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China acelera corrida por soberania em IA e abre espaço para estratégia tecnológica do Brasil

Publicado 31/08/2026 • 19:15 | Atualizado há 1 hora

KEY POINTS

  • A China busca reduzir a dependência dos chips mais avançados dos Estados Unidos desenvolvendo hardware e arquiteturas próprias.
  • Modelos de IA abertos são usados por China e empresas americanas como estratégia para ampliar a distribuição da tecnologia.
  • Para o Brasil, supercomputadores e modelos abertos podem aumentar a soberania tecnológica, mas exigem investimentos contínuos em infraestrutura, pesquisa e desenvolvimento.

A China avança no desenvolvimento de modelos de inteligência artificial e busca reduzir a dependência de chips norte-americanos, em uma disputa tecnológica que pode redefinir o mercado global.

Para o Brasil, o cenário abre espaço para uma estratégia de diversificação e para o desenvolvimento de maior soberania nas diferentes camadas da cadeia de IA.

Segundo Celso Camilo, professor doutor de inteligência artificial da Universidade Federal de Goiás (UFG), as restrições impostas pelos Estados Unidos aos chips mais avançados da Nvidia estimularam a China a desenvolver arquiteturas mais eficientes e reduzir a dependência de hardware de última geração.

“A China consegue, nessa camada chamada modelo, desenvolver bastante opções e versões e que hoje coloca ela como um dos principais players que conseguem desenvolver modelos de IA com bastante eficiência e eficácia”.

A China não pretende apenas desenvolver modelos próprios, o objetivo é alcançar autonomia em toda a chamada “pilha” de inteligência artificial, que inclui desde hardware e chips até softwares, plataformas e aplicações.

Um dos principais obstáculos ainda está na integração entre os chips e os softwares utilizados pelos desenvolvedores. A Nvidia construiu, ao longo de anos, um ecossistema baseado em suas GPUs e em ferramentas compatíveis com essa arquitetura.

“Existe ainda uma grande parcela de frameworks e de softwares que depende que seja o chip Nvidia”.

Esse cenário, porém, começa a mudar. Segundo o professor, desenvolvedores chineses estão adaptando seus sistemas aos chips produzidos no país, enquanto plataformas intermediárias de tradução entre diferentes arquiteturas também avançam.

“Quando isso de fato chegar ao mercado, vai ser realmente uma competição muito mais comparável, muito mais equilibrada entre esses dois fabricantes de chips”.

Outro campo em que a China ganhou espaço é o desenvolvimento de modelos de inteligência artificial abertos. Para Camilo, essa estratégia também possui uma dimensão geopolítica, já que permite ampliar a distribuição da tecnologia chinesa e criar uma rede de parceiros internacionais.

O professor ressaltou, porém, que o avanço dos modelos abertos não é exclusivo da China. Empresas americanas também trabalham nessa direção, citando o exemplo do Google, que possui o Gemini, de código fechado, e modelos abertos da família Gemma.

Para países como o Brasil, o uso de modelos abertos pode representar uma oportunidade para ampliar a soberania tecnológica. Mas, segundo Camilo, simplesmente utilizar uma tecnologia desenvolvida no exterior não é suficiente.

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“A gente não pode também ficar só dependente de modelos abertos feitos por outros. Não deixa de ser uma colonização, mesmo que modelos abertos, porque a gente está dependendo da tecnologia gerada por terceiros”, afirmou.

O professor citou como exemplo o Gaia, modelo desenvolvido na Universidade Federal de Goiás a partir de uma tecnologia aberta e adaptado para o português brasileiro.

Supercomputadores e soberania tecnológica

Nesse contexto, a instalação de novos supercomputadores no Brasil pode ajudar o país a avançar nas camadas superiores da cadeia tecnológica, mesmo sem uma indústria nacional de chips competitiva.

Camilo avalia que o Brasil perdeu oportunidades de protagonismo em diferentes ciclos tecnológicos, incluindo a revolução industrial, a eletrificação, a computação e a fabricação de semicondutores.

“Como a gente não tem computador próprio, a gente vai ter que comprar de terceiros para conseguir, na camada aplicação, na camada que segue além do computador, do físico, do hardware, desenvolver softwares para, no mínimo nessas camadas, ter um pouco de soberania”, afirmou.

Para o professor, a escolha entre equipamentos americanos ou chineses deve considerar principalmente fatores como custo, capacidade tecnológica e sustentabilidade dos investimentos.

Ele também ressalta que a construção de soberania em inteligência artificial exige uma estratégia de longo prazo.

“Isso não é uma corrida de 100 metros, isso é uma maratona”.

Segundo Camilo, investimentos pontuais não serão suficientes para colocar o Brasil em posição relevante na disputa global. O país precisará manter ciclos sucessivos de investimentos em infraestrutura, software, pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

A disputa pela inteligência artificial também pode ganhar peso nas futuras negociações comerciais e geopolíticas. Países que controlarem diferentes etapas da cadeia tecnológica terão maior poder de negociação, enquanto aqueles dependentes de fornecedores estrangeiros terão menos instrumentos para defender seus interesses.

“A gente vai continuar tendo muito pouco de carta colocada na mesa ou a gente vai construir mais elementos para conseguir ter de fato uma posição relevante no tabuleiro geopolítico?”, questionou o professor.

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