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42% dos brasileiros temem perder o emprego para a IA; Marcel Nobre explica a preocupação

Publicado 22/09/2026 • 17:33 | Atualizado há 36 minutos

KEY POINTS

  • 52% dos brasileiros estão mais preocupados do que animados com a IA, contra mediana global de 37%.
  • Para Marcel Nobre, especialista em tecnologia e inovação, a preocupação dos brasileiros está ligada à velocidade da evolução da IA e ao receio de que trabalhadores e empresas não consigam acompanhar as mudanças.
  • 42% esperam que a tecnologia reduza o número de empregos no país nos próximos 20 anos.

Imagem gerada por IA

O Brasil está entre os países mais preocupados com o avanço da inteligência artificial, segundo pesquisa do Pew Research Center divulgada nesta na quinta-feira (17). 52% dos brasileiros afirmam estar mais preocupados do que animados com a tecnologia, percentual acima da mediana global de 37%.

O levantamento ouviu 42.151 adultos em 36 países entre 8 de fevereiro e 13 de maio de 2026 e mostra que, no Brasil, o principal receio está relacionado ao mercado de trabalho. 42% dos entrevistados acreditam que a inteligência artificial reduzirá o número de empregos nos próximos 20 anos, enquanto 13% esperam aumento nas vagas.

Outros 11% avaliam que a tecnologia terá pouco impacto sobre o emprego, enquanto 34% afirmam não saber qual será o efeito da IA no mercado de trabalho.

A percepção de redução de empregos também aparece na maioria dos países pesquisados. Em economias como Estados Unidos, Austrália e Coreia do Sul, cerca de sete em cada dez adultos ou mais esperam redução das vagas ao longo dos próximos 20 anos.

Para Marcel Nobre, especialista em tecnologia e inovação, a preocupação brasileira não pode ser explicada apenas por desconhecimento ou resistência à tecnologia.

“O brasileiro está usando cada vez mais a IA e estamos percebendo a velocidade como ela evolui, como está aumentando a capacidade do que podemos fazer com IA. Ao mesmo tempo, estamos nos perguntando se nossa formação, nosso conhecimento, nossa empresa e o próprio mercado de trabalho conseguirão acompanhar essa velocidade”, afirma.

Para Nobre, quanto maior o conhecimento sobre a tecnologia, mais concreto pode se tornar o receio de substituição profissional. Ele cita o próprio levantamento do Pew, segundo o qual, em aproximadamente metade dos países pesquisados, o maior conhecimento sobre IA tende a estar associado a uma percepção maior de que a tecnologia poderá eliminar empregos.

“Não acho que esse medo seja simplesmente fruto de desconhecimento ou resistência à tecnologia. Acho que quanto mais as pessoas percebem aquilo que a IA já consegue fazer, mais concretos se tornam os questionamentos sobre o próprio futuro profissional”.

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Jovens e mercado de trabalho

Entre brasileiros de 18 a 34 anos, a parcela mais preocupada do que animada com a IA passou de 32% em 2025 para 44% em 2026, aumento de 12 pontos percentuais.

Essa faixa etária também apresenta maior contato com o tema. Entre os jovens, 48% afirmam ter ouvido ou lido muito sobre inteligência artificial. O percentual cai para 33% entre pessoas de 35 a 49 anos e para 16% entre aquelas com 50 anos ou mais.

A preocupação com o emprego também é elevada entre os jovens de outros países. Nos Estados Unidos, 74% dos adultos entre 18 e 34 anos esperam redução de vagas por causa da IA nos próximos 20 anos. No Canadá, são 69%; na França, 66%; e na Suécia, 63%.

Marcel Nobre avalia que a preocupação ganha uma dimensão adicional em países marcados por diferenças de acesso à educação e qualificação profissional.

“Em um país com enorme desigualdade educacional, informalidade no mercado de trabalho e grande diferença de acesso à qualificação, nos faz questionar se conseguiremos participar dos benefícios desta tecnologia ou apenas sofreremos com seus efeitos”.

Para o especialista, o principal receio pode estar menos na tecnologia em si e mais na velocidade de adaptação de trabalhadores e empresas.

“Talvez o brasileiro não esteja com medo da inteligência artificial, mas de não conseguir evoluir na mesma velocidade que ela.”

A pesquisa também avaliou a percepção sobre os efeitos da IA na distribuição de renda. No Brasil, 24% acreditam que a tecnologia aumentará a desigualdade econômica nos próximos 20 anos, enquanto 35% esperam pouco impacto nesse aspecto.

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O percentual brasileiro está abaixo do registrado em países como Coreia do Sul, Austrália, Estados Unidos, Grécia e Canadá, onde pelo menos quatro em cada dez adultos esperam que a inteligência artificial amplie a distância entre ricos e pobres.

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Para Nobre, porém, a discussão sobre desigualdade envolve também a capacidade de diferentes grupos transformarem o acesso à tecnologia em ganhos econômicos.

“Talvez esse seja um dos maiores riscos da IA. Toda tecnologia, no início, é exclusiva e excludente, mas ao longo do tempo se torna inclusiva e includente. A IA, desde o dia 1, permite que qualquer ser humano com um aparelho conectado à internet tenha acesso a modelos gratuitos de IA. Mas isso é só a superfície do problema”, afirma.

Segundo ele, a desigualdade pode surgir entre grandes e pequenas empresas, profissionais com diferentes níveis de qualificação, países que desenvolvem modelos, chips e infraestrutura e aqueles que apenas consomem essas tecnologias, além de trabalhadores dentro da própria profissão.

IA pode até democratizar capacidade, mas não necessariamente democratiza oportunidades. A questão principal aqui não é apenas acesso à IA, mas a capacidade de transformar acesso em valor econômico.”

Adoção cresce junto com preocupação

O aumento do receio ocorre paralelamente à expansão do uso de ferramentas de inteligência artificial no Brasil.

Nobre afirma que o país está entre os mercados que adotaram a tecnologia mais rapidamente. Ele cita uma posição entre os três países com mais usuários ativos do ChatGPT, além de uma média de utilização da IA no trabalho acima da média mundial. Também afirma que o Brasil ocupa a segunda posição global em número de desenvolvedores que utilizam a API da OpenAI.

Para o especialista, o nível de adoção ajuda a explicar a percepção ambígua dos brasileiros: a mesma tecnologia que aumenta a produtividade também permite identificar quais tarefas podem ser automatizadas.

“Imagine alguém que trabalha com marketing, que utiliza IA e percebe que uma tarefa que demorava três horas para ser feita agora leva 20 minutos. A primeira sensação é de entusiasmo: ‘ganhei duas horas e 40 minutos’. A segunda é o questionamento de que, se eu consigo fazer isso, minha empresa em algum momento descobrirá que consegue”, afirma.

Na avaliação de Nobre, a evolução dos modelos pode levar esse questionamento a atividades cada vez mais complexas.

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“Com a velocidade na evolução da IA, em poucos meses ou anos, possivelmente teremos uma IA especialista em marketing capaz de substituir boa parte do que esse profissional faz.”

A parcela de brasileiros que afirma ter ouvido ou lido muito sobre inteligência artificial também aumentou, de 22% em 2025 para 31% em 2026. Apesar do crescimento, 27% dizem nunca ter ouvido ou lido nada sobre o tema, enquanto 42% relatam apenas contato superficial.

Para Nobre, a combinação entre maior adoção e maior preocupação mostra que o debate deixou de estar restrito à novidade tecnológica.

“Todos nós estamos nessa dicotomia entre entender e usar para nos amplificar, ao mesmo tempo em que estamos entendendo ainda seus riscos e como isso pode nos afetar.”

No conjunto internacional analisado pelo Pew, 37% dos entrevistados estão mais preocupados do que animados com a IA, enquanto 41% se dizem igualmente preocupados e animados.

Israel é o único país pesquisado em que a parcela predominantemente animada supera a predominantemente preocupada.

No Brasil, a expansão do uso da inteligência artificial ocorre, portanto, ao lado de uma preocupação crescente com emprego, qualificação profissional e capacidade de diferentes grupos e empresas de transformar o acesso à tecnologia em benefícios econômicos.

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