sem apresentar um prazo para eventual reação.

Promessas de campanha e trajetória da dívida

Ao discutir a possibilidade de conciliar as promessas eleitorais com o equilíbrio das contas, Cruz projetou que, caso todas as medidas anunciadas sejam implementadas, a dívida pública poderá alcançar de 92% a 93% do PIB em 2030, ante um patamar próximo de 83% atualmente. Trata-se de uma estimativa do entrevistado, condicionada à trajetória de gastos que descreveu.

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O estrategista argumentou que mais de 90% das despesas federais já estão comprometidas, o que limita a margem de atuação do Executivo e exige negociações com o Congresso. “Muito difícil imaginar que a gente vai conseguir frear esse crescimento de despesas nos próximos anos”, afirmou. Ao mesmo tempo, reconheceu que a preservação das políticas sociais foi um tema importante da campanha.

Questionado sobre o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), citado como possível nome para a área econômica, Cruz avaliou que ele poderia ser bem recebido por investidores. “Esse nome agradaria o mercado”, disse. Ressaltou, porém, que o principal obstáculo não seria a ausência de técnicos qualificados, mas a dificuldade de obter apoio político para implementar propostas de ajuste.

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Na avaliação de Cruz, sugestões apresentadas em anos anteriores, como mudanças na Previdência dos militares, medidas sobre supersalários e revisões em benefícios sociais, não avançaram na dimensão pretendida pela área econômica. Para ele, a discussão sobre a política fiscal depende, sobretudo, da disposição do conjunto do governo em apoiar as iniciativas.

Juros, crédito e investimentos

O entrevistado afirmou que uma trajetória persistente de endividamento público elevado pode manter os juros em patamares altos e encarecer o financiamento de famílias e empresas. “Diminui o incentivo para as famílias contratarem financiamentos imobiliários, financiamentos de veículos, diminui o incentivo para empresas fazerem grandes programas de investimento”, explicou.

Cruz também apontou que a ausência de grau de investimento restringe o acesso do país a determinadas carteiras internacionais. Segundo ele, essa condição pode limitar a entrada de recursos e dificultar a viabilização de projetos. “Aos poucos, a gente acaba não conseguindo um crescimento tão positivo”, afirmou.

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Como exemplo, citou a taxa de investimento brasileira, próxima de 16% a 17% do PIB, abaixo dos 22% a 25% que atribuiu a economias comparáveis. Para o estrategista, o desafio do próximo governo será construir uma sinalização capaz de reduzir a incerteza fiscal sem perder de vista os compromissos sociais apresentados aos eleitores.

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