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Abertura comercial de Milei aprofunda crise na indústria de autopeças argentina e acelera avanço chinês
Publicado 10/05/2026 • 21:06 | Atualizado há 1 mês
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Publicado 10/05/2026 • 21:06 | Atualizado há 1 mês
KEY POINTS
Agustin Marcarian / Reuters
A indústria argentina de autopeças atravessa sua pior sequência em anos. A combinação de abertura comercial acelerada, valorização do peso e cancelamento de modelos de produção local gerou uma ruptura estrutural: mais importações, menos fábricas ativas, menos empregos e uma dependência crescente de componentes vindos da China.
Os números foram compilados pelo Times Brasil — Licenciado Exclusivo CNBC com base em dados da Asociación de Fábricas Argentinas de Componentes (AFAC), da Asociación de Fábricas de Automotores (ADEFA) e do Instituto Nacional de Estadística y Censos (INDEC).
Durante décadas, a relação entre importações de autopeças e produção de veículos na Argentina foi estável. Quando a produção subia, as compras externas acompanhavam; quando caía, recuavam juntas. Pela série histórica da AFAC, 86% das variações nas importações de autopeças eram explicadas pelas oscilações da produção de veículos.
Em 2025, essa relação quebrou.

Na série usada pela AFAC para comparar importações de autopeças e produção de veículos, a produção caiu 4,9% em 2025, para 513.933 unidades. Ainda assim, as importações de autopeças cresceram 11,6%, atingindo US$ 10,319 bilhões, praticamente o mesmo patamar do pico de 2023.
A AFAC classifica o fenômeno como “uma exceção à tendência estrutural” e aponta dois vetores: a entrada massiva de peças asiáticas para o mercado de reposição e a chegada de novos modelos montados localmente com baixíssimo grau de integração nacional.
O resultado foi um déficit comercial do setor de US$ 9,043 bilhões em 2025, alta de 13,3% em relação a 2024. A própria AFAC diz que o rombo equivaleu a 1,3 vez o superávit total da balança comercial argentina em 2025. “De alcançar-se um equilíbrio no setor de autopeças, o superávit comercial agregado seria quase o dobro”, afirma a entidade.

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O avanço chinês é o dado mais expressivo. As importações argentinas de autopeças vindas da China saltaram 80,9% em 2025, chegando a US$ 1,464 bilhão. Em valores absolutos, a China encostou na Tailândia — segundo maior fornecedor, com US$ 1,481 bilhão — e disputa o segundo lugar no ranking de fornecedores.
Em termos de participação, a China respondia por 10,6% das importações argentinas de autopeças em 2021. Em 2025, chegou a 14,2%, crescimento de quase quatro pontos percentuais em quatro anos. Os principais produtos importados foram rodas, pneus e câmaras, transmissões, componentes de motor e sistemas de ar-condicionado, que juntos somam 57,4% do total comprado da China.

O Brasil ainda lidera como maior fornecedor individual, com US$ 3,231 bilhões (+3,1%), respondendo por 31,3% do total importado. Tailândia (US$ 1,481 bilhão, +14,6%), Japão (US$ 644 milhões, +2,7%) e Estados Unidos (US$ 584 milhões, +1,9%) completam o topo da lista.
Do lado das exportações, o cenário é de estagnação. As vendas externas de autopeças argentinas totalizaram US$ 1,276 bilhão em 2025, crescimento de apenas 1,2%, equivalente a US$ 15 milhões a mais do que em 2024. O setor exportou para 135 países, mas a concentração no Brasil foi marcante: US$ 849,7 milhões, ou 66,6% do total, com queda de 0,8% na comparação anual.
A balança bilateral com o Brasil é fortemente desfavorável à Argentina: déficit de US$ 2,381 bilhões em 2025, 4,6% maior do que em 2024. As importações argentinas vindas do Brasil somaram US$ 3,231 bilhões, enquanto as exportações para cá ficaram em US$ 849 milhões.
Os principais produtos exportados pela Argentina foram transmissões (35,5% do total), motores (21,2%) e carroceria e suas partes (8,6%).
Se 2025 já foi um ano difícil, o início de 2026 aprofundou a crise. De acordo com o Índice de Produção Industrial Manufatureiro (IPI) do INDEC, a fabricação de autopeças acumulou queda de 22,5% no bimestre janeiro-fevereiro de 2026 em relação ao mesmo período de 2025. A produção de veículos automotores recuou 30,1% no mesmo intervalo.
Os dados da ADEFA para o quadrimestre (janeiro a abril de 2026) confirmam essa tendência. Foram 129.867 unidades produzidas, retração de 18,6% frente ao acumulado de 2025. As exportações de veículos caíram 1,6% no período, e as vendas de veículos de fabricação nacional a concessionárias despencaram 40,6%.
O próprio INDEC registra, na análise setorial de fevereiro de 2026, que a queda na produção de autopeças deveu-se “principalmente à queda no nível de comercialização no mercado interno” e ao impacto negativo da menor atividade das montadoras sobre as vendas de autopeças para equipamento original. Também foi registrada “queda no nível de vendas externas de autopeças”.
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Seguir no GoogleOs números também impactam o mercado de trabalho. Segundo a AFAC, o emprego direto em autopeças caiu de 53.700 postos em 2024 para 49.600 em 2025, perda de 4.100 vagas em um ano, recuo de 7,7%. Cerca de 80,5% das demissões ocorreram em empresas cujo principal destino produtivo era o fornecimento às montadoras locais. No segmento de reposição, que emprega 34,1% do total do setor, o impacto das importações asiáticas também foi severo.
Além disso, metade dos trabalhadores está em empresas com menos de 300 funcionários, e 21% em fábricas com menos de 100 empregados. São os elos mais sensíveis às mudanças bruscas nas regras comerciais.
No plano das empresas, a sueca SKF e a americana Dana fecharam parte de suas operações na Argentina. A Nissan encerrou sua produção em Córdoba e passou a importar veículos do México. Modelos como Nissan Frontier, Renault Alaskan e Volkswagen Taos foram descontinuados da produção local em 2025. A AFAC registra 56 fechamentos de empresas fornecedoras nos últimos 15 anos, cinco apenas no último ano e meio.
As entidades argentinas indicam o que entendem ser necessário para reverter o quadro.
A AFAC aponta a carga tributária que onera a exportação — impostos sobre débitos e créditos bancários, Ingressos Brutos e taxas municipais — como obstáculo competitivo que o ajuste de Milei não endereçou. A entidade defende “um choque de investimentos com visão integral que permita reverter a situação de toda a cadeia de valor automoti
O presidente da ADEFA, Rodrigo Pérez Graziano, reconheceu, ao divulgar os dados de dezembro de 2025, que o balanço do ano foi “misto”: as vendas ao consumidor cresceram quase 50% com a normalização do crédito e a desinflação, mas o desempenho industrial ficou para trás. “O dinamismo que se deu no plano comercial não se sustentou no industrial como havíamos previsto no início do ano”, afirmou o dirigente. Para 2026, Pérez Graziano destacou que “o grande desafio é a melhora da competitividade exportadora” e que “a previsibilidade é a chave”.
A AFAC projeta nova queda de 7,5% na produção de veículos em 2026 e consolidação do crescimento das importações asiáticas, perspectiva que, segundo a entidade, “não permite ser otimista” quanto ao emprego no setor neste ano.
O governo Milei não responde diretamente pelos dados setoriais, mas defende que a abertura comercial e a valorização do peso eram condições necessárias para estabilizar a economia argentina após décadas de inflação crônica e escassez de divisas. Os resultados macroeconômicos de 2025 — queda da inflação e recuperação do consumo — são apresentados como evidência de que o ajuste funcionou. A disputa sobre quem paga a conta da transição e por quanto tempo, está longe de ser definida.
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