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Legado da ‘onda rosa’ em meio à guinada política da América Latina ajudou esquerda a vencer no Brasil, diz especialista

Publicado 31/10/2026 • 10:45 | Atualizado há 40 minutos

KEY POINTS

  • Desde 2023, cinco países da América Latina passaram da esquerda para a direita, e onze dos vinte estão no bloco conservador
  • Segurança pública, inflação e redes sociais explicam a ascensão da direita, segundo a professora Regiane Bressan, da Unifesp
  • Eleitor cobra resultados rápidos, e governos de qualquer ideologia enfrentam risco de perder apoio, diz especialista
DECISÃO 2026: por que a posse presidencial de Lula terá nova data?

Foto: Agência Brasil

DECISÃO 2026: por que a posse presidencial de Lula terá nova data?

Depois de uma sequência de vitórias da direita em eleições recentes na região, o Partido dos Trabalhadores (PT) manteve a esquerda no poder no Brasil, com a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Lula inicia o quarto mandato como presidente da República, em oposição à onda conservadora que avança na América Latina nos últimos anos.

As eleições na Argentina, no Chile, em El Salvador e na Colômbia seguiram essa tendência, e o declínio da onda rosa, que marcou o continente entre os anos 2000 e 2010, parecia se aprofundar.

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Oscilação do pêndulo entre esquerda e direita

Desde 2023, cinco países da América Latina passaram da esquerda para a direita, todos na América do Sul. Dos vinte países da região, onze têm governos de direita.

Para Regiane Bressan, professora associada de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), três fatores explicam a ascensão de partidos de direita no continente. O primeiro é a crise na segurança pública, com aumento do crime organizado e do narcotráfico.

O segundo é a inflação e o aumento do custo de vida, impulsionados pela estagnação após a pandemia. O terceiro é a comunicação nas redes sociais, ferramenta bem aproveitada pela direita política.

Nesse ponto, o “modelo Bukele” é o exemplo mais conhecido de medidas severas contra a criminalidade. A expressão faz referência ao presidente Nayib Bukele, reeleito em 2024 em El Salvador.

O líder salvadorenho cumpriu a promessa de reduzir a violência de gangues com um regime de exceção permanente. O regime resultou na suspensão de garantias constitucionais, prisões em massa e encarceramento em larga escala. Desde 2022, início da medida, mais de 93.600 pessoas foram presas no país, muitas sem julgamento.

Brasil mantém esquerda no poder

No Brasil, a reeleição de Lula mantém o território rosa com o quarto mandato do petista. Para Bressan, um dos fatores decisivos foi a memória socioeconômica da época da onda rosa, com valorização do salário mínimo e expansão de programas sociais. A organização de uma frente ampla na campanha do segundo turno também pesou.

Mesmo com o ambiente externo alinhado à direita, o presidente brasileiro recebeu felicitações de vários chefes de Estado de direita na América Latina. Um governo contrário a esses modelos não parece assustar os líderes conservadores.

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Segundo a especialista, os riscos diretos de um governo de esquerda como contraponto na região são moderados, porque o comércio exterior é resiliente e a diplomacia brasileira é considerada boa. Ainda assim, trocas comerciais e interdependência energética obrigam os chefes de Estado do continente a manter a mente aberta, principalmente em acordos do Mercosul.

Sobre o impacto para empresas brasileiras com presença ampla na região, Bressan afirma que o país pode adotar medidas mais pragmáticas para os negócios. “Empresas com forte presença ou que tenham cadeias de suprimento integradas na América Latina podem enfrentar incertezas regulatórias e fiscais a depender da adoção de guinadas liberais ou alterações em acordos bilaterais pelos vizinhos”, afirma.

Onda azul veio para ficar?

Apesar do avanço da direita, Bressan observa que a dinâmica atual indica volatilidade do pêndulo, sem hegemonia ideológica duradoura.

A onda rosa dos anos 2000 foi favorecida pelo crescimento econômico decorrente da alta das commodities, que permitiu financiamento mais amplo a programas sociais de combate à pobreza.

Agora, se os governos atuais, de qualquer ideologia, não melhorarem de forma visível a vida da população, o pêndulo tende a se mover para o lado oposto. Além do Brasil, México e Uruguai são contrapontos regionais.

Na explicação da especialista, governos de esquerda que não oferecem estabilidade e segurança acabam substituídos por partidos de direita. Já partidos de direita que propõem austeridade, sem melhora palpável na qualidade de vida, enfrentam greves e derrotas nas urnas. Por isso, o eleitor quer resultados rápidos da governança, o que torna os mandatos instáveis.

Papel dos Estados Unidos

Os Estados Unidos são uma das principais referências para os governos conservadores da América Latina e têm influência sobre a permanência da direita na região.

Com o objetivo de conter o avanço dos investimentos chineses, sobretudo em infraestrutura, como portos, tecnologia 5G e extração de minerais como o lítio, o governo de Donald Trump oferece segurança geopolítica com mais facilidade, como fez recentemente a Flávio Bolsonaro. O governo americano também deixa claro o desejo de controlar fluxos migratórios e combater cartéis criminosos na região.

Para Bressan, a depender do futuro da administração dos EUA, o país pode voltar a priorizar uma agenda ligada a direitos humanos e transição ecológica, sem abrir mão do alinhamento com governos conservadores que deem foco à segurança de fronteiras e à liberalização comercial.

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