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“Master paraguaio”: escândalo de mais de US$ 167 milhões tem queda do presidente do Banco Central, dinheiro de clientes bloqueado e protestos pelo país

Publicado 04/11/2026 • 22:11 | Atualizado há 18 minutos

KEY POINTS

  • Ueno Bank entrou em processo de resolução depois que índice de solvência da instituição caiu para menos da metade do mínimo exigido pelo regulador.
  • Oito dirigentes foram detidos e 27 pessoas foram formalmente investigadas por suspeitas envolvendo empréstimos e outras operações com empresas relacionadas ao grupo controlador.
  • Quase 3 milhões de clientes foram atingidos pela indisponibilidade das contas; governo acionou o fundo garantidor enquanto protestos se espalharam pelo Paraguai.

Foto: AFP

O Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, entrou nesta semana em processo de resolução e deixou cerca de 3 milhões de clientes sem acesso normal ao dinheiro depositado. O caso já levou à prisão de oito executivos, abriu uma investigação sobre operações milionárias e provocou protestos no país.

O Banco Central do Paraguai (BCP) iniciou o processo de resolução da instituição após constatar que o índice de solvência do banco havia caído para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação. A decisão tirou o controle da instituição de seus administradores e deixou aproximadamente 3 milhões de clientes temporariamente sem acesso às contas.

O Ueno havia se transformado em um dos maiores bancos digitais do país em poucos anos. A instituição tinha 2,94 milhões de clientes e depósitos de 17,3 trilhões de guaranis em junho deste ano.

O caso se assemelha ao do Banco Master, já que combina crescimento acelerado, deterioração financeira identificada pelo regulador e suspeitas sobre operações de crédito. Nos dois episódios, a crise terminou com a intervenção da autoridade monetária, deixou clientes dependentes do fundo garantidor para recuperar depósitos e avançou para investigações criminais envolvendo executivos das instituições.

O que aconteceu com o Ueno Bank?

Em 3 de novembro, o Banco Central do Paraguai anunciou o início do processo de resolução do Ueno Bank, aprovado pela diretoria da autoridade monetária no dia anterior. A decisão veio depois que ajustes feitos nos balanços durante um processo de regularização revelaram uma deterioração muito maior do que a anteriormente registrada, com o índice de solvência do banco caindo para menos de 50% do mínimo exigido.

Segundo a autoridade monetária, o patrimônio da instituição já não oferecia o nível de solvência exigido para a continuidade normal das operações. Interventores foram designados para verificar a situação patrimonial e preservar os ativos.

O episódio chama atenção pela velocidade da deterioração. Em março deste ano, a agência Solventa & Riskmétrica atribuía ao Ueno classificação local AApy, nota elevada na escala paraguaia, que indicava baixa expectativa de risco de crédito em comparação com outros emissores e instituições do país. Após a intervenção, a nota caiu para Dpy, categoria destinada a instituições em forte deterioração financeira e com índices de solvência abaixo das exigências legais. 

Ainda em junho, o próprio banco divulgava patrimônio líquido de 2,44 trilhões de guaranis, carteira de crédito próxima de 15 trilhões de guaranis e quase 3 milhões de clientes.

Oito detidos e 27 pessoas na investigação

A crise financeira rapidamente se transformou em investigação criminal.

O Ministério Público do Paraguai formalizou acusações contra 27 pessoas ligadas ao banco e a empresas relacionadas. Entre os crimes sob investigação estão conduta indevida em situação de crise, lesão de confiança, tentativa de fraude e violações relacionadas à escrituração comercial.

Oito dirigentes do Ueno foram detidos, entre eles integrantes da alta administração e do conselho da instituição.

A Promotoria pediu prisão preventiva para Federico Miguel Vázquez Villasanti e prisão domiciliar, monitoramento eletrônico e proibição de saída do país para outros sete dirigentes.

Para os demais investigados, os promotores solicitaram medidas cautelares e também pediram o congelamento preventivo de contas e restrições sobre bens dos acusados e de empresas envolvidas.

Empréstimos a empresas são investigados 

A investigação se concentra em operações realizadas entre 2025 e 2026. Segundo a Promotoria, o Ueno teria concedido empréstimos e limites de crédito a empresas relacionadas ao grupo econômico em condições que podem ter fugido dos padrões normais de análise de risco.

Entre os problemas apontados estão empréstimos de valores desproporcionais à capacidade financeira dos beneficiários, prazos extensos, ausência de garantias suficientes e problemas na documentação usada para aprovar as operações.

Os investigadores também identificaram indícios de que parte dos recursos teria sido transferida para outras empresas do mesmo grupo em vez de ser destinada às atividades informadas quando os empréstimos foram solicitados.

Os saldos pendentes das operações examinadas chegam a US$ 166,98 milhões e 343,16 bilhões de guaranis, segundo o Ministério Público. Os promotores afirmam que a recuperação desses valores pode estar comprometida. 

Outra operação investigada envolve a transferência de uma carteira de crédito de aproximadamente US$ 74,4 milhões para uma empresa que, segundo a hipótese da Promotoria, teria usado recursos originados indiretamente do próprio banco para realizar o negócio.

Bloqueio de recursos evoca o confisco da poupança durante o Plano Collor

O Ueno atendia aproximadamente um em cada três paraguaios. Os clientes relataram dificuldades para visualizar saldos, fazer pagamentos e movimentar recursos. Em diferentes pontos do país, correntistas se reuniram diante de agências e de prédios públicos para exigir a devolução do dinheiro.

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A situação lembra o bloqueio de recursos do Plano Collor. Em 1990, o governo brasileiro determinou o bloqueio de ativos financeiros como parte de uma política econômica nacional. No Ueno, porém, o dinheiro ficou temporariamente indisponível porque o banco entrou em processo de resolução depois de perder condições mínimas de solvência.

A crise também atingiu aposentados. Mais de 32 mil beneficiários do Instituto de Previsión Social utilizavam o Ueno para receber pagamentos.

O Banco Central afirma que o problema está restrito ao Ueno e que o restante do sistema financeiro continua solvente e líquido. O aumento repentino da abertura de contas em outros bancos chegou a provocar instabilidade em aplicativos de instituições paraguaias nesta quarta-feira.

Quanto os clientes podem recuperar?

O Paraguai possui um mecanismo semelhante ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) brasileiro.

Pela legislação local, depósitos no Ueno são protegidos em até 75 salários mínimos por depositante, atualmente equivalentes a 228,3 milhões de guaranis, cerca de US$ 38 mil. O limite vale por pessoa ou empresa, independentemente do número de contas mantidas na instituição.

Autoridades estimam que cerca de 97% dos depositantes estejam integralmente dentro dessa faixa de proteção.

Nesta quarta-feira (4), o Banco Central anunciou um mecanismo emergencial para antecipar parte dos pagamentos. O primeiro repasse será de até 40 salários mínimos por cliente e deverá começar em até 24 horas, com previsão de conclusão dessa etapa em até cinco dias úteis.

Quem possuir conta em outro banco receberá o valor na instituição em que tiver maior saldo. Para clientes sem outra conta bancária, será criada uma conta em outra instituição.

O destino dos valores que excedem os limites de garantia dependerá do processo de resolução e da recuperação dos ativos do banco.

Dinheiro público também está no Ueno

Assim como no caso Master, o Ueno mantinha aproximadamente US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em dinheiro de instituições públicas. Desse total, cerca de US$ 380 milhões estariam ligados ao sistema estatal de previdência e saúde.

A exposição levou o caso do campo financeiro para o político. O presidente Santiago Peña teve participação societária no grupo controlador do Ueno até março de 2025. O presidente afirma que não mantém vínculo societário com a instituição atualmente.

Após a intervenção, Peña pediu a saída do presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que apresentou renúncia.

Ainda nesta quarta-feira, 35 parlamentares da oposição apresentaram um pedido de impeachment contra Peña, com acusações envolvendo conflito de interesses e aplicação de recursos públicos no banco. O grupo, porém, não dispõe atualmente da maioria de dois terços necessária para levar o processo adiante. 

Penã encaminhou ao Senado o pedido de aprovação da nomeação do economista Raúl Vera Bogado como novo presidente do Banco Central do país. O governo indicou ainda Pedro Acosta para ocupar uma diretoria da autoridade monetária, de acordo com registro de Peña no X.

Semelhanças com o caso Master

O Master também cresceu rapidamente nos anos anteriores à crise e utilizou produtos protegidos pelo FGC para captar recursos. Em novembro de 2025, o Banco Central brasileiro decretou  liquidação extrajudicial da instituição e tornou indisponíveis bens de controladores e ex-administradores.

No Brasil, a investigação passou a apurar, entre outros pontos, supostas carteiras de crédito fraudulentas e negócios envolvendo o BRB. Em outubro deste ano, a Polícia Federal indiciou Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas em uma frente da investigação que identificou aproximadamente R$ 2,7 bilhões em perdas reconhecidas relacionadas a operações do BRB. A defesa de Vorcaro contesta a existência desses prejuízos.

O custo para o sistema de garantia brasileiro também foi enorme. O FGC estimou em cerca de R$ 40,6 bilhões as garantias relacionadas ao conglomerado Master. 

No Ueno, o foco está principalmente em empréstimos, sobregiros e movimentações envolvendo empresas relacionadas ao grupo controlador. No Master, uma das principais frentes envolve carteiras de crédito consideradas fraudulentas e transações realizadas com o BRB.

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