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Isenções de Trump expõem dependência dos EUA a produtos brasileiros
Publicado 03/06/2026 • 21:32 | Atualizado há 59 minutos
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Publicado 03/06/2026 • 21:32 | Atualizado há 59 minutos
KEY POINTS
Em dois dias, o governo dos Estados Unidos propôs duas novas tarifas sobre produtos brasileiros. Na segunda-feira (1º), o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) apresentou uma proposta de sobretaxa de 25% sobre importações do Brasil, resultado de uma investigação sobre práticas comerciais consideradas desleais. Entre elas estão políticas digitais, barreiras ao etanol americano e suposto favorecimento ao Pix em relação a concorrentes estrangeiros.
Nesta terça-feira (2), o mesmo órgão propôs uma tarifa adicional de 12,5% ao Brasil por falhas no combate à importação de produtos fabricados com trabalho forçado. Essa segunda medida atinge outros 45 países, incluindo China, Índia, Japão e Coreia do Sul.
As duas propostas ainda passarão por consulta pública e dependem de decisão final do presidente americano Donald Trump. Mas, em ambos os casos, café, aviação civil, petróleo e terras raras ficariam de fora da sobretaxa.
Leia também: Decisões de Moraes entram na lista do governo americano para impor tarifas
Na proposta de 25%, a lista de isenções reúne 1.712 subposições tarifárias. O critério declarado pelo USTR é preservar produtos cuja taxação poderia causar “indisponibilidade de abastecimento doméstico” ou “disrupções econômicas generalizadas” nos Estados Unidos, além daqueles que “não podem ser produzidos em quantidade suficiente nos Estados Unidos ou obtidos de outras fontes”. A mesma lógica aparece na proposta de 12,5%.
Ou seja, a isenção cobre exatamente os setores em que a dependência americana do Brasil é mais difícil de contornar.
O Brasil é o maior fornecedor de café dos Estados Unidos, responsável por 33% de todo o volume importado pelo país, segundo dados do Departamento de Agricultura americano (USDA) e do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé). Os EUA não produzem café em escala comercial relevante, e mais de 99% do consumo interno depende de importações.
Quando Trump impôs tarifas de 50% ao café brasileiro ano passado, o impacto foi forte. Os embarques do Brasil para os EUA caíram 55% entre agosto e novembro de 2025, segundo a Cecafé. A Alemanha aproveitou o vácuo e ultrapassou os americanos como maior comprador do café brasileiro no ano.
Desta vez, porém, o café entrou na lista de isentos, em todas as suas formas: grão cru, torrado, descafeinado e extratos.
O documento também especifica que a isenção cobre aeronaves civis, seus motores, peças, componentes e simuladores de voo. A medida protege diretamente a Embraer, que foi o terceiro maior item da pauta exportadora brasileira para os EUA em 2024 e 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
A dependência americana vai além das aeronaves acabadas. Companhias aéreas regionais dos EUA operam frotas compostas majoritariamente por jatos da família E-Jet. Taxar a Embraer significaria encarecer diretamente a renovação dessas frotas sem alternativa doméstica equivalente no segmento regional, já que a Boeing não compete nessa categoria.
Leia também: Taxas de juros avançam com tensões no Oriente Médio e tarifas
Petróleo bruto e derivados também estão integralmente isentos. O Brasil se consolidou como fornecedor crescente de petróleo para os EUA, com embarques que bateram o recorde histórico de 98 milhões de toneladas em 2025, segundo o MDIC.
Além disso, desde o ínicio do conflito entre EUA, Israel e Irã, o Estreito de Ormuz opera com restrições. Com isso, produtores do Atlântico Sul passaram a ser considerados fornecedores estratégicos alternativos. Taxar o petróleo brasileiro nesse cenário agravaria a pressão sobre um mercado já em déficit.
A isenção se soma às já existentes pela Seção 232, que trata de segurança nacional, reforçando a blindagem do setor.
O Brasil também aparece como peça estratégica na disputa por terras raras, minerais usados em setores como defesa, energia limpa e eletrônicos. O país tem as maiores reservas fora da China, justamente em um momento em que a dependência americana da cadeia chinesa é vista como uma vulnerabilidade crítica.
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Seguir no GoogleOs Estados Unidos vêm tentando construir alternativas de fornecimento com parceiros considerados estratégicos, e o Brasil entrou nesse mapa. Em abril, a USA Rare Earth comprou a Serra Verde, mineradora que opera em Goiás a única mina em escala comercial fora da Ásia capaz de produzir os quatro elementos magnéticos essenciais.
A operação veio depois de o banco de desenvolvimento americano DFC conceder US$ 465 milhões à empresa. Por isso, taxar terras raras brasileiras poderia enfraquecer a estratégia dos EUA de reduzir a dependência da China em minerais críticos.
Leia também: Tarifaço de Trump: nova taxa de 12,5% ao Brasil se soma à tarifa de 25% anunciada ontem (2)?
A proposta de 25% passa por consulta pública com audiência em 6 de julho e decisão final até 15 de julho. A de 12,5% tem audiência marcada para 7 de julho e comentários até 6 de julho.
O governo brasileiro afirmou que vai buscar uma solução negociada antes dessas datas, e que poderá acionar a Lei de Reciprocidade Econômica caso considere que as medidas violam regras do comércio internacional.
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